Por Luís de Figueiredo
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É irônico que, no cerne das declarações de Clementina Bomba, secretária-geral da Renamo e uma das figuras mais leais e apadrinhadas de Ossufo Momade, esteja a promessa de restaurar a “comunhão interna” do partido, uma meta que, se dependesse da atual gestão, mais se assemelharia a uma miragem no deserto político moçambicano. Numa conferência de imprensa realizada em Maputo, Bomba trouxe à tona, mais uma vez, a velha retórica de união e estabilidade, mas sem apresentar os meios concretos para tal. A Renamo, segundo a líder, já trabalha para organizar o tão esperado Conselho Nacional, com o objetivo de restaurar a paz interna. No entanto, por mais que a promessa soe como música aos ouvidos de uma base cansada de disputas internas, a realidade é que essa mesma reunião, que deveria marcar o recomeço, não possui sequer os poderes necessários para efetuar uma mudança substancial: a destituição de Ossufo Momade.
E é aqui que o jogo político de bastidores se torna mais evidente. Bomba adverte que o Conselho Nacional não tem poderes para remover o presidente Ossufo Momade antes do congresso do partido. Que autoridade real, então, poderia ter essa reunião, se o órgão que deveria representar a pluralidade de vozes e interesses dentro da Renamo sequer pode deliberar sobre o destino do próprio líder? Para um partido que se diz democrático e pluralista, tal limitação soa como uma obviedade disfarçada de ingenuidade ou, pior, de conveniência. A questão sobre Momade parece ser o elefante na sala, ignorado estrategicamente até que se alcance o “timing perfeito” para uma decisão que, sabemos bem, será politicamente conveniente para os envolvidos.
A falta de clareza na agenda de Bomba sobre o futuro imediato de Momade é reveladora da ineficácia da atual gestão em dar respostas à pressão crescente dentro das fileiras da Renamo. Os ex-guerrilheiros, cuja ameaça de encerrar as delegações do partido ecoou como um ultimato, não são meros figurantes nesse enredo. Eles representam a base histórica do partido, cujos direitos, preocupações e reivindicações estão sendo sistematicamente ignorados pela liderança central. O fato de que Bomba precise pedir “calma” aos seus membros enquanto as promessas de convocação do Conselho Nacional continuam vagas, sem data definida, só aumenta a sensação de que a Renamo está se afundando em uma crise de identidade e de liderança.
Mas a situação se complica ainda mais quando Bomba se recusa a comentar as deliberações da Comissão Política do partido, onde se tratam as questões mais espinhosas, como a postura de Momade em relação aos ex-guerrilheiros. Essa omissão de informações, ou, para ser mais exato, o cuidado em evitar qualquer comentário que pudesse inflamar ainda mais a frágil unidade interna, só alimenta a percepção de que a verdadeira dinâmica de poder dentro da Renamo é mais uma questão de sobrevivência política do que de uma reflexão séria sobre os problemas enfrentados pela base militante.
E é aqui que surge o maior paradoxo. A Renamo, que se posiciona como o maior partido de oposição em Moçambique, ao invés de investir em um processo de autocrítica e de renovação, parece estar em um ciclo vicioso de farsa política. O partido foi refém de sua própria dinâmica interna: uma luta por poder entre facções que, no fundo, está muito mais ligada à preservação de privilégios do que ao real enfrentamento dos desafios que o país enfrenta.
O exemplo citado por Bomba sobre as “decisões profundas” tomadas na reunião com os ex-guerrilheiros – como a reabertura das delegações e a convocação do Conselho Nacional – revela mais uma vez a tentativa de maquilhar uma crise com ações paliativas. Essas “decisões”, como se fossem um avanço significativo, são, na realidade, um reflexo da incapacidade da liderança de resolver problemas mais profundos dentro da estrutura do partido.
Mas talvez o maior absurdo esteja no fato de que a própria Clementina Bomba, sendo uma das apadrinhadas mais próximas de Ossufo Momade, se vê no papel de defensora de uma ordem interna que, em grande medida, perpetua o status quo. Em lugar de um verdadeiro esforço para ouvir as bases e procurar soluções eficazes, ela simplesmente repete as palavras do líder, alinhando-se às suas estratégias de manutenção de poder. Não é de estranhar, portanto, que a sua postura quase sempre soe como uma tentativa de blindar Momade de qualquer questionamento sério, transformando a “comunhão interna” numa questão de lealdade irrestrita a um presidente que, aos olhos de muitos, já perdeu a capacidade de representar as aspirações do partido.
A verdade é que a Renamo, sob a liderança de Momade, continua sendo um campo minado de divisões internas, onde as vozes dissidentes são abafadas e a solução para os problemas parece estar sempre adiada. Um Conselho Nacional sem poder de decisão, uma base histórica desiludida e uma liderança que não tem coragem de enfrentar as contradições internas do partido. É esse o caminho para a tão prometida “comunhão interna”? A Renamo, ao que tudo indica, está se afundando na sua própria incoerência, e as palavras de Clementina Bomba, por mais que tentem pintar um quadro de harmonia, soam mais como uma tentativa desesperada de manter as aparências.
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