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Perdão, Dhlakama!

Desde que me lembro como ser pensante, foi-me incutido pela família, pela sociedade, pelos tutores e afins, que devia odiar aquele homem. E chegaram a conseguir. Até uma determinada altura, eu odiava mesmo. É que ele era tudo de errado que a nossa sociedade combatia: ele pilava crianças, cortava estradas e impedia o desenvolvimento do país. Desviava camiões com mercadorias que abasteciam as comunidades. Era matsanga, marginal, incendiário, inimigo do progresso do povo… Enfim, era o leproso político e social.

Foi um feito e tanto. É que eu não era uma ilha — a geração de 80-90 foi muito prejudicada por conta disso. Hoje, não sabemos mais como compensar o tempo perdido. Sentimo-nos injustiçados, pois agora entendemos que aquele homem, na verdade, apenas sonhava com um país diferente. Um país mais igualitário no que concerne às oportunidades, com liberdade e justiça! Sentimos vergonha, mas, no entanto, há esperança… É que, igualmente, sentimos que temos o dever de reescrever a história. A cripta da Praça não pode deter exclusivamente o poder de determinar quem foi, de facto, herói. É que a Praça é o povo — e é o mesmo povo quem coroa os seus heróis.

Vejo aquele homem como um herói, que lutou por nós numa causa outrora incompreendida por nós…

Voltando a um passado tão doce e amargo, hoje, por conta dos remorsos, lembro que estudei com o filho do Anselmo Victor (quadro da RENAMO). Ele era muito inteligente. Acho que somente isso fazia com que se esquecessem da sua “lepra”. Ele era meu amigo. Eu estava constantemente interessado nas histórias dele sobre “Maringwe” (posso ter escrito mal, mas ele pronunciava assim). Os olhos dele brilhavam quando falava do Dhlakama, da sua generosidade e inteligência. Para uns, aquilo era terror, mas eu escutava tais relactos como se ele estivesse a descrever o Jardim do Éden…

Hoje, mais do que nunca, entendo o meu amigo. Entendo, igualmente, a sua dor ao notar que era tratado de forma diferente, pois pertencia a uma família que não só pensava, mas vivia diferente — e sonhava fazer a diferença pelo país inteiro.

Este país precisa de reconciliação histórica. Eu sinto dor. E não é endeusamento, não — pois ele tinha os seus pecados, assim como continuamos a cometer os nossos.

Na terra onde fui forjado, diz-se: Izvinite, pajalusta — Perdão, Dhlakama, perdão!

Émerson Chiloveque

 

Moçambique: os hidrocarbonetos e a receita de milhões de dólares

 Vezes sem conto ouço ou leio autênticas “estupidezes”, algumas subscritas por quem tem responsabilidades e que, por isso, deveria ter outra postura, mais conscienciosa e mais séria, sobre alguma das riquezas moçambicanas.

  Os hidrocarbonetos representam uma das mais importantes – gás natural (Moçambique tem das maiores reservas do Mundo) e petróleo (estão em pousio os poços, bastando prospectar – primeiro – e, depois, iniciar a exploração) – fontes para se transformar e mudar Moçambique. Também para se reencaminhar e se reorganizar o País, dando-lhe estofo para, e de uma vez por todas, depois de 50 anos já passados sobre a Independência – nada foi feito até hoje – se fazer ao futuro e ao desenvolvimento partilhado e sustentado.

Antonio Barreiros

  Mas o que me convoca aqui hoje, a esta Palavra, é desfazer equívocos e ideias peregrinas de gente avisada, mas sem nada na cabeça ou convencida de que basta estalar os dedos e já está. Como quem carrega no botão e dá à luz, como quem olha o céu e vê estrelas, como quem risca um fósforo e tem uma faísca que se converte em lume…e por aí adiante.

  Nada disso. Nada mais patético. Nada mais infantil.

  Primeiro que tudo é preciso dispor de alta tecnologia e equipamentos que custam milhões de dólares para prospectar hidrocarbonetos, escoando anos e anos para o efeito. Multiplicado em gastos, resultantes de combustíveis para ter essa maquinaria a trabalhar; consequência de vencimentos para todo o tipo de técnicos e de pessoal indiferenciado; resultado de criar condições no terreno, seja em land ou em off-shore, para abrigar pessoal, distribuir refeições e por aí adiante; acaba-se numa pipa de massa, em biliões de biliões de dólares.

  Ora, depois de toda essa fase inicial, lança-se a exploração para venda. Venda que vai permitir liquidar todas as avultadas despesas com a tal prospecção. Será que quem fala em receber, imputando sempre culpas aos ocidentais e às empresas americanas e europeias que – dizem – exploram África, tem consciência dos gastos enormes com essa 1.a fase que se torna necessário pagar? E essas mesmas pessoas terão consciência, também, que Moçambique tem “Dívidas Ocultas” de biliões de dólares que estão por liquidar, junto de Bancos, que se atravessaram para emprestar, tendo como estrado a Dívida Soberana moçambicana?

  Houve quem andasse à frente, como a Anadarko Petroleum/USA, a ENI/Itália e a Galp/Portugal para prospectar e para descobrir jazidas de hidrocarbonetos, o que aconteceu. Agora, numa primeira instância, há que pagar esse esforço. Depois, as dívidas que os governantes da Frelimo contraíram, tendo tirado dividendos para as suas próprias contas bancárias. Só depois disso é que poderá vir o encaixe financeiro. Até lá, vejam se fazem contas… António Barreiros, Jornalista

LAM: CIP exige de Chapo a verdade inteira, nomes incluídos

A cada dia que passa, a Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) revela-se menos empresa e mais um terreno minado com uma arquitectura refinada de pilhagem. O Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, reconheceu esta semana que há interesses privados a sugar a LAM por dentro, mas parou no meio do caminho, falou de esquemas, mas calou os nomes. O Centro de Integridade Pública (CIP) não está para meias palavras. Pede frontalidade. E exige transparência com nomes, cargos e funções.

A intervenção presidencial deu-se na segunda-feira, 28 de Abril, durante a apresentação do balanço dos primeiros 100 dias de governação, no Centro Internacional de Conferências Joaquim Chissano, em Maputo. Ali, perante os microfones, Chapo admitiu que a companhia de bandeira está a ser sabotada por gente que prefere o arrendamento de aviões à compra, para garantir comissões chorudas em negócios opacos. Segundo o Presidente, há “conflitos de interesse”, gente a mamar das rendas e a impedir que a empresa tenha aviões próprios.

O CIP, numa análise publicada dias depois, assinada pelos investigadores Baltazar Fael e Ivan Maússe, reage com a precisão que a situação impõe, o discurso presidencial fica aquém das exigências de transparência e responsabilidade pública. Não basta denunciar a existência de corrupção. É preciso nomear os corruptores. E os corrompidos. “Falar sem actuar é perpetuar o esquema”, adverte o relatório do CIP.

Segundo o mesmo documento, Chapo relatou que doze pessoas viajaram à Europa com fundos dos novos accionistas da LAM para inspeccionar aeronaves. Regressaram ao país de mãos vazias. Disseram que não viram avião nenhum. Um episódio quase surreal, que ilustra, segundo o CIP, “a persistência de uma cultura institucional onde ninguém responde, ninguém explica, ninguém é demitido”.

Pior: o Presidente anunciou o cancelamento do concurso para a compra de três aeronaves como parte de uma alegada reestruturação. Mas o CIP questiona o gesto. É reestruturação ou fuga à responsabilização? É reforma ou recuo? O CIP exige clareza, nome por nome, factura por factura.

“É fundamental que o Presidente da República diga ao povo quem são os actores envolvidos, que interesses representam, quais os cargos que ocupam e que acções estão a ser desencadeadas contra eles”, escreve o CIP. E vai mais longe: sem essa verdade inteira, não há ruptura com o passado. Só reposição cínica do mesmo enredo.

E parece que esse é o dilema central, pode o Presidente prometer moralização da vida pública sem rasgar o véu dos cúmplices? O CIP acredita que não. E, por isso, exige de Chapo o que exige de qualquer servidor público: verdade, nomes, consequências.

O Presidente sabe quem são. O país também merece saber.

Dhlakama: O homem que voltava sempre às matas

Por ocasião do aniversário da sua morte, 3 de Maio

Afonso Dhlakama não morava em nenhum lugar fixo. Dormia em Gorongosa, falava de Maputo, pensava em Roma. Vivia no compasso de um país que, como ele, aprendeu a respirar entre o barulho das armas e o sussurro da paz. Era um homem de silêncios estratégicos e discursos inflamados. Um homem que se fazia presente mesmo quando todos julgavam que se tinha perdido no mato.

Dhlakama era feito da substância que o barro da guerra molda com sangue, suor e promessas. Não era herói nem vilão – era consequência. Como todas as figuras que o tempo esculpe com ferro e fogo. Cresceu com o país a ferver de promessas revolucionárias, e quando percebeu que não havia lugar para ele na nova FRELIMO, virou-se contra ela. Com armas. Com homens.

Não se compreende Dhlakama sem se ouvir o silêncio do camponês que enterrava filhos em nome de ideologias que nunca lhe explicaram. Ele liderava uma guerra que começou por mãos alheias, mas que acabou por lhe pertencer. Tomou o leme da RENAMO em 1979, depois de Matsangaíssa tombar. E ali ficou, como quem herda uma casa em ruínas e decide morar nela até que os telhados lhe caiam sobre os ombros.

Dhlakama não confiava no poder – desconfiava dele. Nem no dele próprio, talvez. Por isso, nunca entregou as armas por completo. Assinou papéis em Roma, apertou mãos com Chissano, mas nunca largou o mato de verdade. Havia nele a convicção profunda de que a democracia, tal como lhe era oferecida, tinha rascunhos mal desenhados. Era preciso manter os Kalashnikov à mão, só por precaução.

O povo, esse, votava nele com os olhos marejados de promessas. Em 1994, depois da guerra, foi às urnas e ficou em segundo. Depois, mais uma vez. E outra. E outra ainda. Em 1999, chegou perto. Quase metade dos votantes o quiseram presidente. Mas o “quase” em política é como o meio passo no abismo, não leva a parte alguma. E Dhlakama, ressentido, recuava sempre às matas, como quem diz: “o mato é meu lar, não me iludo com palácios”.

A sua figura era incómoda. Um rebelde demasiado organizado para ser ignorado. Um político demasiado imprevisível para ser confiável. Mas, paradoxalmente, foi ele quem manteve acesa a chama de um sistema multipartidário em que poucos acreditavam. Sem Dhlakama, a democracia moçambicana seria um teatro de um só actor. Foi a sua presença constante, ora com armas, ora com discursos que obrigou o sistema a sentar-se e a negociar.

Aos olhos de muitos, morreu sem cumprir o destino. Mas qual seria esse destino? Ser presidente? Talvez. Mas talvez o seu destino fosse outro, o de ser a pedra que incomoda o passo, a sombra que obriga o rei a olhar por cima do ombro. Talvez tenha sido esse o seu maior papel, o de manter viva a lembrança de que nenhum poder é eterno, e que o povo – esse mesmo povo de capulana e enxada – merece ser ouvido.

Morreu a 3 de Maio de 2018, entre serras que o viram crescer como guerreiro e político. Morreu como viveu, no meio do caminho entre o mato e a cidade. Entre a bala e o boletim de voto. Entre o confronto e a reconciliação.

Hoje, o seu nome é sussurrado com respeito e medo. Mas nunca com indiferença.

Porque Dhlakama foi isso: o homem que, quando todos queriam esquecer, voltava sempre às matas.

 

Afonso Dhlakama: Entre armas e negociações, o legado de um rebelde

Assinalando-se a 3 de maio mais um aniversário da morte de Afonso Dhlakama, é tempo de repensar o percurso do líder histórico da RENAMO, figura paradoxal no destino político de Moçambique. Nascido em Sofala em 1953, Dhlakama participou da luta pela independência, integrando em 1974 as fileiras da FRELIMO, partido dominante após 1975. Pouco depois, contudo, rompeu com a FRELIMO e em Harare fundou a Resistência Nacional de Moçambique (RNM), com apoio do regime racista da Rodésia, movimento que pouco depois rebatizaria RENAMO. Desse modo, tornou-se chefe militar de um braço armado opositor ao regime de Samora Machel, substituindo em 1979 André Matsangaíssa como líder máximo após o assassinato deste em combate. Assim, em plena guerra civil, que durou cerca de 16 anos e ceifou mais de um milhão de vidas, deslocando quatro milhões de pessoas – Dhlakama foi a cara das matas moçambicanas, “armas em punho”, contra a FRELIMO.

Da guerrilha à paz: o Acordo Geral de 1992

Ao longo dos anos 1980, RENAMO expandiu-se pelo país, devastando aldeias e infraestrutura. A divergência internacional estava em curso, o governo sul-africano até 1984 patrocinou o conflito, até o Acordo de Nkomati entre Moçambique e África do Sul reduzir esse apoio. Mesmo assim, só em 1992, após a morte do presidente Samora Machel e sob pressão internacional, é que o governo e a RENAMO aceitaram negociações decisivas em Roma. Em 4 de outubro de 1992, o então presidente Joaquim Chissano e Dhlakama assinaram o Acordo Geral de Paz na capital italiana, encerrava oficialmente os 16 anos de guerra civil. Aquele tratado, mediado pela Comunidade de Sant’Egidio, foi um marco fundacional e transformou a RENAMO num partido político legal, o segundo maior do país, e plantou “alicerces para a instauração de democracia”  inaugura-se também as primeiras eleições multipartidárias e a liberalização do sistema político moçambicano.

A RENAMO em Moçambique multipartidário

Com a paz, pela primeira vez em 1994 o país foi às urnas. Dhlakama concorreu à presidência e enfrentou Chissano, obtendo cerca de 33,7% dos votos. Embora derrotado, cumpriu o papel de líder da oposição legal ao concentrar cerca de 37,7% dos votos legislativos para a RENAMO naquela eleição. Nas seguintes disputas presidenciais, aumentou essa presença eleitoral, Dhlakama alcançou 47,7% em 1999, mas nunca conseguiu alçar-se ao poder. Ao mesmo tempo, a RENAMO manteve um forte perfil militar e os seus críticos afirmam que o partido continuou a “ter um cariz muito militar e armado”, sendo responsabilizado pelos novos surtos de violência e por gerar instabilidade política periódica. Essa contradição marcaria os anos seguintes e o país instalava-se na democracia formal, mas  Dhlakama relutava em abrir mão das armas como instrumento de negociação.

Crises eleitorais e acertos de contas

A prática política nos gabinetes convivia com tensões esporádicas nas matas. Em 2004, Dhlakama voltou a perder as eleições presidenciais, obtendo apenas 31,7% dos votos. Conforme o histórico das eleições, ele recusou aceitar os resultados oficiais,  atitude que repetiu em 2009, e com ela “uma nova crise” político-militar . De facto, a confiança selada com o Acordo de Roma mostrou-se frágil e a RENAMO levantou acampamentos, armas e ameaçou retomar o conflito, e só em 2014 a normalidade (forma de falar) voltou às vésperas do pleito seguinte. Naquele ano, Filipe Nyusi (FRELIMO) venceu com 57% contra 36,6% de Dhlakama, mas RENAMO novamente contestou irregularidades no processo. Não à toa, antes e depois de 2014 ocorreram confrontos armados, por exemplo, ataques em Gorongosa, reduto tradicional de Dhlakama, que o forçaram a um refúgio e, finalmente, a renegociar.

O fim de um ciclo

Nos últimos anos de vida, o presidente da RENAMO mostrou-se disposto a usar armas e palavras. Em 2016-17, sob mediação internacional, acordos sucessivos tentaram pôr fim definitivo aos combates. Até pouco antes de morrer, Dhlakama aproximou-se do presidente Nyusi numa reviravolta notável e sentou-se à mesa para discutir o desarmamento gradual da RENAMO. Esse gesto demonstrou que, para além da dureza de décadas de luta, a sua influência política se dava também por discursos e acordos. Morreu em 3 de maio de 2018 aos 65 anos, deixou Moçambique com uma paz ainda instável mas também com uma democracia na qual ele próprio teve parte.

Legado e contribuição inegável

Dhlakama foi, sem dúvida, uma figura controversa para uns, um “senhor das armas” que atrasou a estabilidade nacional; para outros, um líder de oposição valente que garantiu pluralismo onde havia só partido único. Factos e números não mentem, foi à força das armas que a RENAMO assegurou assento à mesa política. Mas também foi pela negociação que ajudou a fundar a democracia moçambicana. O Acordo Geral de Paz de 1992, assinado com Dhlakama sentado à mesa de Roma, lançou as bases do Moçambique multipartidário. Mais tarde, exigiu políticas constitucionais, como o estatuto especial para o líder da oposição que atestavam a centralidade do seu lugar mas cujas benesses recusou usufruir.

Ao recordar a sua trajetória “com armas em punho e com discursos” (como dizia um velho slogan), constata-se que Dhlakama moldou o sistema político nacional tanto pelo confronto como pela reconciliação. Mesmo recusando resultados e mantendo milícias, ele legitimou a existência de uma via política alternativa. Sem o seu peso, a FRELIMO jamais teria sido compelida a abrir totalmente o espaço democrático. Por isso, no dia em que se homenageia Dhlakama, cabe reconhecer: o seu legado é complexo, mas foi a peça-chave na transição de Moçambique para a democracia multipartidária. A nação segue , busca completar o caminho da paz que Dhlakama ajudou a desenhar – entre armas e palavras, entre o confronto e a reconciliação.

Foto de Bilal Sulay

Dívida: Como mercados financeiros lucraram com o colapso de Moçambique

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Um estudo recentemente publicado pelo Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE) lança uma luz sobre os mecanismos invisíveis através dos quais os mercados financeiros internacionais exploraram a vulnerabilidade estrutural de Moçambique, transformando a crise da dívida que eclodiu em 2016 num lucrativo campo de especulação.

O documento, intitulado “Especulando com as expectativas de expansão e de colapso da economia moçambicana: o papel dos mercados financeiros internacionais”, assinado pelo economista Carlos Nuno Castel-Branco, oferece uma leitura crua sobre como os mesmos actores financeiros que outrora saudaram Moçambique como “modelo de crescimento africano”, foram os primeiros a decretar sua falência iminente, após a revelação das dívidas ocultas contraídas com garantias soberanas fora do controlo do Parlamento.

Entre os anos de 2013 e 2014, Moçambique contraiu dívidas superiores a dois mil milhões de dólares norte-americanos através das empresas EMATUM, ProIndicus e MAM, operações encobertas por garantias do Estado e intermediadas por bancos internacionais como o Credit Suisse e o VTB. Em 2016, com a revelação pública destas dívidas ilícitas, o país mergulhou numa crise económica sem precedentes e os doadores suspenderam o apoio directo ao Orçamento do Estado, a moeda desvalorizou-se violentamente e a inflação disparou.

Segundo o estudo do IESE, esse colapso não foi apenas uma consequência desastrosa da má gestão pública, mas também uma oportunidade deliberadamente cultivada pelos mercados. Ao anteciparem a probabilidade de default, fundos de investimento começaram a adquirir títulos da dívida moçambicana a preços depreciados, com expectativa de lucro elevado em caso de renegociação ou reestruturação da dívida. Nas palavras do boletim, tratou-se de uma “financeirização do colapso”, onde a miséria de um país se converteu em instrumento de acumulação de capital para investidores externos.

As agências de notação financeira, como Moody’s, Fitch e Standard & Poor’s, também são alvo de críticas severas no estudo. Acusadas de agirem como catalisadoras da desconfiança e alimentadoras da especulação, estas entidades rebaixaram agressivamente a classificação de crédito de Moçambique, numa espiral de descrédito que, segundo Castel-Branco, mais serviu para proteger interesses especulativos do que para refletir a real capacidade económica do país.

Os gráficos incluídos no boletim revelam, por exemplo, o salto nos retornos dos eurobonds moçambicanos a partir de 2016, indicativo de que o país passou a ser tratado como um ativo de alto risco – e, portanto, de alto retorno. Moçambique tornou-se um caso exemplar de como as finanças globais operam num campo onde a fragilidade é um recurso explorável, e não uma condição a ser remediada.

O estudo não se limita à crítica,  sugere que esta vulnerabilidade estrutural está enraizada numa dependência histórica do financiamento externo, na ausência de mecanismos internos de controlo e prestação de contas, e na subordinação do Estado moçambicano a lógicas extractivistas globais, especialmente nos sectores do gás e mineração.

Entre 2016 e 2019, o país esteve em moratória parcial, renegociando condições leoninas com detentores de dívida, enquanto o povo moçambicano pagava o preço com cortes em serviços públicos, congelamento salarial e aumento do custo de vida. Castel-Branco sugere que a retórica da “boa governação” promovida pelas instituições internacionais mascarou a real dinâmica e o colapso era previsível, mas foi deliberadamente amplificado para alimentar mecanismos de lucro financeiro.

Num momento em que Moçambique se prepara para nova fase de exploração massiva de gás natural, com promessas renovadas de prosperidade, o IESE deixa uma advertência: sem um reposicionamento soberano e estratégico face ao capital financeiro internacional, o país continuará preso ao ciclo da dependência, da dívida e do colapso.

Moçambique mantém-se entre os países com maiores restrições à liberdade de imprensa

RSF denuncia pressões económicas e assassinato de jornalista como sinais preocupantes.

Moçambique ocupa a 105.ª posição entre 180 países avaliados no Índice Mundial da Liberdade de Imprensa 2025, divulgado esta semana pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Com uma pontuação global de 52,42 pontos, o país mantém-se na categoria de “situação difícil”, ao lado de nações como Mali, República Democrática do Congo e Guiné.

O relatório aponta que a liberdade de imprensa em Moçambique está a ser minada por pressões económicas, violência contra jornalistas e interferências políticas nos órgãos de comunicação social. A organização sublinha o assassinato do jornalista João Chamusse, ocorrido em Dezembro de 2023, como um dos casos mais preocupantes no continente africano.

“A morte de Chamusse, sem esclarecimentos por parte das autoridades, constitui um sinal preocupante da insegurança que afecta o exercício do jornalismo no país”, lê-se no documento.

Financiamento condiciona independência

A dependência de fundos públicos e publicidade estatal é apontada como uma das maiores fragilidades dos media moçambicanos. De acordo com a RSF, o financiamento da imprensa continua a ser pouco transparente e arbitrário, o que coloca os órgãos sob o risco de autocensura para garantir contratos publicitários com instituições do Estado ou empresas próximas ao poder.

O relatório refere que esta situação se repete em vários países africanos, como Benim, Togo e Senegal, onde os subsídios à imprensa são atribuídos sem critérios claros e muitas vezes usados como mecanismo de controlo político.

Concentração da propriedade e riscos económicos

A RSF observa também que em Moçambique, tal como em países como Nigéria, Camarões e Serra Leoa, a concentração da propriedade dos meios de comunicação em grupos privados com ligações políticas tem afectado negativamente a independência editorial.

A ausência de um sistema estável de apoios públicos e a dependência quase exclusiva da publicidade institucional deixam os media vulneráveis a sanções indirectas, como cortes de contratos ou fiscalizações administrativas.

O continente africano registou uma das maiores quedas nos indicadores económicos da liberdade de imprensa, com 80% dos países a perderem pontos nessa categoria, segundo a RSF. Países como Burkina Faso, Mali e Sudão foram destacados por situações extremas que forçaram o encerramento de redações e o exílio de jornalistas.

Apesar do cenário global negativo, África do Sul (27.º), Namíbia (28.º), Cabo Verde (30.º) e Gabão (41.º) aparecem como exceções positivas no continente, com ambientes relativamente mais seguros para o exercício da profissão.

 

Raptos em Moçambique: a matança dos inocentes

Mais um assassinato foi cometido hoje, em Maputo, capital de Moçambique, a sangue frio, à boa maneira das máfias que operam nos Países em que a segurança é uma quimera e não tem cobertura por parte das autoridades.
Tratou-se de um português, natural da zona de Braga, que foi para Moçambique no ano de 1990, para ali exercer a sua actividade como empresário.
Ora, infelizmente em Moçambique, quem tiver dinheiro passa a ser cobiçado por grupos que, diz-se à boca cheia nesse País, têm a mão de alguns polícias e não só. Polícias que se dedicam a ter uns bons trocos nos bolsos para se fazerem à vida que, como se sabe, tem contornos de grande dificuldade numa Nação em que a pobreza atingiu proporções inacreditáveis.
O empresário português, já identificado. Ele seguia no seu carro, com motorista e segurança. Talvez os assaltantes, agressivos e denotando que não estão habilitados a deparar-se com resposta da parte de quem tentam raptar, dispararam a matar, usando metralhadoras.
O relato que nos chegou: “o português, radicado em Maputo há cerca de 20 anos, transportava na viatura, onde iam ainda os seus seguranças, uma elevada quantia em numerário (…)”. O resto é o normal de uma emboscada do género.
Um País, como Moçambique, em que se mata com essa facilidade, em plena luz do dia, está aprisionado por bandos de criminosos que mandam na vida da Nação… Já não existe segurança. Além do mais, mata-se como quem mata uma galinha, sem respeito pela vida humana.
Moçambique entrou numa espiral de violência que o Estado não consegue travar pelo que já não é e nunca foi um Estado de Direito…
Recentemente, o PRG disse, no Parlamento, que tinha indícios de que a polícia e outras pessoas influentes estavam metidas nesse tipo de acção criminosa, mas esqueceu-se de afirmar, com veemência, que iria fazer tudo para banir essa podridão social que amedronta os cidadãos. Pelo que sei, o que não deixa de ser perigoso e demonstra o caos que se atingiu em Moçambique e não só, a problemática dos raptos tem sequência e pode estar ligada a máfias transfronteiriças, ou seja, com ramificações na África do Sul, onde a situação é, também, preocupante. António Barreiros, jornalista

Maputo: Metralhado mais um empresário português

A cidade de Maputo voltou a ser palco de mais um episódio que expõe, com brutal clareza, a fragilidade do Estado moçambicano na proteção da vida humana. José Pedro da Silva, empresário português de 41 anos e administrador da empresa Sotubos, foi assassinado a tiro hoje sexta-feira, 2 de Maio, em plena luz do dia. O modus operandi foi o mesmo de sempre, dois veículos cercam a viatura da vítima, uma rajada de metralhadora silencia mais uma vida e os criminosos evaporam-se num ambiente de total permissividade institucional.

Ao que o Txopela apurou, José Pedro seguia com motorista e segurança privado. Nada disso impediu os atacantes de cumprirem a sua missão com precisão militar. Fontes locais falam de uma tentativa de rapto mal sucedida, embora os contornos do caso ainda estejam envoltos em neblina, a mesma que parece pairar permanentemente sobre a capacidade investigativa da PRM.

A morte do empresário foi confirmada por diversos meios de comunicação portugueses – SIC Notícias, Correio da Manhã, Observador, TVI24 – que não pouparam críticas ao clima de insegurança em Moçambique. A indignação transbordou para os corredores diplomáticos em Lisboa, com o governo português a exigir explicações ao seu homólogo moçambicano.

Este não é um caso isolado. José Pedro junta-se à lista de cidadãos portugueses assassinados em Moçambique nas últimas duas décadas, em circunstâncias que variam entre assaltos, raptos e execuções frias. Os dossiês destes casos jazem esquecidos nas gavetas da justiça, engavetados pelo medo, incompetência ou conivência. Em cada um deles, o denominador comum é a ausência de respostas e a contínua descredibilização das instituições do Estado.

O impacto político e económico da tragédia é profundo. A confiança dos investidores estrangeiros já abalada por sucessivos raptos e extorsões resvala perigosamente para o abismo. Empresários portugueses estabelecidos no país, ouvidos por meios lusos, falam em “clima de terror” e admitem abandonar Moçambique. Não se trata de alarmismo, trata-se de uma leitura fria da realidade de um Estado em colapso em matéria de segurança urbana.

A cidade do medo

Maputo transformou-se numa metrópole sitiada, onde a vida humana vale menos do que o telemóvel de última geração. A presença de forças de defesa e segurança não inibe o crime organizado; pelo contrário, alimenta suspeitas de infiltração e cumplicidade. Quem deve proteger, muitas vezes protege-se a si próprio ou aos esquemas que garantem silêncio e rendimentos fáceis.

 

RENAMO marcha em Quelimane em memória de Afonso Dhlakama

A cidade de Quelimane será, este sábado (03), palco de uma marcha promovida pela RENAMO em homenagem ao seu histórico líder, Afonso Dhlakama, falecido há precisamente sete anos.

A mobilização, que arranca às 8h00 da sede distrital da Perdiz, deverá percorrer as principais artérias da capital zambeziana, numa acção simbólica que pretende recordar o legado político de Dhlakama, figura incontornável da oposição moçambicana e defensor do multipartidarismo.

A marcha ocorre num contexto de incertezas internas no seio do partido, que ainda busca reorientar-se após a sua morte, mantendo viva a narrativa de resistência contra o centralismo do poder.