Do epicentro da destruição à vitrine do imperialismo urbano: empreiteira ligada ao ministro russo da Construção ergue habitações de luxo nas ruínas da guerra e transforma a identidade de Mariupol.
Mariupol não é apenas uma cidade em disputa. É hoje um espelho do tipo de guerra que se trava no século XXI — onde não basta ocupar um território. É preciso reconstruí-lo para apagar quem o habitava.
A cidade que se tornou um símbolo da brutalidade da guerra na Ucrânia está a ser reconstruída — mas não para os que sobreviveram aos bombardeamentos, nem para os que fugiram das ruínas com o pouco que puderam salvar. Mariupol, hoje, é uma cidade em mutação profunda — física, política e identitária — sob domínio russo.
O que era uma cidade ucraniana vibrante, com vida portuária intensa e cultura própria, foi transformada numa zona de reconfiguração urbana ao serviço da ocupação. Segundo investigações internacionais, uma empresa ligada ao ministro russo da Construção está a liderar o processo de reconstrução, convertendo edifícios destruídos pela própria guerra em apartamentos de alto padrão para russos oriundos do interior da Federação.
O projeto, apresentado como um “renascimento urbano”, oculta uma operação silenciosa de colonização demográfica e apagamento da identidade ucraniana. Os poucos residentes locais que sobreviveram aos combates relatam despejos forçados, bloqueios à entrada na cidade e perda de direitos de propriedade — enquanto novos moradores russos são incentivados a estabelecer-se na zona com benefícios estatais e facilidades fiscais.
Mariupol caiu em maio de 2022, após semanas de cerco e bombardeamentos ininterruptos. Foi ali que o mundo assistiu, em direto, à destruição do Teatro Dramático da cidade — onde centenas de civis se refugiavam — e ao colapso total da infraestrutura urbana. Hospitais, escolas, zonas residenciais: nada foi poupado.
A reconstrução, agora conduzida por interesses ligados ao Kremlin, não é neutra. Não se trata de devolver a cidade aos seus habitantes, mas de redesenhá-la segundo os interesses geoestratégicos de Moscovo. Os novos empreendimentos seguem o modelo de cidades russas modernas, com arquitetura padronizada, vigilância eletrónica, escolas com currículo russo e toponímia alterada.
A cidade que volta sem os seus
Para muitos dos antigos habitantes de Mariupol, o pesadelo não terminou com o silêncio das armas. Vivem como deslocados internos em cidades ucranianas, ou exilados na Europa, impedidos de regressar à cidade onde nasceram. Alguns tentaram voltar, mas enfrentaram bloqueios burocráticos, perseguição, ou a constatação simples de que suas casas foram demolidas ou reocupadas.
“Reconstruir uma cidade sem os seus habitantes originais é mais do que engenharia civil — é engenharia identitária”, afirma a urbanista ucraniana Iryna Melnyk, investigadora em temas de reconstrução pós-conflito. “O que se passa em Mariupol é uma forma sofisticada de limpeza étnica urbana.”
Reconstrução como arma de guerra
Especialistas em direito internacional já alertam para a gravidade do que ocorre em Mariupol. “Este tipo de reconstrução serve para consolidar a ocupação, minar o direito ao retorno e institucionalizar o deslocamento forçado”, afirmou à Tempo o analista alemão Klaus Vinter, da Universidade de Heidelberg.
Vinter lembra que o uso de reconstrução para legitimar ocupações não é novo — mas o caso de Mariupol é particularmente simbólico por envolver uma cidade que foi destruída quase totalmente pelos próprios invasores. “É uma cidade que está a ser reconstruída para apagar o crime.”
A Rússia, por sua vez, apresenta o processo como um ato de responsabilidade e recuperação. Reportagens da imprensa estatal russa mostram imagens de novos bairros, creches, supermercados e arruamentos. Mas nenhuma dessas imagens mostra os antigos moradores. Eles desapareceram do plano urbano — e da narrativa.
A reconstrução de Mariupol é também uma mensagem para o interior da Rússia. Serve para mostrar ao cidadão comum que “vale a pena conquistar território”, porque novos espaços, com melhores condições de vida, podem ser postos à disposição de quem se alinha com o projeto imperial de Moscovo.
Para os ucranianos, no entanto, é mais uma ferida aberta. Uma cidade perdida não só pela força das armas, mas pela estratégia fria da substituição populacional. Uma cidade construída para outros, erguida sobre os escombros de quem a chamava lar.