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Para quê asfalto, se temos tractores?

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Confesso a minha admiração. Não é uma admiração qualquer, é profunda, quase reverencial, perante a epifania governativa da Frelimo.

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É preciso parar e reflectir sobre a beleza da solução. Uma mente vulgar, como a minha, veria apenas o problema, estradas em péssimas condições de transitabilidade, mas os nossos governantes viram uma oportunidade. A oportunidade de não ter de consertar as estradas. É um rasgo de génio gestionário que merece ser estudado em Harvard. Se o doente tem febre, não se combate a infecção; vende-se-lhe um termómetro mais resistente?!

O problema não é o buraco na estrada. O problema é a fragilidade do autocarro que não consegue passar pelo buraco (Risos). Logo, a solução não é tapar o buraco. É arranjar um veículo que, basicamente, seja primo em primeiro grau de um tanque de guerra, mas com uma vocação mais social. O tractor.

E não é um tractor qualquer. É um tractor com um “atrelado modificado”. Esta palavra, “modificado”, é a chave de tudo. Enche-me a alma de esperança. Imagino que “modificado” signifique que o atrelado virá com assentos ergonómicos em pele, ar condicionado e, quiçá, um pequeno bar onde se servirá sumos frescos para mitigar a poeira do trajecto. Imagino os passageiros em Inhassunge, depois de horas a sacolejar numa picada, a desembarcarem no seu destino e a pensarem: “Que viagem lenta, desconfortável e poeirenta. Mas, valha-nos Deus, o atrelado era modificado”.

Há quem diga, nos cafés, que talvez fosse mais lógico usar o dinheiro para comprar máquinas de terraplanagem e asfalto. Pessoas com falta de visão, claramente. Essas pessoas não compreendem que o Governo não está a resolver um problema de transporte. Está a promover uma nova modalidade de turismo de aventura e, ao mesmo tempo, a dotar o cidadão de uma resiliência física invejável. Viajar 50 quilómetros num atrelado puxado por um tractor deve fazer maravilhas aos músculos abdominais. É um ginásio sobre rodas. Um ginásio involuntário, mas ainda assim um ginásio.

E a melhor parte, o detalhe que eleva toda a iniciativa à categoria de obra de arte, é o Fundo de Transportes e Comunicações não revelar o custo total do plano. É um gesto de pura elegância. O conforto e a dignidade do povo não têm preço.

Enquanto o resto do mundo se preocupa com comboios de alta velocidade e carros eléctricos, Moçambique dá um passo corajoso em direcção ao futuro. Um futuro que anda a 15 quilómetros por hora, mas que é robusto e não se queixa dos buracos.

Mal posso esperar que estas maravilhas da engenharia cheguem aqui à Zambézia. Temos troços que são perfeitos para testar a durabilidade destes atrelados. E a dos passageiros, claro. Afinal, viajar num atrelado não é um retrocesso. É a prova de que o moçambicano tem uma capacidade de adaptação que o próprio Governo faz questão de testar todos os dias. E com sucesso.

 


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Zito do Rosário Ossumane
Zito do Rosário Ossumanehttps://txopela.com/
Zito do Rosário Ossumane é um jornalista investigativo, empreendedor da comunicação e activista político moçambicano. Fundador e diretor do Jornal Txopela, consolidou a sua trajetória na luta pela liberdade de imprensa, transparência e defesa dos direitos humanos em Moçambique. Actualmente Presidente o Misa na Zambezia
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