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 “Até quando?”: silêncio, abusos e o papel do Estado na protecção dos cidadãos

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“O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.” – Martin Luther King Jr.

No distrito de Boane, província de Maputo, um episódio que nos deve alarmar como sociedade foi recentemente reportado pela Miramar TV: supostos agentes do SERNIC invadiram um estabelecimento comercial, apreenderam mercadorias e prenderam o proprietário por 15 dias — sem julgamento, sem explicação clara e com um “mandado confuso” que até as autoridades locais não souberam interpretar.

O comerciante, após dias de busca por respostas, soube que havia contra si um mandado que mencionava uma pena de 24 anos de prisão, sem que soubesse de que era acusado. Pior ainda, foi solto sem que o processo tivesse avançado, sem esclarecimento do motivo da detenção e com o seu estabelecimento praticamente vazio. Tudo isto configura violação flagrante do Estado de Direito, abuso de poder e um insulto à dignidade humana.

Onde está a justiça?

A Constituição da República de Moçambique (CRM), no seu Artigo 59, garante o direito à liberdade e segurança pessoal, e no Artigo 63 assegura que ninguém pode ser detido arbitrariamente. Entretanto, o que vimos neste caso é um padrão preocupante: prisões preventivas arbitrárias, falta de transparência nos mandados, confisco de bens sem contraditório, e ausência de responsabilização dos agentes envolvidos.

A justificação do SERNIC de que os bens foram adquiridos “ilegalmente durante manifestações” não é suficiente para atropelar a legalidade. Um órgão de investigação criminal deve agir com base em provas, respeitar o contraditório e seguir o devido processo legal. O papel do SERNIC é investigar, não punir extrajudicialmente.

Um precedente perigoso

A pergunta que não quer calar é: até quando? Até quando os cidadãos serão tratados como culpados antes de julgados? Até quando assistiremos ao silêncio das autoridades competentes, como se estas situações fossem normais num Estado que se diz democrático?

Este caso levanta sérios indícios de perseguição, intimidação e parcialidade, sobretudo porque a própria filha do comerciante denuncia a falta de transparência, a dor psicológica do pai, e o sentimento de impotência diante de um sistema que não responde.

Recomendações urgentes:

  • Respeito pelo devido processo legal: nenhuma apreensão ou detenção deve ocorrer fora dos parâmetros legais e constitucionais.
  • Mandados claros e públicos: o conteúdo dos mandados deve ser compreendido pelas partes envolvidas, incluindo autoridades locais.
  • Protecção dos direitos de comerciantes: as autoridades devem instruir os cidadãos sobre a importância dos comprovativos, mas também agir com bom senso quando estes forem limitados.
  • Investigação independente e responsabilização: o Ministério Público e o Provedor de Justiça devem investigar este caso e, se confirmadas irregularidades, responsabilizar os envolvidos.
  • Apoio psicológico e material à vítima: a perda total de bens sem indemnização pode levar à pobreza extrema e trauma — o Estado deve reparar o dano causado.
  • Participação da sociedade civil: as Organizações da Sociedade Civil devem acompanhar o caso, prestar apoio jurídico e denunciar estes abusos sempre que ocorrerem.

 

Conclusão

Não podemos permitir que a justiça seja substituída por arbitrariedades. O medo, o silêncio e a impunidade não podem ser os instrumentos do Estado para “combater o crime”. Se hoje é com este comerciante, amanhã pode ser com qualquer um de nós.

Cabe a todos nós — cidadãos, juristas, jornalistas, activistas e líderes — levantar a voz, denunciar, e exigir respeito à dignidade humana.

“Injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo o lugar.” – Martin Luther King Jr.

 

Moçambique e o ciclo de violência armada: até quando?

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Quem tem legitimidade para o uso de armas em Moçambique são as Forças de Defesa e Segurança (FDS). No entanto, desde a independência, vemos agentes da polícia a circular armados com armas de guerra nas vias públicas, algo que merece profunda reflexão. Afinal, porquê essa exibição permanente de poder bélico? Já passou da hora de repensar até a presença de armas no próprio símbolo nacional.

A cada dia assistimos a casos de raptos, crimes armados, baleamentos — muitos deles em plena luz do dia, nas ruas movimentadas das nossas cidades, onde circulam crianças, idosos, mulheres e homens trabalhadores. Infelizmente, as câmaras de vigilância e os serviços de inteligência não parecem ser suficientes para travar esta onda de terror. E, invariavelmente, os porta-vozes da polícia repetem o refrão: “os autores são desconhecidos”, enquanto prometem investigações sem resultados concretos. Até quando?

Esses acontecimentos não só mancham a imagem do país, como também afastam potenciais investidores e comprometem a reputação do próprio Presidente Chapo. Quando agentes do Estado são mortos a tiro — como recentemente sucedeu na Matola, onde dois agentes (um da PRM e outro do SERNIC) foram abatidos com 54 tiros — levanta-se a questão: quem está a perder o controlo do uso das armas? Por que matar polícias? Que mensagem se quer passar?

É igualmente preocupante ver, nas redes sociais, cidadãos a celebrar a morte de agentes. Isso está errado. Os polícias também são filhos de alguém, nossos filhos, pais de alguém, trabalhadores que cumprem ordens. Não podemos esquecer que, muitas vezes, esses agentes apenas executam orientações superiores — erradas ou certas. Por isso, é essencial recordar: as FDS são do Estado, não de um partido.

Pergunto: estará alguém a “apagar arquivos”? É inquietante que, pouco tempo depois de outro baleamento mortal envolvendo um agente da Unidade de Intervenção Rápida em Nkobe, surja este novo caso na Matola. Está a tornar-se “moda” resolver tudo à bala?

Na minha opinião, o uso de armas pesadas como a AKM deveria ser restrito a situações de conflito armado, como em Cabo Delgado, e não banalizado no patrulhamento diário das cidades. Quem quiser empunhar armas para defender o país que vá para as zonas de conflito — não para aterrorizar cidadãos indefesos nas ruas. Atirar mais de  50 balas contra duas pessoas à luz do dia, sem medo de testemunhas, só pode ser classificado como crime organizado. É o espírito de Caim que matou Abel, por inveja e ódio.

É urgente que as autoridades, incluindo o Presidente da República como Comandante-Chefe, façam uma limpeza profunda neste sistema. O controlo rigoroso do armamento e da conduta das FDS deve ser prioridade. Caso contrário, quem hoje serve ao poder, amanhã pode virar o disco e tornar-se um carrasco.

O presidente Chapo tem uma oportunidade histórica. Se conseguir resolver estes casos, ganhará ainda mais confiança do povo, porque Moçambique precisa de paz verdadeira e duradoura — sem esquadrões da morte, sem execuções sumárias, sem medo.

 

Quelimane: Governo bloqueia escola e deixa crianças ao relento

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Três anos depois de concluída, uma escola construída pelo Município de Quelimane no bairro Ivagalane continua fechada, enquanto centenas de crianças estudam debaixo de árvores. A razão? O Governo Provincial da Zambézia recusa-se a integrar a infraestrutura no sistema público de ensino.

A situação, que já dura anos, voltou ao centro do debate este sábado, após uma visita ao local liderada pelo edil Manuel de Araújo, acompanhado pelo 2.º Vice-Presidente da Assembleia da República. Visivelmente indignado, o dirigente parlamentar criticou a inércia do Executivo provincial.

“É inadmissível que esta escola, totalmente construída e equipada com recursos do município, continue fechada enquanto crianças aprendem em condições desumanas. Este caso deve ser levado ao plenário com urgência”, afirmou o vice do Parlamento.

Segundo revelou, foi uma reportagem jornalística que o alertou para o caso, levando-o a deslocar-se pessoalmente a Quelimane para confirmar os factos.

A escola, erguida com fundos da cooperação descentralizada entre Quelimane e o Município português de Setúbal, está concluída: salas de aula, blocos administrativos e sanitários estão prontos para funcionar. Mas, sem o aval formal do Governo Provincial, as portas continuam trancadas.

O edil Manuel de Araújo não poupou críticas, considerando o bloqueio como parte de uma política deliberada de sabotagem institucional. “Recordo o que aconteceu com as ambulâncias municipais. Primeiro rejeitadas, hoje são as mais operacionais da cidade. Esta escola também acabará por servir a população — com ou sem o consentimento da burocracia central”, atirou.

A Lei nº 6/2018, que define as competências descentralizadas, dá aos municípios autoridade para gerir escolas primárias e centros de saúde. No entanto, segundo juristas e observadores independentes, a sua aplicação continua a ser travada pelos sectores da administração central e provincial, comprometendo os objectivos da governação local.

Para muitos, o caso da escola de Ivagalane é apenas a ponta do icebergue de um conflito silencioso entre descentralização legal e centralismo prático, com consequências diretas para os cidadãos — especialmente os mais vulneráveis.

Quelimane treina técnicos em comunicação institucional

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O Conselho Autárquico de Quelimane capacitou, esta sexta-feira, os seus técnicos de comunicação e imagem em matérias de jornalismo institucional. A formação, que também abrangeu quadros da Empresa Municipal de Saneamento (EMUSA), visa melhorar a produção de conteúdos públicos com mais rigor e clareza.

A iniciativa faz parte de um plano mais amplo de reforço técnico dos sectores municipais, prevendo-se a extensão a outros departamentos nas próximas fases.

O jornalista e formador Zito do Rosário Ossumane, que conduziu a sessão, destacou a importância de alinhar a comunicação institucional com princípios jornalísticos. “Uma comunicação clara, objetiva e ética pode reforçar a transparência e aproximar os cidadãos da sua administração local”, afirmou.

Com este investimento, a edilidade quer elevar o nível da comunicação pública e garantir maior eficiência na relação com a comunidade.

 

RENAMO mexe-se em Quelimane

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A RENAMO começou a aquecer os motores para o ciclo eleitoral de 2028/2029. Esta sexta-feira, a Delegação Política da cidade de Quelimane desceu ao bairro 3 de Fevereiro, onde realizou uma visita de trabalho ao Posto Político n.º 3.

Na linha da frente esteve o delegado político Leonardo Botão, que reuniu-se com militantes e estruturas de base, num exercício de aproximação e reanimação do aparelho partidário local.

A presença da Liga Feminina foi particularmente notada, tendo recebido o dirigente com entusiasmo. Em gesto simbólico, Botão distribuiu capulanas às participantes, apelando à mobilização activa. “Todos somos mobilizadores”, frisou, pedindo empenho na divulgação da imagem do partido e do seu presidente, Ossufo Momade.

A iniciativa insere-se num roteiro mais amplo de contacto com as bases. No domingo, o foco desloca-se para o bairro Coalane II, onde está prevista nova visita ao Posto Político n.º 2.

Com estas movimentações, a RENAMO quer mostrar que ainda respira nas zonas urbanas e que está a posicionar-se para disputar espaço no próximo ciclo político.

Reconhecimento da Palestina travado por votos da direita no parlamento português

O Parlamento português rejeitou, esta sexta-feira, todos os projectos de resolução que recomendavam ao Governo o reconhecimento oficial do Estado da Palestina. As propostas foram chumbadas com os votos contra do Partido Social Democrata (PSD), do CDS-Partido Popular, do Chega e da Iniciativa Liberal (IL), frustrando as expectativas dos partidos à esquerda e de sectores da sociedade civil que defendem o reconhecimento formal como um gesto simbólico de apoio à autodeterminação do povo palestiniano.

Foram apresentados diversos projectos por partidos como o Bloco de Esquerda (BE), o Partido Comunista Português (PCP), o Livre e o Partido Ecologista “Os Verdes” (PEV), que argumentaram que Portugal deveria alinhar-se com outros países europeus que, nos últimos meses, reconheceram oficialmente o Estado da Palestina, como Espanha, Irlanda e Noruega. No entanto, nenhuma das iniciativas reuniu a maioria necessária para ser aprovada.

Durante o debate parlamentar, as divergências ideológicas ficaram evidentes. Os partidos proponentes sublinharam a urgência de uma resposta humanitária e política à crise no Médio Oriente, sobretudo à luz da escalada da violência em Gaza e da intensificação da ocupação israelita. “O reconhecimento do Estado da Palestina é um acto de justiça histórica e um passo essencial para uma paz duradoura”, afirmou a deputada Mariana Mortágua, do Bloco de Esquerda.

Já os partidos da direita rejeitaram o que consideram ser uma “politização simplista” de um conflito complexo. “Portugal não deve precipitar-se em reconhecer unilateralmente um Estado que não tem controlo efectivo sobre o seu território nem instituições plenamente funcionais”, defendeu um deputado do PSD. O Chega, por sua vez, acusou os partidos de esquerda de “promoverem narrativas anti-Israel”.

A rejeição dos projectos de resolução surge num momento em que cresce o movimento internacional pelo reconhecimento do Estado palestiniano como forma de pressionar Israel a retomar negociações de paz. A decisão do Parlamento português afasta o país desse movimento, suscitando críticas por parte de organizações de direitos humanos e da comunidade árabe em Portugal.

“O voto de hoje é uma oportunidade perdida para Portugal se colocar do lado certo da história”, lamentou a organização MENA Solidária, que acompanha a situação no Médio Oriente. Do lado israelita, a decisão foi bem acolhida como sinal de “equilíbrio e prudência diplomática”.

O Governo português, liderado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro, mantém a posição tradicional de apoio à solução de dois Estados, mas defende que o reconhecimento deve acontecer “em coordenação com os parceiros europeus e num momento politicamente oportuno”.

Com esta decisão, Portugal adia, mais uma vez, um gesto simbólico que vários sectores da sociedade consideram necessário e urgente. Resta saber se a pressão internacional e a evolução da situação no terreno voltarão a colocar o tema na agenda parlamentar nos próximos meses.

Silêncio de Ramaphosa irrita oposição após general denunciar corrupção no topo da Polícia

A recente crise na liderança da Polícia sul-africana expôs uma teia de tensões institucionais e políticas que vai muito além das acusações bombásticas feitas pelo comandante da polícia da província de KwaZulu-Natal. A alegada infiltração de redes criminosas em altos níveis da corporação — incluindo a acusação direta ao ministro da Polícia, Senzo Mchunu — provocou um verdadeiro abalo político que já transbordou para o Parlamento e para os bastidores do governo do Presidente Cyril Ramaphosa.

Mais do que apenas um escândalo policial, o caso está a revelar disputas internas, fragilidades na cadeia de comando e a dificuldade do Executivo em responder de forma célere a denúncias que tocam no âmago da segurança pública nacional. O Presidente Ramaphosa, recém-chegado da cimeira dos BRICS, agiu com prudência e convocou de imediato o comandante-geral da polícia, general Fannie Massemola, exigindo explicações até esta sexta-feira. Mas essa prudência já começa a ser interpretada, por alguns sectores políticos, como hesitação ou cálculo político.

Na origem da crise está a declaração pública do General Nhlanhla Mkwanazi, comandante da polícia em KwaZulu-Natal, que afirmou sem rodeios que a corporação estava “infiltrada” e que havia “colaboração ativa entre criminosos e altas patentes da polícia”, citando diretamente o ministro Senzo Mchunu. Mkwanazi, que recebeu o apoio imediato do governador da província, foi descrito como “um homem íntegro e de princípios”, o que dá mais peso às suas palavras — e mais pressão sobre o Executivo.

A Aliança Democrática (DA), principal partido da oposição, anunciou que apresentará um processo-crime contra o Ministro da Polícia e exigiu um debate urgente no Parlamento. Contudo, a presidente do Parlamento, Thoko Didisa, decidiu travar esse debate, optando por uma abordagem mais institucional: encaminhou o caso para três comissões parlamentares (Polícia, Justiça e Inteligência), com a missão de produzir um relatório conjunto no prazo de 14 dias.

Esta decisão foi recebida com críticas por alguns partidos, que consideram a medida uma tentativa de ganhar tempo e proteger figuras próximas ao governo. Didisa, no entanto, justificou a decisão com base nos regulamentos internos do Parlamento, destacando a necessidade de uma abordagem informada e coordenada. “É importante que se analise com profundidade o processo antes de levar o debate ao plenário”, argumentou.

Para analistas políticos sul-africanos, este episódio pode marcar um ponto de viragem na relação entre a liderança policial e o poder político, num contexto em que o país enfrenta altos índices de criminalidade, insegurança e corrupção institucional. A Polícia sul-africana tem sido historicamente acusada de ineficiência, mas raramente se viu uma acusação desta gravidade partir de um dos seus mais altos oficiais contra os próprios superiores.

Por outro lado, o comandante-geral da polícia veio a público, ainda na quarta-feira, desmentir que tenha ordenado o desmantelamento de uma unidade especial que investigava assassinatos com motivações políticas — uma outra frente de suspeitas que se abre num momento particularmente delicado.

Seja qual for a evolução do caso nos próximos dias, o Presidente Ramaphosa terá de encontrar um equilíbrio difícil: entre agir com firmeza e evitar que a crise contamine ainda mais o seu governo, num momento em que se prepara para eleições e enfrenta pressão crescente de dentro do seu próprio partido, o ANC.

O prazo até sexta-feira para reunir informação poderá ser apenas o início de uma crise maior — ou a última chance de reconfigurar a confiança na força policial da África do Sul.

 

Dia mundial da população: Moçambique cresce, mas para onde vai?

Por Luís de Figueiredo

Neste 11 de julho, Dia Mundial da População, Moçambique chega a mais um marco populacional com um silêncio ensurdecedor. Somos hoje mais de 34,5 milhões de habitantes, crescendo a uma taxa de 2,9% ao ano, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística e do Banco Mundial. Isso nos coloca entre os países de crescimento mais rápido em África — e no mundo.

Mas, ao contrário do que se poderia esperar, esse crescimento não é motivo de celebração. Num país onde as escolas estão superlotadas, os hospitais subfinanciados, e o desemprego jovem ultrapassa os 30% nas zonas urbanas, o aumento da população representa um desafio estrutural que ainda não estamos a enfrentar com seriedade.

Todos os anos, mais de 450 mil jovens entram no mercado de trabalho, mas encontram um cenário sem oportunidades, marcado pela informalidade, migração forçada ou desesperança. O que poderia ser uma vantagem demográfica está a transformar-se numa bomba-relógio social.

Por outro lado, a explosão populacional moçambicana está intrinsecamente ligada à falta de acesso universal a serviços de saúde sexual e reprodutiva. De acordo com o UNFPA, mais de 40% das raparigas entre os 15 e os 19 anos já são mães ou estão grávidas, e cerca de 35% das mulheres em idade fértil têm necessidades de planeamento familiar não satisfeitas.

Este cenário, agravado por casamentos prematuros, abandono escolar precoce e desigualdades de género, compromete o futuro do país. E, no entanto, o tema continua fora da agenda política de forma estruturada. Os discursos institucionais sobre “capital humano” não se traduzem em políticas públicas eficazes, orçamentos sensíveis à demografia ou medidas concretas de empoderamento das mulheres.

Falar de população em Moçambique é também falar de prioridades políticas. A ausência de um planeamento populacional sério não é descuido — é omissão. E essa omissão tem custos reais: mais pobreza, mais pressão sobre recursos naturais, mais exclusão, mais instabilidade.

Neste Dia Mundial da População, não precisamos de slogans nem celebrações protocolares. Precisamos de ação. O país deve encarar com urgência o desafio de transformar o crescimento demográfico em desenvolvimento inclusivo — ou corre o risco de ver o seu maior recurso tornar-se no seu maior problema.

Moçambique cresce. Mas a grande questão é: está a crescer para onde?

Crise de Legitimidade: Declarações de Chapo sobre acordo com Venâncio Mondlane geram polémica

O debate sobre a credibilidade do diálogo político em Moçambique volta a ganhar força, desta vez com o foco na forma como os processos de negociação têm sido conduzidos ao mais alto nível. Mais do que uma disputa sobre a existência ou não de um acordo formal entre o Presidente da República, Daniel Chapo, e o político Venâncio Mondlane, o episódio levanta dúvidas sobre a consistência, a transparência e o comprometimento institucional com a pacificação e a reconciliação nacional.

O Centro para Democracia e Desenvolvimento (CDD) manifestou-se esta quinta-feira (10.07) em Maputo, alertando para o que considera uma grave erosão da confiança pública. “O Presidente está a enviar sinais contraditórios à sociedade”, declarou André Mulungo, membro da organização, ao reagir às recentes declarações de Chapo, que negou qualquer acordo formal com Mondlane, apesar de anteriores comunicados oficiais da Presidência sugerirem o contrário.

Para o CDD, esta divergência de versões mina os esforços de reconciliação. “Esses jogos políticos descredibilizam completamente os processos de diálogo. Não há confiança possível sem coerência institucional”, afirmou Mulungo.

Venâncio Mondlane, que disputou as últimas eleições presidenciais como candidato da RENAMO e atualmente se apresenta como figura política independente, já havia denunciado no final de junho que o acordo estabelecido com o Presidente “não está a ser respeitado nem no discurso, nem na prática”. Chapo, por sua vez, afirmou dias depois que “não houve assinatura de acordo com Venâncio Mondlane”, sublinhando que “os únicos signatários foram partidos políticos formais”.

A controvérsia vai além do mero debate sobre quem assinou o quê. Para analistas políticos, a situação revela um padrão de fragilidade nos processos de concertação em Moçambique, frequentemente caracterizados por falta de transparência, exclusão de vozes relevantes e ausência de mecanismos de monitoria independentes.

“Desde 1994, temos acordos que começam com esperança e terminam em frustração. O problema não é a ausência de documentos. É a ausência de vontade política para os tornar realidade”, sublinha Mulungo, lembrando os vários momentos de instabilidade e violência que marcaram o país nas últimas três décadas.

A falta de clareza sobre o papel de figuras políticas emergentes, como Mondlane, também levanta questões sobre a abertura do sistema político moçambicano à inclusão de novos atores. “Mesmo sem partido formalizado, Venâncio Mondlane representa uma parcela significativa da oposição e da juventude desiludida. Ignorar essa realidade é ignorar uma parte do país”, observa um cientista político ouvido sob anonimato.

Para o CDD e outras organizações da sociedade civil, o momento exige uma revisão profunda dos mecanismos de diálogo e da arquitetura institucional de paz em Moçambique. “Sem compromisso verdadeiro e sem respeito à palavra dada, o risco é entrarmos em mais um ciclo de desilusão e instabilidade”, conclui André Mulungo.

A gestão desta crise de confiança poderá ser decisiva não só para o futuro imediato do diálogo político, mas também para a construção de um ambiente democrático mais sólido, plural e sustentável em Moçambique

Nova geração sem vaga no Estado: Governo suspende admissões até 2028

O Governo de Moçambique anunciou esta quarta-feira (10) uma nova medida de contenção orçamental que promete impactar significativamente o panorama do emprego público no país nos próximos anos. De acordo com um comunicado oficial, o Executivo decidiu suspender a entrada de novos funcionários na função pública até 2028, com exceções pontuais para sectores essenciais como saúde, educação e segurança.

A decisão surge no âmbito de um esforço mais amplo para conter os custos com salários e reequilibrar as finanças públicas, num contexto de restrições fiscais agravadas por desafios económicos internos e externos.

Segundo o governo, os sectores mencionados como exceções foram identificados como estratégicos, uma vez que qualquer interrupção na prestação dos seus serviços poderia comprometer o bem-estar da população e a estabilidade institucional. “Não vamos permitir que áreas críticas como hospitais, escolas e forças de defesa e segurança fiquem desprovidas de pessoal essencial”, lê-se na nota.

Ao mesmo tempo, o Executivo anunciou que irá acelerar o processo de aposentação dos funcionários públicos que já cumpriram os requisitos legais para a reforma. Esta medida visa não apenas permitir a renovação dos quadros institucionais, como também aliviar a crescente pressão sobre a massa salarial do Estado, que representa uma fatia considerável do orçamento nacional.

Analistas apontam que esta decisão poderá ter efeitos mistos: por um lado, poderá ajudar a restaurar a saúde fiscal do país e criar margens para investimento em áreas prioritárias; por outro, poderá limitar o acesso ao emprego público, especialmente para jovens recém-formados, num país onde o desemprego juvenil continua a ser um dos principais desafios socioeconómicos.

Sindicatos e organizações da sociedade civil ainda não reagiram oficialmente, mas o anúncio já começa a gerar debates sobre o impacto a médio e longo prazo no funcionamento da administração pública e na prestação de serviços aos cidadãos.

Com esta medida, o Governo de Moçambique reitera o seu compromisso com uma gestão mais responsável dos recursos públicos, ao mesmo tempo que procura garantir que os serviços essenciais não sejam comprometidos