O que há entre Israel e Irão já não dever ser olhado como um conflito localizado no Médio Oriente, é ao meu ver, uma tentativa calculada de transformar àquela disputa em uma guerra de grandes proporções, com implicações globais imprevisíveis. E, mais uma vez, o epicentro dessa estratégia tem nome e sobrenome: Benjamin Netanyahu.
Ele justifica a operação com os relatórios do temível Serviço de Inteligência Mossad e busca convencer ao mundo de que as instalações nucleares iranianas representam uma ameaça forte. Mas há aqui um dado técnico inescapável e fundamental, Israel, por si só, não dispõe da capacidade militar necessária para eliminar o programa nuclear iraniano, digo, não tem, por exemplo, as bombas capazes de penetrar profundamente no subsolo e atingir as instalações fortemente fortificadas do Irão.
Aqui está o verdadeiro jogo. Sem capacidade de eliminar o programa nuclear iraniano de forma autônoma, resta a Israel uma estratégia, instar os Estados Unidos a entrarem directamente na guerra.
Este tipo de jogo não é novo, lembremo-nos da invasão do Iraque em 2003, baseada nos relatórios forjados sobre armas de destruição em massa. Então, foi Colin Powell, no Conselho de Segurança da ONU, brandindo frascos e mapas para justificar uma guerra devastadora e ilegal. Hoje, o roteiro se repete com outros protagonistas, mas com o mesmo objectivo, fabricar um pretexto.
Essa manipulação tem um custo, destrói as bases do direito internacional. Se um país pode atacar outro simplesmente porque “pode” ou porque inventa uma ameaça, então o mundo passa a viver sob a lei do mais forte.
E depois, há um elemento de hipocrisia brutal neste cenário. Quem é, afinal, o único país do Médio Oriente com armas nucleares? Israel. Segundo estimativas, possui cerca de 90 ogivas nucleares. E quem é o único país da região que nunca assinou o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares? Novamente, Israel. O mesmo país que acusa os outros de buscarem aquilo que ele próprio já tem em segredo, mas amplamente conhecido e sem qualquer supervisão internacional.
Mas a obsessão de Netanyahu acho que não é meramente geopolítica. Há um cálculo de sobrevivência política alí também. A guerra lhe garante a permanência no poder, vai adiar processos na justiça e impede também que o país o responsabilize por uma série de acusações de corrupção e má gestão.
Mas o grande risco mesmo, não é para o Médio Oriente. É para o planeta. Se os Estados Unidos forem arrastados para um confronto directo com o Irão e, consequentemente, com seus aliados o conflito rapidamente assumirá proporções globais. É ver a posição da Rússia e da China nas últimas horas sobre o assunto.
Hoje é uma tensão localizada mas amanhã isto pode ser a fagulha de uma nova ordem mundial feita de caos, instabilidade econômica e um sofrimento humano incalculável.
Não é apenas o Irão, nem apenas o Médio Oriente. Estamos todos na linha de fogo.
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