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A banalização da vida e a sofisticação do crime: Letela põe o dedo na ferida

O Procurador-Geral da República, Américo Julião Letela, subiu esta terça-feira ao púlpito da Assembleia da República com um discurso que não só deixou números a bailar no ar, como também exigiu um abanão colectivo à letargia social perante a espiral de violência e criminalidade que grassa no país. Sem rodeios, o PGR expôs uma realidade crua: o desrespeito pela vida atingiu proporções alarmantes, e as instituições, por si sós, já não dão conta do recado.

“A vida precisa ser colocada no pedestal que lhe é devido”, clamou Letela, sustentando que urge um pacto entre os vários segmentos da sociedade, desde as autoridades do Estado até as organizações de defesa dos direitos humanos, para devolver dignidade à existência humana.

A radiografia feita pelo titular da acção penal é preocupante. Em 2024, os homicídios voluntários cresceram 12,7%, com 1.566 processos registados contra 1.390 do ano anterior. A Zambézia, com 446 casos, encabeça a triste lista, seguida por Tete (208) e Manica (189). O PGR não poupou a cidade da Beira, onde actos bárbaros de violação seguidos de homicídio lançam um manto de medo e insegurança nos bairros.

Letela garante que há esforços coordenados com as autoridades policiais para “inocular um antídoto” nas comunidades vulneráveis, promovendo a adopção de medidas de segurança e sistemas céleres de denúncia. Mas, como um médico que reconhece a limitação dos seus próprios remédios, o PGR admite que só com acção colectiva se poderá virar o jogo.

O tráfico de pessoas, órgãos e partes de corpos humanos continua a ser uma chaga aberta. Em 2024, foram instaurados cinco processos de tráfico humano — um em cada nas províncias de Maputo, Cabo Delgado, Tete, Manica e Gaza — representando um salto em relação aos dois de 2023. Já os processos ligados ao tráfico de órgãos humanos registaram ligeira descida: quatro em 2024 contra cinco no ano anterior.

A vulnerabilidade socioeconómica das populações e a sofisticação digital dos criminosos são, na visão do PGR, os principais facilitadores do flagelo. “A internet tornou-se uma arma silenciosa nas mãos dos traficantes”, disse Letela, anunciando a intenção de criar uma plataforma digital pública para alertar e instruir os grupos mais expostos — crianças e jovens — sobre os riscos do aliciamento virtual.

Com olhos postos na modernização jurídica, Letela voltou a defender a revisão da Lei de Tráfico de Pessoas, adormecida desde 2023 no Ministério da Justiça, de modo a alinhá-la ao Protocolo de Palermo e ao novo figurino penal nacional.

Mas nem tudo se esgota nas estatísticas e boas intenções. Letela sugeriu a importação para o ordenamento jurídico nacional de um “instituto de direito premial” — uma espécie de acordo judicial à americana — que permitiria a redução de pena para arguidos que colaboram com a justiça. Uma proposta que, nas entrelinhas, reconhece o jogo de forças desequilibrado entre o Estado e o crime organizado.

E por falar em crime organizado, o fenómeno dos raptos continua a semear pânico, sobretudo em Maputo. Apesar da redução de 60 para 32 processos em 2024 — uma queda de 46,7% —, o PGR foi categórico: a sofisticação das redes e o envolvimento de actores externos continuam a frustrar a identificação dos mentores intelectuais.

Houve, contudo, alguns resgates para celebrar: 13 vítimas devolvidas às famílias, 21 detidos, seis armas de fogo apreendidas e três cativeiros desmantelados. Mas Letela sabe que a maré ainda está alta. Os tentáculos do crime são longos, as suas ramificações obscuras e, muitas vezes, intocáveis.

Entre linhas duras e números frios, o discurso do PGR fez o que se espera de um relatório à Nação: chocou, alertou e desafiou. Agora, cabe à sociedade — e sobretudo aos decisores políticos — decidir se ficam a aplaudir ou se descem ao ringue para combater os fantasmas que há décadas corroem o tecido social moçambicano.

 

PGR pressiona Parlamento por lei de confisco civil para combate à criminalidade organizada

Em 2024, bens arrestados totalizam mais de mil milhões de meticais

A Procuradoria-Geral da República (PGR) voltou a insistir, esta terça-feira (29), na necessidade urgente de aprovação de uma lei de confisco civil pela Assembleia da República. A proposta surge numa conjuntura marcada pelo aumento expressivo dos bens arrestados e avaliados no país, que totalizaram 1.057.917.666,21 Meticais apenas em 2024, segundo revelou o Procurador-Geral da República, Américo Letela, durante a apresentação da Informação Anual da PGR no Parlamento, em Maputo.

Letela argumentou que o confisco civil é uma ferramenta jurídica amplamente reconhecida por instrumentos internacionais, incluindo a Convenção das Nações Unidas Contra a Corrupção e as recomendações do Grupo de Acção Financeira (GAFI), e que visa neutralizar os benefícios da actividade criminosa antes mesmo da condenação penal. “O confisco civil constitui uma medida consolidada em instrumentos internacionais que advogam a sua adopção como reforço no combate à criminalidade organizada e transnacional”, frisou.

Durante a sua intervenção, o Procurador-Geral revelou que, do total de bens apreendidos em 2024, 34 imóveis foram avaliados em 4.224.341.462,63 Meticais e 183 viaturas em 134.192.280,37 Meticais, perfazendo um valor global de 4.435.844.360,65 Meticais. Comparativamente a 2023, quando os valores totais não ultrapassaram 1.385.367.525,41 Meticais, os números deste ano representam um aumento significativo, expondo uma tendência crescente de criminalidade económica e patrimonial.

A nível da actuação do Gabinete Central de Recuperação de Activos (GCRA), foram tramitados 110 processos de investigação patrimonial e financeira, com 32 deles concluídos e remetidos às instâncias judiciais correspondentes — o equivalente a 29,1% do total.

No que respeita a medidas preventivas, foram arrestados 141 veículos, sete imóveis, madeira de diferentes espécies, participações sociais em 15 empresas e activos financeiros ainda por valorizar. No âmbito dos processos-crime em curso, o Ministério Público apreendeu 40 imóveis, 192 viaturas e valores monetários equivalentes a 67.622.602,61 Meticais. Outros bens apreendidos — num total de 2.435 itens — estão avaliados em 9.688.015,04 Meticais.

O relatório anual da PGR revela ainda um crescimento de 11,1% no movimento processual nacional, com um total de 140.322 processos registados em 2024, contra 126.318 no período homólogo anterior.

A proposta de Letela pela institucionalização do confisco civil surge como uma medida não apenas reactiva, mas preventiva, com potencial de estancar o enriquecimento ilícito e cortar os fluxos financeiros que alimentam redes criminosas sofisticadas. Resta saber se o Parlamento acolherá o apelo da magistratura do Ministério Público, numa altura em que o país continua a ser assolado por escândalos de corrupção e desvio de fundos públicos.

 

Funcionário público detido por desvio de medicamentos na Zambézia

Suspeito terá causado prejuízos de 700 mil meticais ao Sistema Nacional de Saúde

Um funcionário do Centro de Saúde de Manhaua, distrito de Quelimane, encontra-se sob custódia do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) na província da Zambézia, indiciado pelo desvio de medicamentos pertencentes ao Sistema Nacional de Saúde (SNS). O cidadão, de 47 anos de idade, é suspeito de ter canalizado quantidades  de fármacos para o mercado paralelo, numa prática que, segundo dados preliminares das autoridades, terá lesado o erário em cerca de 700 mil meticais.

A detenção foi anunciada esta semana pelo porta-voz do SERNIC na Zambézia, Máximo Amílcar, que deu conta de que a captura do indiciado foi possível graças à denúncia de um cidadão que, após ter adquirido medicamentos em circunstâncias suspeitas, decidiu colaborar com as autoridades.

Segundo apurou o Jornal Txopela, o esquema envolvia a retirada sistemática de medicamentos da unidade sanitária onde o funcionário exercia funções, numa actuação que, segundo fontes próximas à investigação, poderá ter-se prolongado por vários meses sem ser detectada pelos mecanismos internos de controlo do sector da Saúde.

Durante a apresentação pública, realizada nesta terça-feira nas instalações do SERNIC em Quelimane, o suspeito admitiu ter levado os medicamentos da unidade sanitária, mas justificou a sua acção alegando que os mesmos se destinavam ao consumo próprio e da sua família. Contudo, esta alegação contrasta com os elementos recolhidos até ao momento pelas autoridades, que apontam para a existência de uma rede de comercialização clandestina dos fármacos.

O SERNIC garante que as investigações continuam e não descarta a possibilidade de haver outros envolvidos, nomeadamente facilitadores dentro da própria instituição de saúde.

Profissionais de saúde ameaçam paralisação total de actividades por cinco dias

A Associação dos Profissionais de Saúde Unidos e Solidários de Moçambique (APSUSM) voltou a subir o tom e lançou, esta segunda-feira (28), um ultimato ao Governo, ao anunciar o arranque da chamada “fase RSO” da greve — sigla que remete a uma paralisação total, irrestrita e de impacto nacional, com início previsto para as 15h30 do próximo dia 30 de Abril.

Caso o Executivo continue a manter silêncio ou evasivas sobre o cumprimento dos compromissos assumidos com a classe, a medida será activada por um período inicial de cinco dias, podendo escalar para uma nova fase de greve indefinida.

Falando em conferência de imprensa, o presidente da APSUSM, Anselmo Muchave, foi claro: “Esta não é uma festa. Estamos a utilizar um mecanismo de pressão legítimo e pacífico para exigir o respeito pelos direitos fundamentais dos profissionais de saúde e, por consequência, dos próprios utentes do sistema”.

Muchave recordou que a luta, iniciada há cerca de três anos, está ancorada num caderno reivindicativo entregue ao Governo, que denuncia o colapso silencioso do sistema nacional de saúde: falta crónica de medicamentos e materiais médicos, camas hospitalares obsoletas ou inexistentes, racionamento de alimentação para pacientes internados e o não pagamento de horas extraordinárias. Soma-se a isso o descontentamento generalizado com o enquadramento dos profissionais no regime da Tabela Salarial Única (TSU), que, segundo a associação, criou distorções e injustiças gritantes.

“A nossa exigência é simples: que o Governo apresente um calendário claro e vinculativo para o cumprimento dos acordos. Até agora só temos promessas vazias e reuniões inconclusivas”, disse o líder associativo.

Com um universo de cerca de 65 mil profissionais afiliados, entre médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares, a APSUSM detém uma capacidade de mobilização nacional com potencial para colocar de joelhos o já frágil sistema de saúde público, composto por 1778 unidades hospitalares, de acordo com os dados mais recentes do Ministério da Saúde.

Muito embora o Governo tenha procurado minimizar o alcance do movimento, argumentando que “nem todos os profissionais de saúde aderiram à greve”, Muchave desmentiu categoricamente tais declarações, considerando-as uma “tentativa de manipulação pública”. “Um hospital fechado não é como uma escola onde se pode adiar matéria. Cada minuto sem atendimento pode significar uma vida perdida”, alertou.

A fase RSO, a ter início no fim do mês, representa um novo grau de radicalização da luta laboral no sector da saúde e pode vir a agravar-se, caso o Executivo mantenha a sua postura de indiferença. “Se o Governo não responder, nós voltamos a iniciar a terceira fase da nossa greve”, avisou Muchave, sem, no entanto, avançar detalhes sobre o formato e duração da eventual próxima etapa.

No pano de fundo desta crise está uma gestão estatal cada vez mais questionada pela sociedade civil, sobretudo em sectores-chave como saúde e educação, onde os cidadãos convivem diariamente com o colapso de serviços básicos.

 

Mondlane reforça ofensiva diplomática com encontro em Maputo com secretário de Estado português

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O ex-candidato presidencial e rosto mais visível da contestação política ao regime vigente, Venâncio Mondlane, reuniu-se recentemente, em Maputo, com o Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Nuno Sampaio, num encontro que, segundo palavras do próprio líder opositor, “assinala um novo tempo para Moçambique”.

A audiência, solicitada por iniciativa do governante português, insere-se na visita oficial de Sampaio ao país e, segundo comunicado divulgado por Mondlane na sua página do Facebook, “traduz uma mensagem clara: Portugal acredita no novo ciclo que se inicia em Moçambique”.

O encontro, descrito como sendo de “elevado significado político e diplomático”, centrou-se, entre outros pontos, na avaliação da actual conjuntura política nacional, marcada por um ambiente de elevada tensão social e institucional após as eleições de Outubro passado — sufrágio este duramente criticado por Mondlane, que denuncia fraude generalizada e responsabiliza o regime pela repressão brutal aos protestos subsequentes.

Recorde-se que os protestos convocados por Mondlane, e que se estenderam por várias cidades do país, foram violentamente reprimidos pelas forças de defesa e segurança, com um saldo trágico de mais de 350 mortos, segundo dados avançados pela Plataforma Eleitoral da ONG “Decide”. Houve ainda registo de pilhagens e destruição de infra-estruturas públicas e privadas, num cenário que revelou, mais uma vez, as fraturas profundas do tecido político-social moçambicano.

No seu comunicado, Mondlane revelou que o diálogo com o diplomata português também abordou o recente encontro com o Presidente Daniel Chapo, no qual se discutiram vias para um entendimento político mais alargado. “O Secretário de Estado saudou o diálogo político que iniciei com Daniel Chapo, ressaltando que o entendimento e a consulta política são fundamentais para consolidar nossa jovem democracia”, lê-se.

Em foco esteve ainda o processo de formalização do partido ANAMALALA — sigla para Aliança Nacional para um Moçambique Livre e Autónomo —, um projecto político que Mondlane define como sendo o veículo de uma nova esperança nacional, assente em princípios de liberdade, justiça e desenvolvimento inclusivo. Curiosamente, o termo “anamalala”, de origem macua, significa “acabou” ou “vai acabar”, uma escolha linguística que carrega consigo um simbolismo de ruptura com o statu quo dominado pela Frelimo.

Este novo episódio da ofensiva diplomática de Mondlane sucede ao encontro realizado, dias antes, com o embaixador da União Europeia, Antonino Maggiore, com quem trocou impressões sobre a actual crise política. As movimentações do líder opositor ocorrem num momento em que o Parlamento moçambicano transformou em lei o “Compromisso Político para um Diálogo Nacional Inclusivo”, subscrito a 5 de Março por Daniel Chapo e nove formações políticas.

O referido compromisso, que aguarda concretização prática, promete reformas estruturais de largo alcance, incluindo alterações à Constituição, revisão da legislação eleitoral, reforma fiscal, modernização do sistema de justiça e da administração pública.

 

Abdula “apadrinha” Naparamas arrependidos em Mutuali

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O Governador da Província de Nampula, Eduardo Abdula, dirigiu, nesta segunda-feira (28), no Posto Administrativo de Mutuali, distrito de Malema, a cerimónia pública de apresentação de um grupo de homens armados conhecidos como “Naparamas”.

O grupo, cuja actividade violenta havia gerado instabilidade, apresentou-se agora perante as autoridades provinciais, declarando o fim das hostilidades em Mutuali e manifestando publicamente arrependimento pelos actos de violência que protagonizaram.

Na ocasião, Eduardo Abdula, numa intervenção que não escondeu a tentativa de ressignificar politicamente o fenómeno, referiu ver nos “Naparamas” jovens que, por falta de emprego e oportunidades de inserção social, teriam sido levados ao desvio de conduta. O Governador prometeu que serão desenhados programas específicos de formação, com o objectivo de converter as catanas em instrumentos de trabalho para a construção de uma nova vida.

A apresentação pública dos “Naparamas” surge num momento em que a província de Nampula busca recompor o tecido social fragilizado por episódios recorrentes de violência armada em zonas rurais, em particular em distritos como Malema e Lalaua.

Embora a declaração de arrependimento dos ex-combatentes tenha sido acolhida com alguma expectativa, vozes críticas apontam que o episódio expõe a falência de políticas inclusivas e de desenvolvimento rural que, durante anos, negligenciaram a juventude local, criando um caldo fértil para a proliferação de grupos armados.

Sem um programa robusto e sustentável de reintegração, alertam especialistas em segurança e desenvolvimento comunitário, a promessa de “transformar catanas em enxadas” pode não passar de mais um gesto simbólico num país onde os processos de desmobilização raramente se consolidam no terreno.

 

Quem são os Naparamas?

Os Naparamas surgiram em Moçambique no final da década de 1980, no auge da guerra civil, como um movimento paramilitar popular que combatia a Renamo em apoio às forças governamentais da Frelimo.

Originários da província de Nampula e Zambezia, os Naparamas eram compostos maioritariamente por camponeses organizados de forma espontânea, que, segundo relactos da época, recorriam a práticas tradicionais e crenças de invulnerabilidade espiritual para se protegerem em combate.

O seu nome deriva do termo “naparama”, que, em algumas línguas locais, significa “aquele que ataca”. Rejeitavam armamento pesado, preferindo lutar com catanas, lanças e amuletos, numa estratégia tanto física quanto psicológica para resistir ao inimigo.

Após o Acordo Geral de Paz de 1992, o grupo foi oficialmente desmobilizado, mas nunca completamente integrado em programas estruturados de reintegração social. O seu ressurgimento pontual, como agora em Mutuali, pode revelar a persistência de tensões locais, o fracasso de políticas de inclusão rural e o reaparecimento de dinâmicas de auto-defesa comunitária num contexto de insegurança e ausência do Estado.

Carige “vende” Beira a empresários de Guangzhou

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Empresários chineses sondam oportunidades na Beira

O presidente do Conselho Municipal da Beira, Albano Carige, recebeu, no início desta semana, uma delegação de empresários oriundos da cidade chinesa de Guangzhou. A visita, de carácter exploratório, teve como objectivo identificar áreas de potencial cooperação, abrangendo sectores como comércio, logística e infraestruturas urbanas.

Integrada nos esforços da edilidade para projectar a Beira como destino de investimento estrangeiro, a iniciativa surge num contexto em que o município tenta reinventar-se como plataforma logística regional, tirando partido da sua localização estratégica no corredor que liga Moçambique ao Zimbabué, Maláui e Zâmbia.

A cidade da Beira, embora rica em potencial, continua a tropeçar nos velhos problemas que ameaçam comprometer qualquer ambição de grande fôlego. As condições das infraestruturas são, para muitos operadores económicos, um calcanhar de Aquiles. O Porto da Beira, peça central do esquema logístico, enfrenta assoreamento crónico que exige dragagens regulares, sem as quais se torna impraticável a recepção de navios de grande calado.

A degradação da rede rodoviária e ferroviária agrava os custos de transporte e mina a competitividade do corredor. Situação que, a par de um ambiente de negócios ainda burocrático e pouco transparente, levanta dúvidas sobre a real capacidade do município em captar e reter investimentos de vulto.

Em meios próximos da autarquia, reconhece-se que a modernização das infraestruturas, o reforço da segurança jurídica e a aposta na inovação tecnológica serão decisivos para que a Beira possa consolidar-se como um hub logístico de referência na região austral.

100 Dias de Daniel Chapo: Nem omeletes, nem ovos!

Decorridos os primeiros 100 dias do mandato do Presidente Daniel Chapo, a apresentação pública dos resultados obtidos nesse período foi marcada por um discurso entusiasta, pontuado por promessas de renovação, recuperação da confiança pública e transformação estrutural do Estado.

Na cerimónia realizada em Maputo, o Chefe de Estado não apenas elencou metas supostamente alcançadas, como também evocou, com teatralidade política, a capacidade de ter “feito omeletes sem ovos”  uma metáfora para sublinhar que as realizações teriam ocorrido em contexto de escassez orçamental.

Conquanto, uma análise factual dos dados apresentados e uma comparação com os compromissos assumidos no momento da investidura revelam zonas de fricção entre o anunciado e o realmente executado.

O governo afirma ter executado 96% dos 100 indicadores previstos no Plano de Impacto para os Primeiros 100 Dias, tendo, inclusive, superado 25% dessas metas. A narrativa oficial aponta ainda para a implementação de mais de 10 acções não previstas inicialmente.

Cruzando os relatórios disponíveis com informação colhida em fontes independentes (sociedade civil, jornalistas e alguns parceiros de cooperação), nota-se que vários desses indicadores referem-se a iniciativas em andamento ou herdadas da administração anterior – como, por exemplo, o programa de distribuição de livros escolares, a electrificação de alguns postos administrativos e a mobilização de fundos internacionais já em fase adiantada de negociação no final do mandato de Filipe Nyusi.

Outro exemplo revelador é a entrega de 1.177 cirurgias em hospitais públicos que é apresentada como resultado da nova governação, mas fontes do Ministério da Saúde confirmam que tais cirurgias fazem parte de planos operacionais anuais previamente aprovados, cuja execução estava comprometida por falta de anestésicos e outros materiais básicos e ainda hoje deficitários em muitas unidades sanitárias.

O caso da Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) ilustra bem as limitações do actual Executivo em termos de governançao corporativa. O próprio Presidente denunciou, em discurso público, a existência de conflitos de interesse dentro da empresa que teriam inviabilizado a aquisição de três novas aeronaves. Mas, até à data, nenhuma acção disciplinar foi tornada pública, nem se conhece qualquer auditoria independente à gestão da transportadora. Essa ausência de responsabilização efectiva nestes primeiros 100 dias compromete o pilar da “governação transparente e responsável” que sustenta o discurso presidencial.

Em matéria económica, o Governo anunciou a mobilização de 68,5 milhões de dólares da China e 21,2 milhões do Japão. mas, a alocação e destino concreto desses fundos não foram devidamente detalhados. Esses anúncios, apesar de bons no plano diplomático, ainda não se traduziram em investimentos visíveis ou melhorias palpáveis na vida dos moçambicanos.

Os compromissos de pagamento de dívidas internas aos fornecedores do Estado, assim como os fundos para a promoção do empreendedorismo jovem e feminino, ainda carecem de regulamentação clara e execução prática, segundo denúncias de associações empresariais locais.

Talvez o ponto mais sensível deste período inaugural de governação seja o silêncio em relação aos protestos pós-eleitorais e às dezenas de mortos e feridos resultantes da repressão das manifestações que ocorreram entre Outubro e Novembro de 2024. O Presidente não abordou este dossier, nem apresentou qualquer iniciativa concreta de reconciliação nacional ou reforma das forças de segurança.

Esta omissão é estratégica e preocupante. A tentativa de construção de um novo ciclo político sem enfrentar as feridas recentes da legitimidade eleitoral fragiliza o capital simbólico de qualquer governo, por mais bem-intencionado que seja.

Aguardemos se os próximos 100 dias trarão mais omeletes… ou finalmente alguns ovos.

 

Chapo exibe primeiros 100 dias, promessas cumpridas e velhas pedras no sapato

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Daniel Chapo, Presidente da República, apresentou esta segunda-feira, em Maputo, o balanço dos primeiros 100 dias do seu mandato, reivindicando uma taxa de execução de 96% das metas inicialmente traçadas e garantindo que a governação manterá o rumo da “transparência e responsabilidade” perante os moçambicanos.

Chapo recordou o compromisso assumido na sua investidura, a 15 de Janeiro: “renovar Moçambique” com base nos pilares da liberdade, justiça e prosperidade. “Governo para todos, até para quem não votou em nós”, garantiu, num momento em que o país continua a exibir fracturas profundas no seu tecido político e social.

O Chefe de Estado advogou que o Plano de Acções de Impacto dos Primeiros 100 Dias foi estruturado para demonstrar a capacidade do Executivo em produzir “mudanças reais”. Segundo Chapo, além do elevado grau de cumprimento dos indicadores, 25% das metas foram superadas em mais de 100%. O Presidente fez questão de elencar conquistas como a realização de 1.177 cirurgias em hospitais públicos — quase o dobro da meta prevista —, a distribuição de 12 milhões de livros escolares e a electrificação de postos administrativos na Zambézia e Nampula.

No capítulo económico, o governo mobilizou financiamentos externos consideráveis, incluindo 68,5 milhões de dólares da China e 21,2 milhões de dólares do Japão, enquanto no mercado interno destacou-se o pagamento de dívidas a fornecedores e o lançamento de fundos para reabilitação económica e promoção do empreendedorismo jovem e feminino.

Ainda assim, Chapo reconheceu que a máquina pública continua a exibir fragilidades. Num momento raro de mea culpa, denunciou conflitos de interesse na gestão da Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), que travaram a aquisição de três novas aeronaves. “Descobrimos que, dentro da nossa empresa, há pessoas com conflitos de interesse. Vamos restruturar, e quem tiver de sair, sairá”, afirmou, prometendo uma limpeza sem contemplações.

Na frente social, o Presidente sublinhou os esforços de resposta a desastres naturais, o reforço dos programas de inclusão económica e a aposta no ensino técnico-profissional, com a certificação de 5.600 jovens. No impulso à digitalização, redes de Internet foram instaladas em 100 escolas e cinco mil computadores foram distribuídos a estudantes carenciados.

Apesar do tom optimista, analistas ouvidos pelo Txopela alertam que o verdadeiro teste da governação de Chapo ainda está por vir: manter o ímpeto reformista, sem deixar-se enredar pelas práticas e interesses que historicamente comprometeram a eficácia do Estado.

“Cada progresso conquistado é um passo importante”, insistiu Chapo, antes de reiterar que a estabilidade social e política “é a prioridade das prioridades”. A aposta, garantiu, é em reformas mais profundas e num desenvolvimento inclusivo que ainda está longe de ser realidade para a maioria dos moçambicanos.

 

Braço-direito de Venâncio Mondlane formalmente constituído arguido

Dinis Tivane, figura de confiança e braço operacional de Venâncio Mondlane, anunciou esta semana, através das suas redes sociais, que foi formalmente constituído em arguido pelo Ministério Público. A revelação surge num tom de quem prefere a transparência à especulação.

Já sou, oficialmente, arguido“, escreveu Tivane, antes de detalhar a sua maratona de nove horas no Gabinete Central de Combate ao Crime Organizado e Transnacional (GCCCOT), nas instalações da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Segundo o próprio, o primeiro interrogatório realizou-se na passada semana, no dia 24 de Abril, data em que foi notificado da sua condição processual. O foco do Ministério Público, revelou, centrou-se nas manifestações que abalaram a ordem pública em vários pontos do país.

A sessão, marcada para as 09h00, arrancou com algum atraso — só às 09h45 — e prolongou-se até ao final da tarde. No termo do interrogatório, Dinis Tivane foi sujeito a uma medida de coação considerada “natural” nestes casos: a imposição do Termo de Identidade e Residência (TIR).

Tivane faz questão de sublinhar que a decisão é idêntica à aplicada ao seu mentor político, o engenheiro Venâncio Mondlane, também ele arguido no âmbito dos mesmos processos relacionados com actos de contestação e protesto.

Fontes próximas ao processo confidenciaram ao Txopela que a linha de investigação poderá não se esgotar aqui, prevendo-se novos desenvolvimentos nas próximas semanas, num xadrez político-judicial.

Até ao fecho desta edição, nem a PGR nem Mondlane haviam emitido declarações formais sobre o caso.