A recente audiência entre o Presidente da República de Moçambique, Daniel Chapo, e o CEO da multinacional italiana ENI, Claudio Descalzi, traz sinais promissores para o país, sobretudo pela promessa de criar milhares de empregos por meio da agricultura sustentável e da diversificação das actividades económicas. Mas, num país onde mais de 70% dos jovens estão desempregados, e onde a terra fértil permanece subaproveitada, é justo perguntar: será que agora vamos transformar potencial em realidade?
Na visão do CEO da ENI, Moçambique tem agora duas pernas para correr: energia (gás) e agricultura sustentável. A energia, embora importante, cria poucos empregos e exige alta especialização. Já a agricultura, especialmente voltada para a produção de biocombustíveis sustentáveis, pode gerar até 300 mil empregos com 300 mil hectares cultivados — números que despertam esperança num país jovem e com forte vocação agrícola.
Se bem implementada, esta iniciativa pode ser uma das boas práticas mais esperadas pelos cidadãos: aliar desenvolvimento à inclusão social e económica, usando a terra como fonte de renda e dignidade. Mas, atenção: a experiência passada com mega projectos ensina que não basta prometer empregos – é preciso garantir inclusão justa, formação e fiscalização.
Risco de mais um ciclo extractivo?
Apesar da euforia com os megaprojectos de gás (como o Coral Sul e agora o Coral Norte), é preciso não perder de vista que o modelo extractivista tem falhado em redistribuir riqueza para o povo. Em Tete, Cabo Delgado e Inhambane, comunidades continuam pobres, enquanto multinacionais operam sobre recursos públicos com benefícios desiguais.
Há muitas descobertas de vários recursos minerais no país. Muitos contratos, muitas empresas que exploram pedras preciosas, turmalinas, gás natural, arreias pesadas, ouro, cobre, esmeraldas, diamantes, carvão mineral, ferro, níquel, diatomite, pegmatito, entre outros – mas há desenvolvimento socioeconómico dos cidadãos locais que vivem nessas regiões ricas?
Por outro lado, há o risco de a entrada da ENI na agricultura seguir o mesmo padrão: ocupação de terras sem respeito pelos direitos das comunidades locais, monocultura para exportação e pouco valor agregado no território. Por isso, é vital que esta nova etapa da parceria seja acompanhada com mecanismos de monitoria cívica, transparência e consulta pública efectiva.
Sim, a agricultura é a resposta, mas com responsabilidade.
Se a ENI vai investir em agricultura, deve fazê-lo com os camponeses, e não apenas sobre eles. É fundamental priorizar:
- Programas de formação técnica e empreendedorismo rural para jovens;
- Garantia de segurança de posse de terra para comunidades locais;
- Apoio a cooperativas agrícolas locais;
- Cadeias de valor sustentáveis, com fábricas de transformação local;
- Respeito pelas normas ambientais e sociais.
O mais importante nesta parceria é que ela pode sinalizar um novo modelo de desenvolvimento: onde os recursos naturais deixam de ser maldição para se tornarem alavanca para justiça social. Se o Presidente Chapo conseguir fazer desta agenda agrícola uma causa nacional, terá não apenas uma bandeira de governação — terá a confiança de uma juventude hoje desesperançada.
Conclusão
Moçambique tem terras, clima e força jovem. O que falta é um modelo económico que olhe para o cidadão comum como parceiro e não como figurante. A parceria com a ENI pode ser o início desse novo capítulo — mas só se for feita com inclusão, fiscalização e transparência.