Por: Márcio Morais / Especialista em Ambiente e Desenvolvimento
A internet começou a expandir-se em África a partir da década de 1990, trazendo enormes expectativas de desenvolvimento, educação e integração global. Em Moçambique, a conexão oficial surgiu em 1992, num período em que muitos acreditavam que a tecnologia ajudaria a formar uma geração mais informada, crítica e preparada para o futuro. Durante anos, a internet foi vista como uma ferramenta capaz de democratizar o conhecimento, aproximar culturas e abrir novas oportunidades para a juventude africana.
Contudo, ao lado desses benefícios, cresce silenciosamente uma crise cultural preocupante: a substituição do conhecimento pela busca obsessiva por viralização. Em muitos países africanos, incluindo Moçambique, as redes sociais passaram a valorizar mais a popularidade do que a capacidade intelectual. Conteúdos superficiais, polémicas, conflitos públicos, danças virais e exposição exagerada da vida privada recebem mais atenção do que debates educativos, ciência, leitura ou reflexão social. O algoritmo recompensa aquilo que prende a atenção, não aquilo que contribui para o crescimento humano.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han afirma que a sociedade digital transformou as pessoas em produtos de exposição permanente, onde a visibilidade passou a valer mais do que a essência. Essa lógica tornou-se evidente sobretudo entre os jovens africanos, muitos dos quais passaram a associar sucesso apenas a seguidores, curtidas e fama instantânea.
Talvez o sinal mais alarmante dessa transformação esteja nas próprias crianças. Antigamente, muitas sonhavam em ser médicas, professoras, engenheiras, pilotos ou cientistas. Hoje, um número crescente deseja tornar-se Influencer Digital, não necessariamente para educar ou inspirar, mas porque vê nas redes sociais um caminho rápido para dinheiro, reconhecimento e popularidade.
O problema não está em influenciar pessoas. Toda sociedade precisa de referências positivas e comunicadores capazes de inspirar mudanças. A preocupação surge quando a fama começa a substituir o conhecimento e quando o desejo de aparecer se torna maior do que a vontade de aprender. Muitas crianças já não encaram os estudos como prioridade, porque a internet transmite diariamente a ideia de que basta viralizar para vencer na vida.
O paradoxo africano é preocupante: nunca os jovens estiveram tão conectados à internet, mas o continente continua enfrentando dificuldades na formação de profissionais nas áreas de ciência, tecnologia e engenharia. Um relatório publicado em 2024 pela Comissão da União Africana e pela OCDE, citado pela UNESCO, revelou que apenas 9% dos jovens entre 15 e 24 anos, em 15 países africanos analisados, possuem competências básicas de informática.
Enquanto as redes sociais produzem celebridades digitais diariamente, muitos países africanos continuam enfrentando escassez de engenheiros, pesquisadores, programadores e profissionais qualificados para responder aos desafios tecnológicos do futuro.
Mais preocupante ainda é que, na corrida pela viralização, algumas pessoas acabam submetendo-se à exposição extrema da intimidade e à degradação da própria imagem em troca de atenção e monetização. O corpo, a privacidade e a dignidade passam a ser tratados como mercadoria digital num ambiente onde a validação pública parece valer mais do que os próprios valores pessoais.
Essa realidade é especialmente perigosa para África, um continente que ainda enfrenta enormes desafios ligados à educação, desemprego juvenil, pobreza e desenvolvimento humano. Nenhuma sociedade consegue avançar de forma sólida quando a juventude perde o interesse pelo conhecimento, pela leitura e pela formação intelectual.
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