Moçambique e Malawi reforçaram, esta Quinta-feira, os laços de amizade e cooperação com a assinatura de três instrumentos jurídicos bilaterais, no arranque da visita oficial de dois dias que o Presidente moçambicano, Daniel Chapo, realiza ao país vizinho, a convite do seu homólogo Lazarus Chakwera. O gesto simboliza uma tentativa declarada de abandonar a retórica e passar para a acção concreta num ano carregado de simbolismo político: os 50 anos da independência de Moçambique coincidem com cinco décadas de relações diplomáticas com o Malawi.
Lilongwe foi o palco do que os dois Chefes de Estado descreveram como “um novo ciclo” nas relações históricas entre os dois países. Para além do simbolismo, houve trabalho técnico e diplomático: foram assinados um acordo sobre serviços aéreos, um protocolo para a implementação da Fronteira de Paragem Única, e um memorando de entendimento nas áreas de telecomunicações e cultura e turismo. Tudo isto, envolto num discurso de irmandade e vizinhança estratégica, com promessas de maior dinamismo económico.
“A visita é uma oportunidade para reforçar as nossas relações de amizade, irmandade, solidariedade e de cooperação entre os dois povos e países”, declarou Daniel Chapo, durante uma conferência de imprensa conjunta, onde assumiu o compromisso de colocar a economia no centro da diplomacia. “Moçambique está comprometido em continuar a cooperar com o país irmão Malawi em prol do desenvolvimento económico dos dois países e do bem-estar social dos dois povos.”
Chakwera, por sua vez, apostou numa retórica de continuidade, sublinhando a matriz comum que une os dois Estados. “A visita vai proporcionar uma plataforma importante para fortalecer as relações existentes, que são baseadas em valores compartilhados, identidade comum e boa amizade”, afirmou.
A agenda incluiu também questões regionais de segurança, com o Presidente moçambicano a agradecer o envolvimento do Malawi na Missão da SADC em Cabo Delgado (SAMIM). “Queremos agradecer ao povo irmão Malawi que fez parte da força da SADC que combateu o terrorismo naquela região”, disse, acrescentando que Moçambique “está hoje mais estável, mais unido e a trabalhar para o seu desenvolvimento”.
Chapo aproveitou o encontro para alertar sobre os impactos das alterações climáticas no país, recordando que Moçambique foi atingido por três ciclones no espaço de um ano. “Este é um desafio global que temos de enfrentar juntos, para desenvolver casas e infra-estruturas mais resilientes”, apelou, apontando os corredores logísticos de Nacala e Beira como eixos críticos para a integração económica regional.
Em matéria de conectividade, Chapo defendeu o estabelecimento de ligações aéreas directas entre províncias moçambicanas como Tete ou Nampula e cidades malawianas, para fomentar o comércio e a mobilidade regional. “Queremos desenvolver mais as nossas relações na área de recursos minerais, energia, economia, transporte, logística, pesca, recursos hídricos”, acrescentou, apelando à implementação célere dos memorandos assinados.
A recepção protocolar no Palácio Kamuzu, a visita ao Parlamento e a deposição de uma coroa de flores no Kamuzu Memorial Park, marcaram o início da visita, cuja segunda jornada será dominada pelo lançamento do Posto de Fronteira de Paragem Única – mecanismo considerado chave na facilitação do comércio e circulação transfronteiriça.
O Presidente moçambicano aproveitou ainda a ocasião para endereçar, publicamente, um convite a Chakwera para participar nas celebrações do cinquentenário da independência nacional a 25 de Junho, lembrando que esta também será uma festa partilhada com o Malawi: “Não somos apenas irmãos. Somos irmãos gémeos.” Uma frase que, lida com a lente diplomática correcta, antecipa a expectativa de Moçambique por gestos recíprocos de um vizinho que, há décadas, partilha fronteiras — e agora, mais do que nunca, prioridades.


