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Mais de 3.750 atletas na 7ª légua da Cornelder na Beira

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A Cidade da Beira acolheu este sábado, 19 de Julho, a 7ª edição da Légua da Cornelder, que reuniu mais de 3.750 atletas nacionais e internacionais num evento que combinou desporto, saúde e responsabilidade social.

Promovida pela Cornelder de Moçambique, a corrida contou com a presença do Governador da Província de Sofala, Lourenço Ferreira Bulha, que participou na entrega de medalhas e prémios aos vencedores. Na ocasião, o dirigente enalteceu o impacto da iniciativa na promoção da saúde e do desporto, apelando a outras empresas locais para seguirem o exemplo e investirem em actividades de benefício comunitário.

A par da competição, decorreu uma Feira de Saúde integrada no programa Porto Saudável, oferecendo serviços e informação sobre saúde física e mental aos participantes e ao público, reforçando o carácter social da iniciativa.

A Légua da Cornelder volta a afirmar-se como um dos maiores eventos desportivos da região centro, com impacto directo na promoção do bem-estar e da cidadania activa.

Quelimane lança torneio escolar sobre sustentabilidade e clima

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Arrancou esta sexta-feira, 19 de Julho, na Escola Básica de Janeiro, o Torneio de Sustentabilidade e Mudanças Climáticas (TSMC), uma iniciativa da associação ASADRES, financiada pelo Conselho Autárquico de Quelimane no âmbito da segunda subvenção de iniciativas juvenis sobre mudanças climáticas, com apoio da Bloomberg Philanthropies.

A cerimónia de abertura juntou alunos e representantes de várias escolas da cidade, entre as quais as Secundárias Eduardo Mondlane, Mártires de Inhassunge, Amor de Deus, Geral de Quelimane, Aeroporto Expansão, Filipe Nyusi e a anfitriã Básica de Janeiro.

O projecto aposta numa abordagem inovadora para despertar a consciência ambiental entre adolescentes e jovens, recorrendo a oficinas, debates, desafios práticos e actividades culturais. A meta é clara: incentivar o pensamento crítico, a cidadania activa e a criação de soluções sustentáveis para os problemas ambientais locais.

O coordenador do projecto, Filipe Ribeiro, presidiu à cerimónia acompanhado pelo Vereador da Juventude, Hermínio Leonel Amade, técnicos municipais e representantes das escolas envolvidas.

Mais do que uma competição, o torneio procura posicionar as escolas como núcleos de aprendizagem ambiental, criando uma geração comprometida com a preservação e o futuro sustentável de Quelimane.

Quelimane instala Ecopontos: Uma iniciativa juvenil contra a crise climática

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A cidade de Quelimane deu início este sábado, 20 de Julho, à instalação de ecopontos em espaços públicos, numa acção liderada pela Associação Eco City, com financiamento do Município, através do fundo da Bloomberg Philanthropies.

O arranque simbólico teve lugar na Praça da Juventude Municipal e contou com a presença de Filipe Ribeiro, coordenador do projecto, Belcio Mahoho, da Empresa Municipal de Saneamento (EMUSA), o secretário do bairro local, técnicos da edilidade, activistas ambientais e munícipes.

A primeira fase prevê a produção e colocação de 15 ecopontos em locais estratégicos da urbe, como praças, mercados e centros comunitários, destinados ao depósito selectivo de resíduos leves — de cascas de fruta a papel e vidro partido.

Mais do que resolver um problema de lixo urbano, a iniciativa pretende engajar a juventude na resposta à crise climática, promovendo educação ambiental e novas formas de cidadania activa.

Para a edilidade, trata-se de mais um passo concreto na transformação de Quelimane numa referência nacional em gestão de resíduos e adaptação urbana às mudanças do clima.

Quelimane e Baotou firmam geminação estratégica

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Quelimane assinou esta segunda-feira, 21 de Julho, um acordo de geminação com a cidade chinesa de Baotou, situada na Região Autónoma da Mongólia Interior. A cerimónia decorreu em Maputo e contou com a presença de altas figuras dos dois países, incluindo os presidentes dos dois municípios, Manuel de Araújo e Meng Qingwei.

O protocolo estabelece uma cooperação abrangente nos domínios da economia, comércio, agricultura, cultura, turismo, mobilidade urbana, educação, formação tecnológica e gestão de resíduos.

A cerimónia foi testemunhada por personalidades de peso como a embaixadora da China em Moçambique, Wang Lixia — Governadora da Mongólia Interior —, o Governador da Zambézia, Pio Augusto Matos, e dirigentes da Renamo e de diversos órgãos autárquicos.

Além da troca de experiências e formação, o memorando prevê intercâmbios culturais e a participação conjunta em feiras e eventos, visando consolidar laços institucionais e promover o desenvolvimento local.

“O sucesso da geminação depende da sua utilidade prática. Queremos ver acções concretas que impactem positivamente a vida das comunidades”, sublinhou o Governador Pio Matos.

Com este passo, Quelimane reforça o seu posicionamento no cenário internacional, apostando em parcerias que combinem diplomacia com desenvolvimento local.

Lançada no BCI a obra: “José Craveirinha, esse Mandarim”

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O BCI acolheu, na quinta-feira, 17 de Julho, o lançamento do livro “José Craveirinha, esse Mandarim”, da autoria do conceituado académico e escritor moçambicano, Prof. Doutor Francisco Noa, uma figura incontornável no panorama académico literário nacional.

A cerimónia, que teve lugar no auditório do BCI, reuniu um público numeroso, composto por representantes da classe artística, académicos, familiares e amigos de Craveirinha, entre outras individualidades, num ambiente marcado pela emoção e pela celebração da literatura moçambicana.

Na apresentação da obra, o crítico literário e docente universitário, Aurélio Cuna, destacou a riqueza temática do livro, sublinhando que se trata de “uma obra que se inscreve em múltiplas dimensões do conhecimento, desde a literária, antropológica, cultural e investigativa”. Cuna recomendou a leitura atenta da obra, especialmente por parte de docentes, investigadores e estudantes, considerando-a uma referência obrigatória no estudo da literatura moçambicana.

Visivelmente emocionado, o autor, Francisco Noa, agradeceu aos presentes e afirmou: “A vossa presença aqui me engrandece. Mas não sou eu o homenageado nesta cerimónia, o tributo vai para José Craveirinha, este escritor maior que nos deixou um legado literário ímpar.”

O autor deixou ainda uma nota de apreço ao representante da Moçambique Editora, Pedro Macedo, pela dedicação e resiliência que permitiram a concretização do projecto, e dirigiu palavras calorosas ao anfitrião: “Ao BCI vai o meu especial agradecimento. Tem sido um parceiro absolutamente exemplar. O BCI não tem ganhos materiais neste tipo de investimento, mas oferece-nos algo muito maior: a oportunidade de reunir pessoas em torno da literatura e da cultura. Em nome da classe artística e literária, o nosso muito obrigado. Que este compromisso se mantenha, se amplie e se aprofunde. Os livros ainda nos atraem. Os livros ainda nos unem”, sublinhou.

Em nome do BCI, o Director de Relações Públicas, Heisler David, agradeceu a escolha da instituição como palco para o lançamento e enalteceu a importância da obra: “Agradecemos, de forma muito especial, ao autor, por ter confiado ao BCI a apresentação de uma obra de tamanha relevância. Trata-se de uma justa e sensível homenagem a José Craveirinha, figura maior da poesia moçambicana e uma das vozes mais marcantes da literatura em língua portuguesa.”

Refira-se que Francisco Noa é um autor multifacetado, com obras publicadas em Moçambique, Brasil e Portugal. A sua escrita, marcada por rigor analítico e profundidade crítica, cruza o ensaio, a crónica, a educação e a cidadania, revelando-se uma voz de referência na reflexão sobre a literatura e a realidade moçambicana. Reconhecido como um dos percursores e principais especialistas do género ensaístico no país, o seu contributo merece ampla difusão e reconhecimento além-fronteiras.

O BCI, ao associar-se ao lançamento de “José Craveirinha, esse Mandarim”, renova o seu compromisso com a valorização da cultura moçambicana.

 

Tractores para transporte ou para agricultura? Um debate necessário para o futuro das zonas rurais

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Antes de mais, gostaria de parabenizar o Governo pela iniciativa de tentar resolver um dos problemas crónicos que afectam as zonas rurais: a falta de transporte público. Passaram-se quase seis meses desde o início do mandato do novo Presidente, Daniel Chapo, e já se começa a notar algum esforço concreto para responder às promessas eleitorais.

Uma das medidas recentes é a disponibilização de 100 tractores com atrelados para funcionarem como transporte público de passageiros nas zonas rurais. A medida gerou debates acesos nas redes sociais, dividindo opiniões entre os que aplaudem a iniciativa como solução prática e os que a consideram um desvio da função essencial dos tractores.

Na minha zona, o Posto Administrativo de Chôa, no distrito de Báruè, província de Manica, esta proposta é vista com bons olhos por muitos. Chôa é uma região montanhosa e altamente produtiva em termos agrícolas, mas marcada por estradas quase intransitáveis durante a época chuvosa. Nesse contexto, um tractor pode, de facto, ser a única alternativa viável para transporte — tanto de pessoas como de mercadorias.

Contudo, é fundamental recordar o que diz a legislação em vigor. O Regulamento do Transporte em Veículos Automóveis, aprovado pelo Decreto 35/2019, proíbe explicitamente o transporte público de passageiros em tractores. Essa prática, além de ilegal, coloca em causa a integridade física dos cidadãos e viola o princípio de legalidade que deve nortear a governação.

Por isso, diversos activistas, académicos, jornalistas, cidadãos, políticos e organizações da sociedade civil têm criticado a medida. Para muitos, esses tractores deveriam ser investidos na produção agrícola, onde há uma carência gritante de equipamentos. A agricultura continua a ser o pilar do desenvolvimento social e económico nacional — mas ironicamente, o país importa produtos básicos como tomate, cebola, repolho, maçã e batata dos países vizinhos como Maláui, Zimbábue, África do Sul e Zâmbia.

Uma voz crítica que se destacou neste debate foi a do jornalista Salomão Moiane, que afirmou:

“Eu penso que nós temos que evoluir, não continuar a trabalhar com tractores; e tractores esses são muito necessários no campo para ajudar na agricultura, e nem temos tractores suficientes.”

Na minha visão, concordo com a crítica pública: estes 100 tractores deviam ser distribuídos em média 10 por província, para dinamizar a agricultura local. Cada província poderia criar campos comunitários (“machambas do povo”) com jovens organizados por blocos, fornecendo também insumos agrícolas, formação técnica e sistemas de irrigação com bombas solares. O impacto seria directo: emprego jovem, aumento da produção, redução das importações e segurança alimentar.

Eu próprio estaria disposto a apoiar no desenho e na monitoria de um programa desse tipo. A iniciativa presidencial tem potencial, mas precisa de direccionamento estratégico, legal e sustentável.

“Vamos Trabalhar!” – o slogan do Presidente Chapo – pode ganhar ainda mais força se for implementado com foco nas verdadeiras vocações das zonas rurais: produção agrícola, geração de rendimento e dignidade para os camponeses.

 

“O fim das bases francesas: Como o Senegal está a moldar a sua soberania militar”

No dia 17 de julho de 2025, uma data histórica, a última base militar francesa em África Ocidental foi oficialmente fechada, encerrando um ciclo de mais de seis décadas de presença militar francesa na região. Para o Senegal, este evento simboliza o fim de uma relação que remonta ao período colonial, com a presença das forças francesas servindo, por muito tempo, como pilar estratégico e de segurança. A questão que se coloca agora é: que legado deixa essa presença e como se desenhará a nova cooperação entre os dois países?

Ao longo de seis décadas, a presença militar francesa no Senegal não foi apenas uma questão de segurança, mas também uma forte base diplomática e estratégica. O impacto da presença francesa no país não se limitou ao apoio logístico ou militar direto, mas estendeu-se também à formação de suas forças de segurança. O Senegal manteve uma relação de cooperação estreita com a França, que se traduziu, em grande parte, em programas de formação para oficiais e na troca de conhecimento técnico que ajudaram a fortalecer as capacidades do exército senegalês. De fato, essa cooperação nunca foi vista como uma imposição, mas como um benefício mútuo, com o Senegal buscando sempre maximizar as vantagens de uma aliança com a antiga potência colonial.

Contudo, o cenário mudou. A retirada das tropas francesas foi uma promessa política do atual governo, liderado por Bassirou Diomaye Faye e Ousmane Sonko. Esta decisão reflete uma mudança na percepção do papel das antigas potências coloniais no continente africano, especialmente em relação à soberania nacional. A partir de agora, o Senegal deseja traçar seu próprio caminho, e o fim da presença militar francesa é um reflexo de um desejo crescente de autonomia nas questões de defesa. A retirada, que aconteceu de forma gradual, mas firme, não é apenas um reflexo de um movimento interno, mas também uma resposta a um sentimento crescente em todo o continente africano, que busca maior controle sobre seus assuntos internos, especialmente em áreas sensíveis como segurança e defesa.

Essa reconfiguração da presença militar francesa no Senegal não deve ser entendida como uma ruptura brusca ou um rompimento das relações entre os dois países, mas sim como uma reestruturação. O governo senegalês deixa claro que, embora a retirada das tropas seja simbólica, a cooperação entre os dois países continuará, agora em moldes diferentes. As novas áreas de cooperação prometem um maior foco na cibersegurança e na segurança marítima, duas questões cruciais para o Senegal, especialmente considerando a crescente instabilidade no Sahel e a importância estratégica da região costeira do país.

A cooperação continuará em outros setores, como cultura, educação e economia, com o objetivo de reforçar laços sem comprometer a soberania nacional. O governo senegalês também deixa claro que, embora se afaste da dependência militar da França, a colaboração técnica e a troca de informações continuam sendo vitais para enfrentar ameaças comuns, como o terrorismo e o crime organizado. O que está sendo traçado é uma nova forma de parceria, que reflete uma postura mais autônoma e assertiva do Senegal, mas que não descarta o valor de um relacionamento diplomático com a antiga potência colonial.

No contexto mais amplo, a decisão do Senegal reverbera com um movimento mais amplo que ganha força em toda a África. A crescente exigência de maior autonomia, especialmente entre os jovens africanos, reflete uma vontade de redefinir a relação com os países ex-colonizadores e de assumir um papel mais proativo nas decisões que afetam o continente. O sentimento é de que a África deve, cada vez mais, ser o protagonista de sua própria história, sem a necessidade de dependências externas que limitam sua soberania. Essa mudança, no caso do Senegal, é não apenas uma transição militar, mas também um reflexo das dinâmicas que estão remodelando as relações internacionais na África.

A retirada das tropas francesas do Senegal não é apenas uma vitória simbólica para o governo atual, mas também um sinal de que as relações entre os países podem ser reconstruídas com base na igualdade e no respeito mútuo, alinhadas com as necessidades de segurança contemporâneas e as aspirações de um continente africano mais autônomo.

O enredo de Clementina Bomba e a falácia da “Comunhão Interna” na Renamo: um partido em frangalhos

Por Luís de Figueiredo

É irônico que, no cerne das declarações de Clementina Bomba, secretária-geral da Renamo e uma das figuras mais leais e apadrinhadas de Ossufo Momade, esteja a promessa de restaurar a “comunhão interna” do partido, uma meta que, se dependesse da atual gestão, mais se assemelharia a uma miragem no deserto político moçambicano. Numa conferência de imprensa realizada em Maputo, Bomba trouxe à tona, mais uma vez, a velha retórica de união e estabilidade, mas sem apresentar os meios concretos para tal. A Renamo, segundo a líder, já trabalha para organizar o tão esperado Conselho Nacional, com o objetivo de restaurar a paz interna. No entanto, por mais que a promessa soe como música aos ouvidos de uma base cansada de disputas internas, a realidade é que essa mesma reunião, que deveria marcar o recomeço, não possui sequer os poderes necessários para efetuar uma mudança substancial: a destituição de Ossufo Momade.

E é aqui que o jogo político de bastidores se torna mais evidente. Bomba adverte que o Conselho Nacional não tem poderes para remover o presidente Ossufo Momade antes do congresso do partido. Que autoridade real, então, poderia ter essa reunião, se o órgão que deveria representar a pluralidade de vozes e interesses dentro da Renamo sequer pode deliberar sobre o destino do próprio líder? Para um partido que se diz democrático e pluralista, tal limitação soa como uma obviedade disfarçada de ingenuidade ou, pior, de conveniência. A questão sobre Momade parece ser o elefante na sala, ignorado estrategicamente até que se alcance o “timing perfeito” para uma decisão que, sabemos bem, será politicamente conveniente para os envolvidos.

A falta de clareza na agenda de Bomba sobre o futuro imediato de Momade é reveladora da ineficácia da atual gestão em dar respostas à pressão crescente dentro das fileiras da Renamo. Os ex-guerrilheiros, cuja ameaça de encerrar as delegações do partido ecoou como um ultimato, não são meros figurantes nesse enredo. Eles representam a base histórica do partido, cujos direitos, preocupações e reivindicações estão sendo sistematicamente ignorados pela liderança central. O fato de que Bomba precise pedir “calma” aos seus membros enquanto as promessas de convocação do Conselho Nacional continuam vagas, sem data definida, só aumenta a sensação de que a Renamo está se afundando em uma crise de identidade e de liderança.

Mas a situação se complica ainda mais quando Bomba se recusa a comentar as deliberações da Comissão Política do partido, onde se tratam as questões mais espinhosas, como a postura de Momade em relação aos ex-guerrilheiros. Essa omissão de informações, ou, para ser mais exato, o cuidado em evitar qualquer comentário que pudesse inflamar ainda mais a frágil unidade interna, só alimenta a percepção de que a verdadeira dinâmica de poder dentro da Renamo é mais uma questão de sobrevivência política do que de uma reflexão séria sobre os problemas enfrentados pela base militante.

E é aqui que surge o maior paradoxo. A Renamo, que se posiciona como o maior partido de oposição em Moçambique, ao invés de investir em um processo de autocrítica e de renovação, parece estar em um ciclo vicioso de farsa política. O partido foi refém de sua própria dinâmica interna: uma luta por poder entre facções que, no fundo, está muito mais ligada à preservação de privilégios do que ao real enfrentamento dos desafios que o país enfrenta.

O exemplo citado por Bomba sobre as “decisões profundas” tomadas na reunião com os ex-guerrilheiros – como a reabertura das delegações e a convocação do Conselho Nacional – revela mais uma vez a tentativa de maquilhar uma crise com ações paliativas. Essas “decisões”, como se fossem um avanço significativo, são, na realidade, um reflexo da incapacidade da liderança de resolver problemas mais profundos dentro da estrutura do partido.

Mas talvez o maior absurdo esteja no fato de que a própria Clementina Bomba, sendo uma das apadrinhadas mais próximas de Ossufo Momade, se vê no papel de defensora de uma ordem interna que, em grande medida, perpetua o status quo. Em lugar de um verdadeiro esforço para ouvir as bases e procurar soluções eficazes, ela simplesmente repete as palavras do líder, alinhando-se às suas estratégias de manutenção de poder. Não é de estranhar, portanto, que a sua postura quase sempre soe como uma tentativa de blindar Momade de qualquer questionamento sério, transformando a “comunhão interna” numa questão de lealdade irrestrita a um presidente que, aos olhos de muitos, já perdeu a capacidade de representar as aspirações do partido.

A verdade é que a Renamo, sob a liderança de Momade, continua sendo um campo minado de divisões internas, onde as vozes dissidentes são abafadas e a solução para os problemas parece estar sempre adiada. Um Conselho Nacional sem poder de decisão, uma base histórica desiludida e uma liderança que não tem coragem de enfrentar as contradições internas do partido. É esse o caminho para a tão prometida “comunhão interna”? A Renamo, ao que tudo indica, está se afundando na sua própria incoerência, e as palavras de Clementina Bomba, por mais que tentem pintar um quadro de harmonia, soam mais como uma tentativa desesperada de manter as aparências.

 

Para quê asfalto, se temos tractores?

Confesso a minha admiração. Não é uma admiração qualquer, é profunda, quase reverencial, perante a epifania governativa da Frelimo.

É preciso parar e reflectir sobre a beleza da solução. Uma mente vulgar, como a minha, veria apenas o problema, estradas em péssimas condições de transitabilidade, mas os nossos governantes viram uma oportunidade. A oportunidade de não ter de consertar as estradas. É um rasgo de génio gestionário que merece ser estudado em Harvard. Se o doente tem febre, não se combate a infecção; vende-se-lhe um termómetro mais resistente?!

O problema não é o buraco na estrada. O problema é a fragilidade do autocarro que não consegue passar pelo buraco (Risos). Logo, a solução não é tapar o buraco. É arranjar um veículo que, basicamente, seja primo em primeiro grau de um tanque de guerra, mas com uma vocação mais social. O tractor.

E não é um tractor qualquer. É um tractor com um “atrelado modificado”. Esta palavra, “modificado”, é a chave de tudo. Enche-me a alma de esperança. Imagino que “modificado” signifique que o atrelado virá com assentos ergonómicos em pele, ar condicionado e, quiçá, um pequeno bar onde se servirá sumos frescos para mitigar a poeira do trajecto. Imagino os passageiros em Inhassunge, depois de horas a sacolejar numa picada, a desembarcarem no seu destino e a pensarem: “Que viagem lenta, desconfortável e poeirenta. Mas, valha-nos Deus, o atrelado era modificado”.

Há quem diga, nos cafés, que talvez fosse mais lógico usar o dinheiro para comprar máquinas de terraplanagem e asfalto. Pessoas com falta de visão, claramente. Essas pessoas não compreendem que o Governo não está a resolver um problema de transporte. Está a promover uma nova modalidade de turismo de aventura e, ao mesmo tempo, a dotar o cidadão de uma resiliência física invejável. Viajar 50 quilómetros num atrelado puxado por um tractor deve fazer maravilhas aos músculos abdominais. É um ginásio sobre rodas. Um ginásio involuntário, mas ainda assim um ginásio.

E a melhor parte, o detalhe que eleva toda a iniciativa à categoria de obra de arte, é o Fundo de Transportes e Comunicações não revelar o custo total do plano. É um gesto de pura elegância. O conforto e a dignidade do povo não têm preço.

Enquanto o resto do mundo se preocupa com comboios de alta velocidade e carros eléctricos, Moçambique dá um passo corajoso em direcção ao futuro. Um futuro que anda a 15 quilómetros por hora, mas que é robusto e não se queixa dos buracos.

Mal posso esperar que estas maravilhas da engenharia cheguem aqui à Zambézia. Temos troços que são perfeitos para testar a durabilidade destes atrelados. E a dos passageiros, claro. Afinal, viajar num atrelado não é um retrocesso. É a prova de que o moçambicano tem uma capacidade de adaptação que o próprio Governo faz questão de testar todos os dias. E com sucesso.

 

Guiné-Bissau acolhe cimeira da CPLP sob contestação da oposição e sociedade civil

O deputado guineense Ussumane Camará defende que a Guiné-Bissau não reúne condições políticas nem institucionais para acolher a XV Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), prevista para decorrer este ano no país.

Em declarações públicas, o dirigente da juventude do PAIGC alertou que a realização da cimeira poderá representar uma legitimação internacional de um regime que considera ilegítimo, em virtude da atual conjuntura política e constitucional no país.

“Não podemos ignorar o facto de que esta cimeira está a ser organizada por um regime que não respeita a legalidade democrática nem o Estado de Direito. Uma cimeira sob estas condições corre o risco de legitimar um poder ilegítimo”, afirmou Camará.

O líder do PAIGC, Domingos Simões Pereira, atualmente afastado da presidência da Assembleia Nacional Popular, remeteu uma carta à Assembleia Parlamentar da CPLP na qual solicita a suspensão da realização da cimeira na Guiné-Bissau, alegando a existência de uma “anomalia constitucional grave”.

O pedido foi rejeitado pelos parlamentos dos Estados-membros da CPLP, que justificaram a decisão com base no princípio da separação de poderes.

A contestação surge num contexto de prolongada crise institucional no país, marcada pela dissolução do Parlamento em 2022 pelo Presidente Umaro Sissoco Embaló, e por sucessivas denúncias de violações dos direitos humanos, repressão política e degradação das condições sociais.

A sociedade civil também tem demonstrado inquietação com a realização da cimeira em Bissau. O líder do Movimento Revolucionário Pó de Terra, Vigário Luís Balanta, considerou que a CPLP não pode permanecer em silêncio face ao agravamento da situação política no país.

“Não podemos aceitar esta vinda da CPLP para dizer que está tudo bem enquanto há situações graves no país. Perante estes factos, queremos ação – e a ação da CPLP deve passar pela defesa da boa governação, da democracia e dos direitos humanos”, disse.

Apesar das controvérsias, a Guiné-Bissau já assumiu formalmente a presidência rotativa da CPLP, no seguimento dos trabalhos preparatórios da cimeira. O país lidera atualmente o Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional da CPLP (CONSAN-CPLP), cuja presidência rotativa passou oficialmente para Bissau esta semana.

Carlos Sambú, figura próxima do Presidente Embaló, rejeita as críticas e sustenta que a transição da presidência deve ser vista como uma oportunidade para o país reforçar o seu papel regional.

“A Guiné-Bissau abre uma nova reflexão e uma nova perspetiva. Trata-se de uma responsabilidade e uma oportunidade. Quanto às críticas, são os velhos devaneios que têm corrompido a nossa sociedade política”, afirmou.

Em 2024, o então secretário-executivo da CPLP, Zacarias da Costa, havia manifestado preocupação com a situação política na Guiné-Bissau, classificando-a como “menos boa” e gerando tensões diplomáticas com o governo de Bissau. O Presidente Embaló acusou Zacarias da Costa de ter excedido as suas funções no seio da organização.

Durante uma recente visita à capital guineense, Zacarias da Costa recuou nas declarações anteriores, referindo-se à sua intervenção como “infeliz” e sublinhando a importância da nova presidência para o futuro da CPLP.

“O sucesso da presidência da Guiné-Bissau é o sucesso de toda a CPLP. É tempo de mudança. A CPLP é uma comunidade de futuro, e temos de olhar para o futuro”, declarou.

A XV Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo da CPLP deverá decorrer nos próximos meses em Bissau, num clima de fortes divisões internas e crescente atenção da comunidade internacional sobre a situação política do país.