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Contas de um Estado (quase) em ordem: Assembleia aprova CGE 2023 com reservas sobre endividamento e execução orçamental

A Assembleia da República aprovou esta sexta-feira, 16 de Maio, o Projecto de Resolução sobre a Conta Geral do Estado (CGE) referente ao exercício económico de 2023. Com 150 votos favoráveis, 28 contra e 35 abstenções, o documento passou com maioria confortável, mas sob o olhar crítico das bancadas da oposição e sob a sombra de um endividamento público crescente, execução desigual e recomendações reiteradas que, ano após ano, o Executivo parece tratar como notas de rodapé.

O relatório, que espelha as finanças do Estado em 2023, apresenta uma arrecadação total de receitas na ordem de 326,3 mil milhões de Meticais – ou seja, 91,4% do previsto –, um número que à primeira vista poderia sugerir disciplina fiscal. No entanto, a fasquia legal estabelecida para o exercício era de 357,06 mil milhões, e o Estado ficou aquém dessa meta, falhando em angariar quase 31 mil milhões de Meticais.

Ao nível da despesa, o cenário é mais complacente: foram executados 471,9 mil milhões de Meticais – 100% do orçamento –, revelando um crescimento real de 4,3% face a 2022. Mas nem tudo que reluz é ouro. As despesas de investimento, tidas como termómetro do desenvolvimento, caíram 2,2% em termos reais, representando apenas 6,4% do PIB. Metade desses investimentos foram financiados externamente, refletindo a continuada dependência de fundos além-fronteiras.

As palavras que mais ditas no hemiciclo foram “recomendações ignoradas”. O artigo 2 do Projecto de Resolução é claro ao exigir que o Governo observe os pareceres da Comissão do Plano e Orçamento, da Comissão dos Assuntos Constitucionais, Direitos Humanos e de Legalidade, e do Tribunal Administrativo. Mas para vários deputados – sobretudo da oposição – esta insistência parece um ritual anual de fé: recomenda-se muito, aplica-se pouco.

A dívida pública é o elefante na sala. Atingiu, no final de 2023, 971,4 mil milhões de Meticais, equivalentes a 89,3% do PIB. Deste montante, cerca de dois terços (657,6 mil milhões) correspondem a dívida externa. Internamente, o Estado recorreu fortemente aos Bilhetes de Tesouro, emitindo 197,1 mil milhões e pagando 181,4 mil milhões, resultando num financiamento líquido de 15,6 mil milhões de Meticais. Este ciclo de endividamento, apontam analistas, pode ser insustentável se não for acompanhado de reformas estruturais e maior rigor na despesa pública.

As operações financeiras passivas, que incluem amortizações e encargos com a dívida, cresceram 49,2% em termos reais. Só nelas foram gastos 56,7 mil milhões de Meticais – valor comparável ao total das despesas de investimento, num país em que escolas continuam sem carteiras e hospitais sem medicamentos.

Os donativos e créditos externos, que chegaram a 104,9% e 116,4% do programado, respectivamente, seguraram as contas, mas colocam o país numa corda bamba geopolítica. À medida que o financiamento externo cresce, cresce também a influência dos parceiros, e diminui a margem de manobra do Estado moçambicano para definir sua própria rota de desenvolvimento.

A CGE 2023 é, portanto, uma fotografia nítida de um Estado que cumpre tecnicamente as suas metas orçamentais, mas que deixa dúvidas profundas sobre a sustentabilidade da sua estratégia fiscal. A aprovação parlamentar, embora legítima, não disfarça os sinais de alarme: uma máquina pública que continua a gastar mais do que arrecada, a investir menos do que promete e a endividar-se com um apetite difícil de saciar.

Como em anos anteriores, a bola está agora do lado do Governo. Mas se a tradição se mantiver, as recomendações do Parlamento e do Tribunal Administrativo correrão o risco de ser, uma vez mais, apenas eco nos corredores da burocracia. E enquanto isso, o cidadão comum – aquele que não lê relatórios nem participa em sessões plenárias – continua a pagar o preço de uma governação que ainda deve mais do que presta contas.

Parlamento reconfigura Conselho Nacional de Defesa e Segurança para alinhar com nova estrutura governamental

A Assembleia da República aprovou esta sexta-feira (16), por consenso e aclamação, a Proposta de Lei que altera o artigo 3 da Lei n.º 13/2019, de 23 de Setembro — legislação que regula a organização, composição e funcionamento do Conselho Nacional de Defesa e Segurança (CNDS).

A proposta, de iniciativa presidencial, visa retirar do corpo legal menções a ministérios extintos e acomodar as novas pastas criadas ao abrigo do Decreto Presidencial n.º 1/2025. Trata-se de uma operação de afinação institucional. O CNDS, órgão consultivo do Estado em matérias de soberania, integridade territorial e segurança nacional, vê-se agora compelido a integrar vozes de sectores emergentes e estratégicos.

Com esta revisão legislativa, o CNDS passará a incluir os titulares dos ministérios dos Transportes e Logística, das Comunicações e Transformação Digital, bem como da Agricultura, Ambiente e Pescas. A medida reflecte um redesenho das prioridades do Estado em matéria de segurança, que agora se estende para além da doutrina militar clássica, incorporando preocupações como cibersegurança, logística de infra-estruturas críticas e segurança alimentar e ambiental.

“A presente Proposta de Lei visa garantir que o Conselho Nacional de Defesa e Segurança se componha e funcione em sintonia com a actual estrutura do Executivo”, declarou o Ministro na Presidência para os Assuntos Parlamentares, Autárquicos e das Assembleias Provinciais, Eduardo Joaquim Mulémbwè. Segundo o governante, a aprovação unânime da proposta “demonstra o sentido de responsabilidade dos deputados como garantes da conformidade legal e defensores do interesse nacional”.

Mulémbwè fez ainda questão de sublinhar o princípio constitucional segundo o qual os órgãos do Estado devem operar em obediência aos preceitos da legalidade e funcionalidade, como previsto no número 3 do artigo 2 da Constituição da República.

Sem vícios de forma nem de fundo

A 1ª Comissão (Assuntos Constitucionais, Direitos Humanos e de Legalidade) e a 6ª Comissão (Defesa, Segurança e Ordem Pública) emitiram pareceres positivos sobre a proposta. Ambas consideram que a alteração é oportuna, legítima e juridicamente sólida, reforçando a pertinência de adaptar os marcos legais às mudanças na arquitectura do Executivo.

A 1ª Comissão fez questão de notar que a proposta “não enferma de nenhum vício de inconstitucionalidade nem de ilegalidade”, e que ela “dá resposta cabal às exigências de actualização normativa num contexto de reformas governamentais profundas”.

Já a 6ª Comissão vê na medida uma oportunidade para “melhorar a articulação entre as áreas de governação estratégica e o sector da defesa e segurança”, numa lógica de segurança nacional ampliada.

O que está em jogo?

A decisão parlamentar de ajustar a composição do CNDS à nova realidade ministerial não é apenas um gesto de adequação técnica. É também um sinal de reconhecimento político de que os riscos à soberania e segurança do Estado moçambicano já não estão confinados às frentes de batalha convencionais.

Ciberameaças, disrupções logísticas, escassez alimentar e alterações climáticas integram hoje o léxico das ameaças modernas. Ao colocar estas pastas no centro da reflexão estratégica, o Estado sinaliza um alargamento do perímetro da defesa nacional para além do castrense — e talvez, quem sabe, uma antecipação de futuras crises.

Renamo: Ex-guerrilheiros cercam a sede em Maputo e exigem a cabeça de Ossufo

Desde quinta-feira (15), a sede nacional da Renamo, em Maputo, está sitiada por um grupo de antigos guerrilheiros que exige, sem meias palavras, a destituição imediata do seu presidente, o general Ossufo Momade, a quem acusam de arrastar o partido para a falência moral, política e administrativa.

São pouco mais de 50 homens, veteranos de guerra, alguns deles com cicatrizes físicas e outras tantas invisíveis, que se instalaram no pátio da sede, com sacos-cama, estômagos vazios e vozes carregadas de mágoa. Vêm de diversas províncias e carregam nas costas não apenas as memórias do mato, mas também uma acusação: a Renamo deixou de ser casa para os seus filhos.

“Estamos acampados aqui para resgatar o nosso partido. Se ele [Ossufo] tivesse vergonha, aparecia agora mesmo e dizia que já não é presidente. Era o mínimo que podia fazer”, disse João Machava, guerrilheiro veterano e rosto do protesto, em conferência de imprensa improvisada.

A tensão, que vinha fermentando há meses com o encerramento forçado de delegações provinciais, explodiu em Maputo. Os ex-combatentes falam de uma gestão “autocrática, desumana e surda”. Apontam a liderança de Ossufo como inoperante e desconectada da base, sem capacidade de diálogo e cada vez mais distante dos ideais de Afonso Dhlakama, o carismático líder falecido em 2018.

“Não estamos a pedir luxo, estamos a pedir dignidade. Há combatentes sem pensões, sem subsídios, sem apoio nenhum. O partido está a apodrecer. E Ossufo só sabe se esconder atrás de portas”, desabafou outro manifestante, com uniforme camuflado desbotado e olhar severo.

Linha vermelha

A situação atingiu o ponto de rutura. Os manifestantes prometem dividir-se em dois grupos: um permanecerá na sede da Renamo e outro seguirá para a residência de Momade. “A ideia é simples: forçá-lo a sair. Se ele não entende a linguagem política, vai entender a dos camaradas de armas. Ele é militar, foi do mato, conhece esta linguagem”, declarou Machava, com um tom seco e definitivo.

Se havia dúvidas sobre o grau de cisão interna, elas dissiparam-se com a denúncia feita por Edgar Silva, outro guerrilheiro vindo da província de Nampula:
“Estamos perante uma direcção que usa esquadrões de morte. Em Nampula, somos perseguidos por grupinhos montados por Ossufo. Quem critica, desaparece ou é ameaçado”, afirmou, com voz embargada, insinuando que há sangue a escorrer pelos corredores da Renamo.

Conselho adiado: Momade o coveiro do partido

O descontentamento não é de hoje. O Conselho Nacional do partido, que deveria ter acontecido em Março, foi adiado sine die. Para os ex-guerrilheiros, isso não é casualidade, mas manobra para manter a liderança actual no poder, sem prestação de contas e sem qualquer espaço para renovação.

No centro do protesto está também uma leitura política mais ampla: a Renamo está a perder relevância, e Momade, reeleito em Maio num processo marcado por denúncias de irregularidades, é visto como o coveiro do partido.

“Estamos aqui, dormindo no chão, sem comida, mas com dignidade. E se for preciso, aqui morreremos, mas não sairemos até que a direcção caia. Este partido era dos combatentes, não de generais de gabinete”, disparou outro elemento do grupo, recusando-se a ser identificado.

Chapo rende-se à engenharia logística de Angola

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Presidente moçambicano visita Zona Económica de Luanda-Bengo e aponta caminhos para o desenvolvimento industrial em Moçambique

O Presidente Daniel Chapo enalteceu esta sexta-feira, em Luanda, a infraestrutura logística da Zona Económica Especial (ZEE) Luanda-Bengo, sublinhando a sua relevância como modelo regional de industrialização e integração produtiva. O estadista falava à imprensa após visitar a fábrica Embalvidro, uma das unidades de referência na zona industrial angolana.

Na linha do discurso que tem vindo a consolidar desde a tomada de posse, Chapo voltou a priorizar a vertente económica sobre o simbolismo político. “Para quem quer importar e exportar a partir da ZEE, é fundamental a existência da logística”, disse, destacando a importância de uma cadeia integrada de vias rodoviárias, ferroviárias, portuárias e aeroportuárias. Em tom quase confessional, deixou escapar que a experiência angolana poderá servir de roteiro para as ambições industriais do seu governo.

Chapo ficou particularmente impressionado com a aposta angolana na juventude, apontando que a média de idade da força laboral da Embalvidro ronda os 35 anos. “Isto é fundamental para o futuro do país”, afirmou, talvez com um recado velado às elites económicas moçambicanas que continuam a negligenciar o potencial transformador da juventude no tecido produtivo.

A Embalvidro, inaugurada em 2019 com um investimento de 100 milhões de dólares, dos quais 60% de capitais próprios, opera com três linhas de produção e atinge uma capacidade diária de 700 mil garrafas. A unidade não só abastece gigantes como Heineken e NBL, como também exporta 80% da sua produção para países da SADC, incluindo Moçambique. Utiliza predominantemente matéria-prima local e aposta na reciclagem como eixo da sustentabilidade, elementos que não passaram despercebidos a Chapo.

No plano diplomático-económico, o Presidente reiterou que a visita visa reforçar a cooperação económica com Angola, “mais do que a cooperação política, que já é excelente”. Para Chapo, o novo ciclo que pretende imprimir nas relações com Luanda exige pragmatismo económico e sinergias produtivas. “Temos que aprimorar cada vez mais a cooperação económica”, declarou, sublinhando a circulação já existente de produtos entre os dois países.

Chapo assina com Angola cinco acordos

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Daniel Chapo, cumpriu esta sexta-feira o primeiro dia de uma visita oficial de dois dias à República de Angola, a convite do seu homólogo João Lourenço. À superfície, a viagem inscreve-se na agenda formal das boas-vindas a um novo Chefe de Estado. Mas, nas entrelinhas, sinaliza a tentativa de reposicionar Moçambique no xadrez regional e recuperar sinergias outrora robustas com um parceiro estratégico.

No rescaldo de um encontro privado entre os dois líderes, seguiu-se a habitual liturgia das assinaturas de cinco instrumentos jurídicos cobrindo áreas que vão da aviação civil ao turismo, passando por marinha mercante, acção social e cultura. Um pacote que, à primeira vista, parece técnico, mas que revela uma intenção política clara, pôr fim à morna relação bilateral que marcou os últimos anos.

“Para nós é uma honra e um privilégio estarmos aqui em Luanda, depois da nossa eleição e tomada de posse”, afirmou Chapo, sublinhando o valor simbólico da escolha de Angola como primeiro destino. O Presidente moçambicano fez questão de agradecer o “calor, amizade e cooperação” manifestados por Luanda durante o processo eleitoral em Moçambique. Uma referência pouco inocente, que pode ser lida como sinal de gratidão política numa conjuntura interna sensível.

Lourenço, por seu turno, não poupou nas palavras ao reiterar a solidariedade do seu país na luta contra o terrorismo em Cabo Delgado. “Fazemos voto de que esta nuvem negra terá passado”, disse o estadista angolano, ao mesmo tempo que defendia a necessidade de Moçambique concentrar energias no desenvolvimento económico-social.

No plano prático, destaca-se o acordo sobre serviços aéreos, que prevê uma ligação regular entre Maputo e Luanda. Também merecem nota o memorando na área social, que promete intercâmbio de experiências sobre políticas de género e inclusão, e o entendimento no domínio marítimo, onde ambos os países querem estreitar colaboração técnica e institucional.

No sector cultural, firmou-se um plano de acção para 2025-2028, e no turismo, o protocolo entre os institutos INFOTUR (Angola) e INATUR (Moçambique) prevê promoção conjunta e capacitação institucional. São documentos que, embora longe de revolucionarem o presente, abrem brechas para futuras dinâmicas de cooperação, desde que saiam do papel.

Chapo anunciou ainda a criação de uma equipa técnica conjunta para monitorar a implementação dos acordos, sublinhando: “Moçambique é Angola, Angola é Moçambique”. Lourenço, visivelmente alinhado, concluiu: “A luta de hoje é a do desenvolvimento económico e social”.

Quelimane: Araújo volta a mexer no tabuleiro do poder municipal

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O Presidente do Conselho Autárquico de Quelimane, Manuel de Araújo, voltou a sacudir o xadrez da administração municipal, com uma remodelação que apanha de surpresa até os seus mais próximos. Após as suas recentes declarações públicas em que atacou “lambebotas” dentro do seu próprio governo – num estilo que já se tornou marca registada do autarca – Araújo avançou com a substituição de vários quadros e a nomeação de novas figuras para pelouros chave e postos administrativos urbanos.

No centro da polémica está mais uma rotação de nomes, prática que já ganhou estatuto de rotina nos 14 anos de liderança municipal de Araújo. À medida que se acumulam os anos, cresce também a fama de que o edil não é afeito a estabilidade nas suas equipas, preferindo operar em ciclos de confiança volátil e fidelidades testadas ao sabor da maré política.

Cessaram funções:

  • Filipe Ribeiro, vereador de Planificação e Desenvolvimento Autárquico;
  • Inês Uachave, vereadora de Saneamento, Água e Energia;
  • Leonardo Botão, chefe do Posto Administrativo Urbano Número Um;
  • Cruz Nicolau, chefe do Posto Administrativo Urbano Número Dois.

Foram nomeados:

  • Alexandre Carvalho, novo vereador das Actividades Económicas;
  • Leonardo Botão, agora com a pasta de Planificação (num retorno surpreendente após cessar funções noutro cargo);
  • Filipe Ribeiro, reencaminhado para o pelouro de Saneamento, Água e Energia (numa espécie de dança de cadeiras institucionalizada);
  • Pedro da Costa Azarate, chefe do Posto Administrativo Urbano Número Um;
  • Davide Manuessa, chefe do Posto Administrativo Urbano Número Dois.

A dança de cadeiras confirma o estilo “hands-on” de Araújo, mas também reacende críticas sobre a falta de continuidade e consolidação das políticas autárquicas. Os seus detractores acusam-no de instabilidade crónica na gestão e de usar a máquina municipal para guerras internas de poder e lealdades. Já os que lhe são próximos defendem a medida como necessária para “oxigenar” a administração e afastar os que “perderam o foco da missão pública”.

Os poderosos desviam dinheiros, aos milhões

Os poderosos, com destaque para os governantes, não têm emenda, em Moçambique, onde continuam a desviar (o termo mais adequado é ROUBAR…) milhões de dólares. Gente sem palavra e corrupta, sem honestidade.

 A última notícia que circula evidencia que esses mesmos, os tais governantes, puseram a mão na massa, prejudicando seriamente o País e, gravemente, o povo.

 O desvio é uma boa soma: 33 milhões de dólares (qualquer coisa como 2,34 milhões, ou seja noutra linguagem financeira, 2 biliões e 34 milhões de dólares), os quais são referentes – revela o Tribunal Administrativo – a receitas do gás natural.

 Quem sabe diz que a informação consta do relatório da conta geral do Estado de 2023, auditada pelo Tribunal Administrativo e que foi, recentemente, objecto de debate na Assembleia da República.

 São estes e outros rombos que fazem com que o “navio” (leia-se Moçambique) se arruíne, esteja com problemas graves de tesouraria, apresente uma falência técnica de contas públicas e não seja uma Nação credível aos olhos dos parceiros internacionais.

 Mas, e enquanto isso aconteceu, no tempo do Presidente Nyusi, o País foi empobrecendo cada vez mais, a miséria entre a população subiu em flecha, a fome prosperou, a saúde piorou, a defesa esboroou-se e a corrupção cresceu exponencialmente.

 A oposição é nestes temas e noutros que tem de mostrar a sua raça e, também, denunciar estes verdadeiros roubos que se têm prestado, sem serem julgados, os vendilhões de Moçambique, gente da sua gente…gente governante e do partido do poder, a Frelimo.

                                        António Barreiros, Jornalista

 

Prémio Nelson Mandela 2025 atribuído postumamente a Elvino Dias

A atribuição do Prémio Nelson Mandela 2025 ao malogrado advogado moçambicano Elvino Dias, morto a tiro em circunstâncias ainda por esclarecer, foi recebida com emoção e indignação por parte da sociedade civil, que vê na distinção um reconhecimento tardio, mas merecido, ao trabalho de um homem que ousou fazer da justiça a sua trincheira.

A informação foi avançada pela agência Lusa, que cita Carlos Martins, bastonário da Ordem dos Advogados de Moçambique (OAM), para quem esta distinção atribuída pela associação ProPública – Direito e Cidadania constitui uma homenagem a um verdadeiro “combatente pela democracia”.

“É um reconhecimento do trabalho que foi feito pelo nosso colega, em vida. Foi um grande combatente pelo Estado de Direito e, sobretudo, porque fez a sua luta nos tribunais. O seu palco era lá”, afirmou Carlos Martins, num tom de homenagem que se confunde com denúncia, perante o silêncio ensurdecedor das autoridades relativamente ao assassinato que, sete meses depois, continua sem culpados nem explicações.

Elvino Dias, conhecido por muitos como “o advogado do povo”, foi morto a 18 de outubro de 2024, numa emboscada no coração da capital moçambicana. Na altura, era assessor jurídico do candidato presidencial Venâncio Mondlane. A viatura em que seguia foi cercada por dois carros e, num ataque frio e calculado, homens armados dispararam mortalmente sobre ele e Paulo Guambe, mandatário do partido Podemos.

Desde então, as pedras e flores colocadas por anónimos na Avenida Joaquim Chissano, onde o crime ocorreu, servem como testemunhas mudas de um país que parece ter normalizado a violência política. A Polícia, por seu lado, limita-se a prometer investigações sem prazos nem resultados.

Para a viúva de Elvino, Esmeralda Sousa, o prémio, embora simbólico, traz algum consolo e mantém viva a memória do marido. “Recebemos o prémio com alegria, por tudo o que ele fez por Moçambique e pela democracia”, disse à Lusa, numa breve declaração carregada de dignidade e dor.

Carlos Martins, que anunciou que a OAM se constituiu assistente no processo, lamenta a estagnação das investigações e considera que a distinção deve ser também uma forma de pressão para se apurar a verdade. “Quanto mais tempo levar a investigação, adensam-se as dúvidas sobre as reais motivações”, disse, sublinhando que Elvino deixou um legado de coragem e serviço à causa pública que deve inspirar toda a classe.

O prémio, no valor de 10 mil euros, será entregue à família no próximo dia 18 de julho, Dia Internacional Nelson Mandela. Agostinho Pereira de Miranda, presidente da ProPública, disse à Lusa que a distinção pretende “honrar o exemplo de um advogado que perdeu a vida no exercício das suas funções”, acrescentando que o gesto simboliza solidariedade com os advogados moçambicanos que “actuam em contextos extremamente difíceis”.

Recorde-se que nas edições anteriores do prémio foram distinguidos advogados portugueses de reconhecido mérito. Em 2025, a escolha recaiu num moçambicano assassinado à queima-roupa – o primeiro laureado postumamente – sinal de que a justiça, neste canto da África Austral.

Elvino Dias não foi apenas mais uma vítima da violência política: foi um símbolo de resistência, que fez da toga o seu escudo e da Constituição a sua bandeira. A homenagem é justa. A justiça, essa, continua por se fazer.

Por Redacção Txopela, com Lusa

Renamo: já foi e está a desfazer-se aos poucos

Pós-morte, a de A. Dhlakama, que já tem 7 anos sobre a data do seu falecimento, a Renamo, a sucessora legítima da RNM/Resistência Nacional Moçambicana, entrou num processo de desagregação e de se espatifar.
Quem substituiu esse homem, virtuoso, arguto e sagaz, foi um tal de “ginerali” Ossufo. Uma figura parda, inculta, vendida e pouco dada a perceber o que é a arte da política e, também, a de saber comunicar.
Ossufo, para além de não ter perfil para ser responsável pela Renamo, como já o escrevi bastas e vastas vezes, deixou-se levar pela canção do “bandido”, os governantes e militantes da frelimo, tendo-se vendido. Usufruiu, durante esses últimos anos, uma boa pensão, casa, carro, motorista e segurança, assim como outras mordomias que lhe foram oferecidas de mão beijada.
Teve que estar manso de atitudes, de intervenções, de saber segurar os seus representantes na AR e de nunca levantar qualquer barulho que pudesse colocar em causa a governança frelimista.Ossufo arruinou a Renamo, condenou-a ao fracasso partidário e da cena política moçambicana, entregou-a ao silêncio para ter benfeitorias, trespassou-a de indigência intelectual e cultural, bem como tem vindo a desfazer aos poucos o projecto político e social do partido Renamo.

Ossufo fica na história de Moçambique como um dos mais medíocres líderes de um partido, como uma figura sem qualidade pessoal e humana, como um cidadão frouxo e com falta de conhecimentos e saberes da vida, a que junto uma imagem que não cativa e se esbate num rosto carrancudo e desanimador. Um líder partidário tem de ser jovial, dialogante, falador, socializar-se com os cidadãos, percebê-los e respeitá-los e, ainda, deve adequar a narrativa a cada assunto que lhe mereça comentário ou palavra.
Ossufo não tem substracto para abordar temas de impulso e de actualidade do País a que pertence. Ossufo não apresentou, enquanto um dos líderes da oposição, uma proposta ou um Plano para discussão ou estudo que trouxesse mudanças efectivas e promissoras para Moçambique. Deixou-se embalar pelo cargo que ocupou e, também, pelas palavras ocas dos governantes e da Frelimo. Deixou-se corromper, como muitos dos seus concidadãos, pelo poder do dinheiro que lhe chegou, pela via do poder político, aos bolsos.
Agora, lê-se que alguns dos militantes da Renamo estão a proceder a uma reviravolta e estão para correr com ele…

A DW (Voz da Alemanha) noticiava, algumas horas atrás (transcrevo pelo interesse): “O então autarca da cidade de Nacala, da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), Raúl Novinte, está de volta à casa, depois de um ano fora da formação política de que fez parte. Abandonou o partido em Abril do ano passado, após ter sido impedido de participar no Congresso da RENAMO, na Zambézia, com o então candidato interno Venâncio Mondlane”. Mais se escreve: “Fiquei fora do meu partido, mas ainda me considerando membro. Eu digo que nunca saí da RENAMO, porque nunca me filiei noutro outro partido” – afirmou. E ainda: “Raúl Novinte filiou-se na Coligação Aliança Democrática (CAD), que suportou temporariamente a candidatura presidencial de Venâncio Mondlane, mas afastou-se definitivamente da arena política quando a coligação foi eliminada da corrida eleitoral, tendo Mondlane se associado ao Partido Otimista pelo Desenvolvimento de Moçambique (PODEMOS)”.

António Barreiros, jornalista

Fundo Soberano: Uma conta (ainda) por acertar

A proposta do Plano Económico e Social e Orçamento do Estado (PESOE) para 2025, aprovada em Maio pela Assembleia da República, faz as primeiras menções ao FSM. O que poderia ser o primeiro gesto de transparência foi na verdade um exercício de contabilidade criativa. Um manto de ambiguidade que encobre as contas públicas, enquanto o Banco de Moçambique, gestor do fundo, mantém-se emudecido.

Segundo Rui Mate, em análise publicada pelo Centro de Integridade Pública (CIP), há 164,68 milhões de dólares oriundos das receitas do gás, arrecadados entre 2022 e 2024, que desapareceram do radar da proposta orçamental. Foram depositados, diz-se, numa “conta transitória”. Mas para onde seguiram? Foram transferidos para o fundo? Já foram gastos? Ou evaporaram-se no ano das eleições?

“Como confiar na gestão de um fundo que nasce com dinheiro, mas sem rasto?”, pergunta Mate, num texto meticuloso, onde os números falam mais alto. A pergunta é tão certeira quanto perturbadora.

O FSM foi desenhado como instrumento de estabilidade macroeconómica e justiça intergeracional. Era para ser o cofre da nação, alimentado por parte das receitas do gás — 40%, subindo a 50% após 15 anos. A sua vocação, segundo a Lei, é investir em activos financeiros internacionais, longe dos caprichos imediatos do quotidiano orçamental.

Mas o PESOE 2025 decidiu ignorar este caminho. Em vez disso, anuncia que o fundo financiará livros escolares, carteiras, vacinas e até mudas de cajueiros, despesas, diga-se, necessárias, mas que pertencem ao domínio do orçamento ordinário do Estado, não de um fundo soberano.

O problema maior é que os tais projectos somam 3.378,5 milhões de meticais, ultrapassando os 2.006,5 milhões que, legalmente, cabem ao FSM. Ou seja: gasta-se mais do que se tem. E confunde-se o FSM com um cofre de emergência nacional.

O mais inquietante, porém, é o mutismo do Banco de Moçambique. Desde a entrada em vigor da lei, não há um único relatório público, nenhum dado, nenhum sinal de que os gestores do fundo saibam onde está o dinheiro, ou sequer queiram partilhar essa informação. E esta omissão fere a própria Lei do FSM, que no seu Artigo 24.º exige transparência e prestação de contas.

Há dois cenários possíveis e ambos inquietantes. Ou o saldo permanece num limbo contabilístico, à espera de um plano de afectação. Ou foi usado, parcial ou totalmente, sem que o Parlamento, a imprensa ou os cidadãos tenham sido informados.

A este cenário, junta-se uma denúncia publicada a 14 de Maio no Carta de Moçambique, apontando para um alegado desvio de 33 milhões de dólares das receitas do gás do Rovuma, informação que, segundo o jornal, constaria no parecer do Tribunal Administrativo sobre a Conta Geral do Estado de 2023. A confirmar-se, não estaríamos diante de um problema técnico, mas de um novo episódio do já longo historial da pilhagem institucionalizada dos recursos públicos.