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Buzi: Bicicletas para educação ou pedalar contra a abandonada estrada do Estado?

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Numa cerimónia que juntou aplausos protocolares, lágrimas de gratidão e muitas câmaras fotográficas, o administrador distrital de Búzi, João Saize, entregou esta semana 128 bicicletas a alunos da Escola Básica de Inharôngue, numa acção inserida no Projecto Bicicletas para Educação, com selo do UNICEF. A medida, segundo o governante, visa combater a impontualidade escolar entre crianças que percorrem vários quilómetros a pé, diariamente, em busca de ensino.

Das bicicletas distribuídas, 90 foram atribuídas a raparigas, num gesto de reconhecimento das dificuldades acrescidas que as meninas enfrentam no seu percurso escolar, não só em distância, mas também em segurança, estigmas e responsabilidades domésticas.

O gesto é nobre, mas deixa uma pergunta inevitável, é aceitável que, em pleno 2025, a política pública para acesso à educação em zonas rurais se reduza à entrega de bicicletas?

A imagem das meninas a pedalarem ao nascer do sol pelas picadas de Búzi é, ao mesmo tempo, poética e brutal. Poética, porque é um sinal de esperança em movimento. Brutal, porque revela o nível de abandono das zonas remotas, onde o Estado chega mais depressa através de um donativo internacional do que com políticas estruturais de transporte escolar, construção de escolas próximas ou residências estudantis.

O Projecto Bicicletas para Educação tem sido implementado em vários distritos do país, e embora tenha gerado impacto positivo nas taxas de assiduidade e retenção escolar, não deve tornar-se substituto da obrigação do Estado em garantir mobilidade digna e infraestruturas acessíveis.

Não é segredo que muitas das estradas em Búzi e arredores são autênticas armadilhas. Em época chuvosa, tornam-se intransitáveis. Em tempo seco, levantam nuvens de pó que colam ao uniforme e à dignidade. Ao entregar bicicletas, o governo distrital assume tacitamente que os alunos continuarão a percorrer longas distâncias sem segurança rodoviária, sem sinalização e, muitas vezes, sob o risco de violência ou abuso, sobretudo as raparigas.

João Saize, o administrador, falou de “melhoramento do processo de ensino e aprendizagem”, mas não abordou a ausência de residências escolares, nem a escassez de professores nas zonas remotas, nem os desafios das escolas que ainda funcionam debaixo de árvores ou com carteiras improvisadas.

Que este projecto seja financiado pela UNICEF e não pelo Orçamento do Estado preocupa o mais atento cidadão sobre a sustentabilidade das intervenções no sector da educação rural. O que acontece quando o parceiro retirar o financiamento? O que está a ser feito em paralelo para garantir que estas bicicletas durem, tenham manutenção e não se transformem em sucata ambulante no prazo de um ano?

Sem respostas estruturais, o risco é perpetuar a lógica de “pedalar para sobreviver”, numa escola pública que exige esforço olímpico para quem só quer aprender a ler, contar e sonhar.

Nampula Mart: O sonho de Giquira entre pregos, frango assado e importados da China

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Nampula – Foi com um sorriso largo e um corte de fita solene que o Presidente do Conselho Municipal de Nampula, Luís Madubula Giquira, deu por inaugurado o mais recente templo do consumo na capital do norte o Nampula Mart. Um espaço comercial ambicioso, plantado estrategicamente na Rua de Tete, onde o alcatrão ainda é promessa e a poeira é vizinha de todas as manhãs.

O novo mercado, misto de bazar popular e centro comercial minimalista, junta tudo no mesmo lugar, desde sacos de arroz e até liquidificadores de terceira geração e kebabs com molho agridoce. É, segundo o edil, um símbolo de resiliência económica, fruto do esforço de agentes económicos que, apesar das dificuldades, continuam a apostar no crescimento da cidade.

Mas a questão que se levanta, entre o tilintar das moedas e o cheiro a frango grelhado, é: crescimento para quem? E mais ainda, qual o modelo de cidade que Giquira está a tentar moldar? Por detrás do brilho das vitrinas recém-instaladas, o Nampula Mart espelha uma tendência cada vez mais evidente, a tentativa de institucionalizar a informalidade sob fachadas modernas. Muitos dos comerciantes ali presentes são os mesmos que, dias antes, montavam as suas bancas em estruturas improvisadas ou vendiam ao relento. Agora, pagam rendas e adaptam-se ao figurino semi-urbano que o município tenta impor.

Giquira fala de revitalização económica e circulação de produtos nacionais e importados, mas o que se viu na inauguração foi uma forte presença de artigos chineses e sul-africanos, com poucas bancas a exibirem rótulos “Made in Moçambique”. O discurso da soberania económica ainda não chegou às prateleiras.

A geração Tsucana vai à reserva: Chapo afina a orquestra nas Forças de Segurança

Num movimento cirúrgico mas carregado de significados, o Presidente da República e Comandante-Chefe das Forças de Defesa e Segurança (FDS), Daniel Francisco Chapo, ordenou esta semana a passagem à reserva de uma camada significativa do topo da Polícia da República de Moçambique (PRM). A lista, que inclui nomes como o Comissário Fernando Francisco Tsucana e vários primeiros-adjuntos e adjuntos do comissário, pode parecer um gesto de rotina administrativa – mas, na realidade, configura uma reengenharia silenciosa do aparelho de segurança do Estado.

O comunicado oficial, seco e burocrático, menciona a legalidade dos despachos presidenciais, invocando o artigo 47 da Lei n.º 16/2013 e os decretos regulamentares do Estatuto do Polícia. Mas para quem acompanha os corredores do poder, fica claro que estamos diante de uma mudança de guarda com implicações políticas que vão muito além das palavras tecnocráticas.

Fim de ciclo para a era pós-Kainda?

Fernando Tsucana não é um nome qualquer. Figura respeitada nas fileiras da PRM, o comissário representa uma geração que se formou e consolidou sob a égide dos anos quentes do pós-guerra e da consolidação do poder policial no espaço civil. A sua saída, acompanhada de Domingos Jofane, Júlio Bonicela, Abílio Ambrósio, Quiasse Madiquida e outros, marca o fim tácito de uma era e o início de outra – ainda sem rosto visível, mas com impressões digitais do novo inquilino da Ponta Vermelha.

Se Nyusi iniciou uma aproximação ambígua às estruturas da PRM, Chapo parece estar a desenhar o seu próprio organograma de confiança dentro das FDS. A passagem à reserva dos oficiais superiores sinaliza um reposicionamento estratégico que, segundo fontes contactadas pelo Txopela, poderá abrir espaço para promoções aceleradas de quadros mais jovens, potencialmente alinhados com a nova visão de governação.

Segurança e lealdades: o jogo de sempre

O que está em jogo não é apenas o rejuvenescimento da corporação policial. É a configuração das lealdades internas no seio da polícia, num momento em que o país enfrenta tensões sociais latentes, contestação política pós-eleitoral e um espectro crescente de manifestações populares. Ter nas chefias da PRM homens (e mulheres) da mais estrita confiança política é mais do que uma necessidade técnica, é uma condição de sobrevivência para qualquer Presidente que pretenda governar com alguma margem de estabilidade.

Analistas em Maputo consideram que Chapo está a consolidar o que alguns já chamam de doutrina do silêncio activo: fazer mudanças estruturais sem fanfarras nem polémicas públicas, mas com impacto profundo nos mecanismos de controlo e actuação do Estado.

Mais do que discursos, o país aguarda por uma reforma efectiva das FDS, maior transparência, formação técnica, respeito pelos direitos humanos e verdadeira subordinação à legalidade constitucional, temas que ainda andam a reboque de reformas inconclusas.

Fica por saber quem serão os nomes que vão ascender às funções agora vagas. Os próximos despachos presidenciais dirão muito sobre o grau de confiança que Chapo deposita nos diferentes círculos dentro da Polícia e, por extensão, sobre a direcção estratégica da segurança pública nos próximos cinco anos.

Por enquanto, o Presidente moveu as suas peças com discrição. Mas no xadrez do poder, nem sempre quem fala menos tem menos ambição. A reorganização das forças policiais pode ser o primeiro passo para consolidar um modelo de governação onde a autoridade é menos teatral, mas ainda mais profundamente centralizada.

Chapo em Inhambane: Visão, promessas e a nova gramática da governança pós-Nyusi

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Ao concluir a sua primeira visita presidencial à província de Inhambane como Chefe de Estado, Daniel Chapo ofereceu ao país mais do que um balanço administrativo, apresentou uma nova gramática de governança onde se entrelaçam performance institucional, afecto político e promessa industrial. Em três dias de roteiro intensivo, o Presidente da República misturou discursos de continuidade com sinais de reinvenção, tendo como pano de fundo o lançamento do colossal projecto da Cidade Petroquímica Nacional, uma promessa de mais de 10 mil empregos e a industrialização como nova fronteira da esperança nacional.

A “marca Chapo” em construção

Do corte de fitas na cidade de Inhambane à inauguração de infraestruturas governamentais “geminadas”, Chapo começou por apostar num símbolo, racionalidade e modernização da máquina estatal. “Menos rendas, mais serviços”, parece ser a leitura que quis deixar ao cortar gastos públicos com arrendamentos,  foco na eficiência administrativa.

Mas o verdadeiro conteúdo da sua mensagem foi revelado nas entrelinhas: o Presidente quer mostrar serviço, e depressa. “Poucas palavras, muita acção”  uma frase que leva como novo lema presidencial e que coloca o seu estilo em contraste com a retórica frequentemente prolongada da era Nyusi.

A visita incluiu encontros com líderes locais, religiosos e administradores distritais. Nesses fóruns, Daniel Chapo escutou, ou pelo menos encenou escutar, os anseios dos vários estratos sociais. Com destaque para a juventude empreendedora, sobretudo mulheres, o Presidente investiu simbolicamente no capital humano feminino como motor da transformação. Um gesto politicamente carregado num mês de celebração da mulher e num país ainda marcado por desigualdades estruturais.

Em Massinga, distrito mais populoso da província, o comício de agradecimento tomou contornos quase espirituais: “paz, reconciliação, segurança, harmonia”. Se por um lado foi um gesto de gratidão política, por outro pareceu um esforço calculado para afastar os fantasmas das manifestações que ainda pairam em várias regiões do país.

O clímax da visita deu-se em Mavanza, Vilankulo, onde Chapo lançou o megaprojecto da Cidade Petroquímica Nacional, orçado em dois mil milhões de dólares e promovido pela enigmática Phoenix International Group, uma empresa que, curiosamente, tem multiplicado iniciativas estratégicas no país com ritmo e visibilidade compatíveis com campanhas políticas.

Mais do que um investimento, o projecto surge como um novo mito fundador, transformar Moçambique “numa referência na industrialização em África”. Com promessas de 4.500 empregos directos e 5.000 indirectos, uma terminal portuária e exportações de “sal vegetal”, a proposta é tecnicamente ousada, mas politicamente conveniente. Resta saber se não se trata de mais uma cidade fantasma em construção ou de um cavalo de Tróia financeiro que camufla interesses opacos.

A visita de Chapo a Inhambane funcionou como laboratório político da sua governação. Houve escuta, houve acção, houve anúncio. Mas também houve coreografia. A obsessão com números “acima dos 100 por cento” de cumprimento, a recorrente celebração da paz e o encorajamento à juventude revelam um Presidente empenhado em marcar uma nova etapa. Ainda assim, a prudência é necessária.

O histórico de megaprojectos em Moçambique está manchado por fracassos, opacidades e benefícios concentrados em elites. Para que a Cidade Petroquímica Nacional não se transforme noutra miragem, será essencial um acompanhamento público rigoroso, transparência contratual e inclusão efectiva das comunidades locais.

O discurso de Chapo é novo. As promessas são ambiciosas. A retórica está alinhada com o que o país precisa ouvir. Mas no fundo, como o próprio admitiu, “é tempo de acção”. E é isso que o povo moçambicano vai cobrar.

 

Chapo lança megaprojecto petroquímico em Inhambane e fala de transformação económica com “marca presidencial”

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Mavanza, Vilankulo – O Presidente da República, Daniel Chapo, lançou esta quinta-feira, na pacata comunidade de Mavanza, distrito de Vilankulo, aquele que é já considerado um dos mais ambiciosos empreendimentos industriais jamais projectados em território nacional, a Cidade Petroquímica Nacional. Com um investimento inicial de dois mil milhões de dólares norte-americanos, o projecto promete transformar a paisagem económica e social da província de Inhambane – e, com ela, o próprio mapa da industrialização moçambicana.

“É com muita satisfação que estamos, hoje, nesta comunidade de Mavanza […] para testemunhar um acto de grande significado para a província de Inhambane e para o nosso país”, declarou Chapo, perante uma assistência cuidadosamente mobilizada, num evento coreografado para sublinhar a magnitude do anúncio.

O projecto será implementado pela Phoenix International Group, a mesma firma que há duas semanas deu início à construção de seis mil apartamentos na Costa do Sol, em Maputo, numa ofensiva empresarial que parece cada vez mais alinhada com os interesses estratégicos do Governo. “Esta decisão mostra a confiança dos investidores estrangeiros para com Moçambique como destino seguro do investimento privado”, declarou o Chefe de Estado, num tom que pretendia reforçar a sua narrativa de estabilidade e abertura ao capital externo.

Segundo os dados apresentados, a futura cidade industrial contará com refinarias, centrais térmicas, unidades de produção de fertilizantes, amoníaco, ureia, cloro e plásticos, bem como uma zona residencial equipada com escolas, hospitais e centros comerciais. Um parque industrial completo, pensado sob medida para exportar a imagem de um Moçambique em plena viragem para o século XXI.

Chapo avançou que o projecto poderá criar mais de nove mil postos de trabalho – 4.300 directos e cerca de 5.000 indirectos –, além de enviar imediatamente cerca de cem jovens ao estrangeiro com bolsas de estudo, de modo a prepará-los para assumirem funções de chefia no novo empreendimento. “É uma transformação fenomenal esta que estamos a fazer”, disse, reforçando a ideia de que o projecto se insere numa visão presidencial de industrialização com rosto humano.

Com promessas de um impacto directo no Produto Interno Bruto estimado em 1.150 mil milhões de meticais, o estadista não poupou nas palavras: “Queremos construir mais estradas, mais hospitais, mais escolas, mais medicamentos para a nossa população, mais livros ‘mahala’, mais expansão de energia eléctrica, mais água para o nosso povo”, afirmou, numa lista que mais parecia retirada de um comício do partido no poder do que de um lançamento técnico-industrial.

Tal como é habitual, não faltou o apelo à paz, estabilidade e disciplina comunitária. Chapo louvou os residentes de Mavanza por se manterem alheios à onda nacional de protestos e manifestações pós-eleitorais. “Confirmámos que Inhambane ama a paz e é a verdadeira Terra de Boa Gente”, afirmou, amarrando a postura ordeira da comunidade à viabilidade do projecto.

Comentário Editorial:
No que pode ser visto como o arranque de uma nova etapa da política de megaempreendimentos em Moçambique, o Governo de Daniel Chapo joga alto ao ancorar o seu capital político em promessas de transformação industrial profunda. Contudo, o histórico nacional de grandes projectos com benefícios diluídos para as populações locais exige cautela. A retórica do Presidente parece querer preencher, de imediato, os vazios estruturais do país, mas permanece por saber se o impacto deste projecto será sentido para além dos indicadores macroeconómicos. Resta agora acompanhar, com lupa crítica, se a “Cidade Petroquímica Nacional” será uma realidade que transforma ou mais um monumento ao discurso do possível.

Chapo apela à paz e condena violência pós-eleitoral em Massinga

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Guma, Inhambane – Num acto carregado de simbolismo político e apelo à coesão nacional, o Presidente da República, Daniel Chapo, reiterou esta quinta-feira, na localidade de Guma, distrito da Massinga, que a paz, o diálogo inclusivo e a reconciliação devem constituir a pedra angular do desenvolvimento de Moçambique.

Na recta final da sua visita de três dias à província de Inhambane, o Chefe de Estado procurou projectar uma imagem de estadista conciliador, insistindo que o país não pode ser refém da violência nem do discurso de ódio que, segundo as suas palavras, minam os alicerces de uma Nação plural.

“Decidimos que vamos fazer tudo por tudo para que haja paz em Moçambique, para o povo viver em paz”, proclamou Chapo, num comício popular marcado pelo libertar de dois pombos brancos, metáfora visual de um apelo que, embora reiterado, parece esbarrar com realidades que desafiam o próprio discurso presidencial.

Com os olhos postos no maior círculo eleitoral de Inhambane – onde obteve vantagem expressiva nas eleições de 9 de Outubro de 2024 –, Chapo fez questão de agradecer pelo voto de confiança, mas não fugiu ao tema espinhoso da contestação eleitoral que se seguiu. Condenou, com veemência, os episódios de violência pós-eleitoral e os danos a bens públicos e privados, chamando a atenção para o impacto destrutivo de tais acções. “Não se constrói um país com violência, com ódio”, sentenciou. “Em política não há inimigos, apenas há adversários”.

Numa aparente tentativa de responder a uma exigência social de justiça e reforma, o Presidente fez referência ao progresso do diálogo político com as forças da oposição e outros segmentos da sociedade, indicando que este já culminou na criação de um documento legal orientador do processo de reconciliação nacional.

“O discurso de ódio tem de acabar”, declarou, acrescentando que “o perdão, a paz e a unidade devem começar em casa, nas comunidades, nas escolas, e estender-se a todo o país”.

A par dos apelos à moralização da política e da sociedade, Chapo introduziu elementos de sua agenda económica, com a promessa da criação de um fundo específico para apoiar iniciativas locais, sobretudo envolvendo jovens e mulheres. O agro-processamento foi apontado como uma das áreas prioritárias, prevendo-se a abertura de novas linhas de financiamento.

O estadista aproveitou também para denunciar cobranças ilegais em unidades sanitárias, particularmente a parturientes, comprometendo-se a continuar a premiar os bons servidores públicos, ao mesmo tempo que reforçava a narrativa da “função pública ao serviço do povo”.

A população de Guma, por sua vez, não perdeu tempo em expor as feridas de um Estado ausente. Os pedidos variaram desde furos de água potável, melhoria das vias de acesso, expansão da rede eléctrica, até ao tratamento digno para antigos combatentes, cuja situação de pensões continua envolta em desigualdades e atrasos.

Chapo encerrou o comício com menção ao jubileu de ouro da independência nacional, marcado para 25 de Junho próximo, convidando os moçambicanos a celebrar a efeméride com entusiasmo. Referiu-se ainda à passagem da Chama da Unidade Nacional, actualmente no Niassa, como símbolo da caminhada colectiva rumo a um país que “vai desenvolver com paz, harmonia e segurança”.

Comentário Editorial: Se o discurso presidencial soou conciliador, não deixou, contudo, de tangenciar com a retórica habitual de promessas e de apelos morais. Fica por saber até que ponto o apelo à paz pode florescer em solos onde o Estado continua surdo às exigências mais básicas de justiça social e equidade. Paz não se proclama: constrói-se. E os discursos, por mais simbólicos que sejam, não substituem a acção transformadora esperada de um Presidente.

Quelimane recebe cinco novos autocarros para transporte urbano

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A cidade de Quelimane recebeu, na tarde desta quinta-feira, cinco novos autocarros, popularmente conhecidos por machimbombos, que deverão operar no perímetro urbano sob a gestão da Empresa Municipal de Transporte, afecta ao Conselho Municipal de Quelimane.

A chegada dos veículos representa uma promessa em vias de materialização no que toca à melhoria da mobilidade urbana e ao alívio da pressão que recai sobre os munícipes que diariamente enfrentam dificuldades para se deslocar nos principais bairros da urbe.

Embora a edilidade decline, por ora, prestar declarações públicas sobre a operação dos autocarros, o Txopela apurou, de fontes próximas ao processo, que a entrada em funcionamento dos mesmos é iminente. Isto porque os motoristas que irão servir os cidadãos foram recentemente seleccionados através de um concurso público conduzido pela própria autarquia.

Enquanto os novos machimbombos ainda não circulam, permanece a expectativa sobre os itinerários, os custos de transporte e os mecanismos de fiscalização da frota, elementos centrais para que a iniciativa não se transforme num elefante branco sobre rodas.

 

Xeque-mate de V. Mondlane: não acredito…

Não deixa de ser curioso que se escreva, em tom de aplauso e de louvor, sobre o nome Anamalala (palavra do dialecto macua e lomué) que significa “acabou” e “chegou ao fim”, o que foi aposto num novo partido moçambicano, com a chancela do figurante político V. Mondlane.

 Há quem tenha escrito aqui neste Jornal, numa rúbrica com o baptismo de “Artigo 51”, sob o título “Xeque-mate de Venâncio Mondlane”, que esta personalidade moçambicana fez essa jogada típica de xadrez à Frelimo, ao Governo…

 Não o creio, por várias razões que passo a deixar à consideração dos leitores:

 – V. Mondlane já saltitou nos dois principais partidos de Moçambique, a saber: MDM e Renamo;

 – é um pastor de uma seita religiosa que interpreta, como outras, a seu belo prazer as principais mensagens salvíficas de Cristo e, também, as suas fundamentais parábolas bíblicas e, ainda, a mais profunda doutrina;

 – deixou Moçambique, refugiando-se na Suécia, quando o País e o povo mais precisavam dele, tendo absorvido o que algumas igrejas/seitas religiosas desse País lhe vão ensinando, com um pendor revolucionário;

 – difundiu e instigou, junto do seu povo, em pleno séc. XXI, a estabelecer-se a lei de Talião (olho por olho, dente por dente), numa acção contrária ao espírito da doutrina de Cristo, pois o Filho de Deus veio recriminar essa lei (instituída antes do Velho Testamento…), estabelecendo uma nova ordem social e humana: amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei;

 – colou-se ao partido Podemos que fez dele o seu candidato a Presidente da República para, pós acto eleitoral de 9 de Outubro passado, abandonar esse projecto político-partidário, o que não deixa de ser estranho ou talvez não.

  1. Mondlane, por tudo o que deixo para análise séria e sem a clubite partidária, não conseguirá fazer “xeque-mate” ao partido do poder e ao presente Governo, porque a Frelimo controla o aparelho de Estado, por enquanto.
  2. Mondlane terá de fazer, como é comum em Democracias, todo um trabalho de casa, mas sem recorrer a “guerrilhas” de rua, para correr com a Frelimo. Esteve na AR, como deputado, durante tempos, em representação do MDM e da Renamo. Que actividade denunciante se lhe conhece? Que projecção fez de tudo isso dentro e fora do País? Que portas bateu para continuar a denúncia da vida pública moçambicana?

 Anamalala nunca será “acabou”, porque não é uma palavra de união, dado o poder do tribalismo em Moçambique. Moçambique tem uma identidade condutora por força do português, a língua oficial. Não fora isso e a Nação já se havia desarticulado e partido em duas, aliás, como aconteceu noutros Países do Mundo.

  1. Mondlane deve bater-se, democraticamente, por ter expressão no seio da vida política, social, económica e de outros sectores para ir credibilizando a sua imagem e o seu perfil, para se apresentar numas próximas eleições. Desejo-lhe sorte no seu “Anamalala”…Contudo, não me parece a “peça-chave” para os graves problemas, em todos os eixos da vida nacional, que Moçambique enfrenta. São muitos e de uma dimensão catastrófica…Moçambique, repetirei até à exaustão, precisa de um Plano de salvação Nacional que una os moçambicanos. Nunca precisará de quem fala de “povo ao poder”, porque se trata de uma provocação marxista…

                                         António Barreiros, Jornalista

O xeque-mate de Venâncio Mondlane

Quando a praia se torna aula: Lições de cidadania em Paquitequete

Na praia de Paquitequete, em Pemba, não foi apenas o lixo que se retirou da areia e do mar — foi também o desleixo ambiental que se sacudiu da consciência colectiva. Um dos recantos naturais mais emblemáticos da costa moçambicana foi, no último sábado, palco de uma jornada cívica e ecológica que devolveu dignidade a um espaço tantas vezes esquecido pelas políticas públicas, mas sempre amado pelos que nele vivem e resistem.

Organizada pelas associações AMOR, KUPENDANA e ASMOG, com apoio institucional do Conselho Municipal de Pemba, a acção de limpeza mobilizou 50 membros da comunidade local, num gesto que transcende a simples recolha de resíduos — trata-se de reconquistar o território e reeducar os hábitos.

2.881,8 kg de resíduos sólidos. Não é apenas um número: é o peso da negligência, mas também o símbolo do que pode ser revertido com organização e vontade. A KUPENDANA liderou com 1.585,7 kg, seguida da ASMOG com 1.296,10 kg, entre resíduos PET, HDP e mistos — os fantasmas modernos que insistem em assombrar as nossas águas e margens.

“Não viemos apenas limpar. Viemos lembrar que este espaço tem dono, tem vida, e tem futuro,” afirmou uma voluntária da AMOR.

A acção, integrada no projecto RRCM, não se limitou à limpeza. Trouxe consigo uma pedagogia de sustentabilidade: ensacamento, pesagem, triagem e até aquisição dos resíduos recolhidos, promovendo a lógica da economia circular. É o lixo a transformar-se em lição. É a poluição a dar lugar à acção consciente.

E mais do que qualquer maquinismo institucional, foi o corpo dos moradores — braços, rostos, vozes — que deu alma ao dia. Mulheres, jovens, crianças, todos partilharam sacos, sorrisos e a certeza de que cuidar do ambiente é cuidar de si mesmos.

O que aprendemos em Paquitequete?

Que a mudança não virá de cima, mas sim de dentro e de baixo. Que as praias não precisam apenas de turistas, mas de ternura e zelo. E que o país que queremos começa por cada palmo de areia que escolhemos não deixar ao abandono.

Moza Banco defende uso de Inteligência Artificial para travar fraudes no sistema financeiro

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Numa era de crescente digitalização e sofisticação tecnológica, o Moza Banco defende que a Inteligência Artificial (IA) pode e deve desempenhar um papel central na protecção do sistema financeiro nacional contra fraudes e outras ameaças cibernéticas.

O posicionamento foi apresentado por Mauro Litsure, técnico do Gabinete de Inovação e Transformação do Moza Banco, durante a sexta edição da Semana das Fintech, realizada recentemente em Maputo. O evento juntou especialistas, académicos e representantes do sector financeiro para debater o futuro da banca num contexto de disrupção digital.

De acordo com Litsure, a IA tem potencial para analisar, em tempo real, milhares de transacções, identificando padrões de comportamento suspeitos e bloqueando operações fraudulentas quase instantaneamente. “Estamos a falar de uma tecnologia que pode detectar acessos incomuns, compras fora do padrão habitual e, com isso, proteger o cliente e a própria instituição”, explicou.

O especialista considera ainda que, para além da segurança, a IA representa uma oportunidade estratégica para personalizar produtos e serviços, ajustando-os às necessidades específicas de cada cliente.

Durante o seu painel, Litsure abordou igualmente questões como a interoperabilidade entre sistemas, pagamentos digitais, plataformas omnichannel e a transição para o modelo de Open Banking, conceito ainda incipiente em Moçambique, mas com potencial para democratizar o acesso a serviços financeiros.

“O país ainda depende fortemente do dinheiro físico. Os serviços digitais precisam, primeiro, de mostrar valor sem impor barreiras ao utilizador. Só assim poderão criar confiança e adesão”, alertou o técnico.

Por seu turno, o Presidente da Comissão Executiva do Moza Banco, Manuel Soares, sublinhou que os debates sobre inovação e transformação digital são particularmente oportunos num período em que tecnologias emergentes, como a Inteligência Artificial, começam a reconfigurar a actuação do sector financeiro.

“A IA já não é apenas um conceito de futuro. Está a moldar o presente da banca, e quem não acompanhar esta transição arrisca-se a ficar para trás”, afirmou Soares.

A aposta na IA insere-se na estratégia de modernização do Moza Banco, que, segundo a instituição, tem procurado reforçar mecanismos de operabilidade e melhorar a experiência dos clientes. Com uma estrutura accionista maioritariamente nacional, o banco posiciona-se como um actor comprometido com o desenvolvimento económico do país e com o fortalecimento da ligação entre o sistema financeiro e a comunidade local.