Desde quinta-feira (15), a sede nacional da Renamo, em Maputo, está sitiada por um grupo de antigos guerrilheiros que exige, sem meias palavras, a destituição imediata do seu presidente, o general Ossufo Momade, a quem acusam de arrastar o partido para a falência moral, política e administrativa.
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São pouco mais de 50 homens, veteranos de guerra, alguns deles com cicatrizes físicas e outras tantas invisíveis, que se instalaram no pátio da sede, com sacos-cama, estômagos vazios e vozes carregadas de mágoa. Vêm de diversas províncias e carregam nas costas não apenas as memórias do mato, mas também uma acusação: a Renamo deixou de ser casa para os seus filhos.
“Estamos acampados aqui para resgatar o nosso partido. Se ele [Ossufo] tivesse vergonha, aparecia agora mesmo e dizia que já não é presidente. Era o mínimo que podia fazer”, disse João Machava, guerrilheiro veterano e rosto do protesto, em conferência de imprensa improvisada.
A tensão, que vinha fermentando há meses com o encerramento forçado de delegações provinciais, explodiu em Maputo. Os ex-combatentes falam de uma gestão “autocrática, desumana e surda”. Apontam a liderança de Ossufo como inoperante e desconectada da base, sem capacidade de diálogo e cada vez mais distante dos ideais de Afonso Dhlakama, o carismático líder falecido em 2018.
“Não estamos a pedir luxo, estamos a pedir dignidade. Há combatentes sem pensões, sem subsídios, sem apoio nenhum. O partido está a apodrecer. E Ossufo só sabe se esconder atrás de portas”, desabafou outro manifestante, com uniforme camuflado desbotado e olhar severo.
Linha vermelha
A situação atingiu o ponto de rutura. Os manifestantes prometem dividir-se em dois grupos: um permanecerá na sede da Renamo e outro seguirá para a residência de Momade. “A ideia é simples: forçá-lo a sair. Se ele não entende a linguagem política, vai entender a dos camaradas de armas. Ele é militar, foi do mato, conhece esta linguagem”, declarou Machava, com um tom seco e definitivo.
Se havia dúvidas sobre o grau de cisão interna, elas dissiparam-se com a denúncia feita por Edgar Silva, outro guerrilheiro vindo da província de Nampula:
“Estamos perante uma direcção que usa esquadrões de morte. Em Nampula, somos perseguidos por grupinhos montados por Ossufo. Quem critica, desaparece ou é ameaçado”, afirmou, com voz embargada, insinuando que há sangue a escorrer pelos corredores da Renamo.
Conselho adiado: Momade o coveiro do partido
O descontentamento não é de hoje. O Conselho Nacional do partido, que deveria ter acontecido em Março, foi adiado sine die. Para os ex-guerrilheiros, isso não é casualidade, mas manobra para manter a liderança actual no poder, sem prestação de contas e sem qualquer espaço para renovação.
No centro do protesto está também uma leitura política mais ampla: a Renamo está a perder relevância, e Momade, reeleito em Maio num processo marcado por denúncias de irregularidades, é visto como o coveiro do partido.
“Estamos aqui, dormindo no chão, sem comida, mas com dignidade. E se for preciso, aqui morreremos, mas não sairemos até que a direcção caia. Este partido era dos combatentes, não de generais de gabinete”, disparou outro elemento do grupo, recusando-se a ser identificado.
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