Sintonize a Rádio Chuabo – 103.0 FM

Insegurança alimentar e desnutrição rural persistem 50 anos após a independência – Estudo do OMR

Data:

 

Passados 50 anos desde a independência, Moçambique continua a enfrentar níveis críticos de insegurança alimentar e desnutrição crónica, particularmente nas zonas rurais. A constatação é de um estudo recente do Observatório do Meio Rural (OMR), publicado na edição n.º 340 da série Destaque Rural, sob o título “Insegurança Alimentar e Nutrição no Meio Rural (1975–2025)”, da autoria do economista e investigador Yasser Arafat Dadá.

Estudo do OMR revela desafios estruturais na luta contra a fome em Moçambique
Estudo do OMR revela desafios estruturais na luta contra a fome em Moçambique

A análise abrange cinco décadas de evolução da segurança alimentar, desde a crise aguda provocada pela guerra civil até às actuais políticas públicas de mitigação da fome e promoção da nutrição, identificando pobreza persistente, baixa produtividade agrícola e choques climáticos recorrentes como os principais obstáculos ao progresso sustentável.

Avanços pontuais, mas insuficientes

O estudo assinala que houve melhorias na disponibilidade alimentar desde os anos 1980, período em que Moçambique foi altamente dependente de ajuda alimentar internacional. Contudo, os dados mais recentes indicam que cerca de 37% das crianças moçambicanas continuam a sofrer de desnutrição crónica – uma prevalência considerada “muito alta” pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A subnutrição afecta ainda cerca de um terço da população, segundo estimativas da FAO entre 2018 e 2020.

“Apesar de melhor acesso médio aos alimentos, a qualidade nutricional das dietas e os factores estruturais que afetam a absorção e utilização biológica continuam por resolver”, observa o autor.

Impacto dos choques climáticos e conflitos

Entre 2015 e 2023, eventos extremos como a seca provocada pelo El Niño (2015–2016) e os ciclones Idai e Kenneth (2019) agravaram a insegurança alimentar, afectando mais de dois milhões de pessoas em situação de emergência alimentar. O estudo destaca ainda o impacto do conflito em Cabo Delgado, que gerou deslocações em massa e elevou os níveis de desnutrição infantil na província para cerca de 45%, agravados por problemas de acesso a saúde, saneamento e segurança alimentar.

Políticas públicas e limitações

A nível institucional, o país aderiu a várias iniciativas internacionais, incluindo o Scaling Up Nutrition (SUN) em 2011, e implementou o Plano Multissectorial para Redução da Desnutrição Crónica (2010–2020). No entanto, segundo o OMR, “as metas estabelecidas não foram alcançadas” e a coordenação intersectorial permaneceu frágil. O programa SUSTENTA, voltado para o fortalecimento da agricultura familiar, também enfrenta limitações de cobertura e monitoria, de acordo com avaliações citadas no estudo.

Repercussões económicas

A desnutrição crónica não é apenas um problema de saúde pública: o relatório estima que Moçambique perde até 10% do seu PIB anualmente devido a impactos associados à subnutrição, como baixa produtividade laboral, fraco desempenho escolar e elevados custos com saúde.

Recomendações

Entre as recomendações, destacam-se:

  • Investimento em agricultura familiar resiliente ao clima, com acesso a insumos e assistência técnica;
  • Melhoria das infra-estruturas rurais (estradas, mercados, saneamento e electrificação);
  • Expansão de programas de nutrição comunitária e refeições escolares com produtos locais;
  • Reforço da protecção social com enfoque produtivo;
  • Empoderamento feminino, com acesso à terra, educação e saúde reprodutiva;
  • Fortalecimento da governação e monitoria pública dos programas alimentares.

Para o autor, “o crescimento económico não basta: é preciso integrar acções centradas nos mais vulneráveis, com visão transformadora”. A análise conclui que a erradicação da fome em Moçambique requer não apenas garantir a sobrevivência alimentar, mas assegurar o direito humano à alimentação adequada.


Discover more from Jornal Txopela

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Jornal Txopela
Jornal Txopelahttps://txopela.com
O Jornal Txopela é um dos principais órgãos de comunicação social independentes da província da Zambézia, em Moçambique. Fundado com o propósito de oferecer um jornalismo crítico e de investigação, o Txopela destaca-se pela sua abordagem incisiva na cobertura de temas políticos, sociais e económicos, dando voz às comunidades e promovendo o debate público.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Partilhar publicação:

Subscrever

PUB

spot_imgspot_imgspot_imgspot_img

Últimas

Relacionados
Relacionados

A juventude africana entre o conhecimento e a viralização

Por: Márcio Morais / Especialista em Ambiente e Desenvolvimento A...

António Zefanias eleito para a presidência da Associação de Basquetebol na Zambézia

Texto: Assura Lisboa Foi eleito, em Assembleia Geral realizada nesta...

Presidente da República participa na investidura do Presidente reeleito do Uganda

Texto: Redação O Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, participou...