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Ossufo Momade: O coveiro da oposição moçambicana

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A oposição política moçambicana encontra-se hoje em estado vegetativo. Completamente deslocada dos centros de decisão, desarticulada nas suas estruturas de base, desmoralizada junto do eleitorado urbano e rural, e reduzida, no essencial, a um papel de espectadora dos acontecimentos. No epicentro deste colapso progressivo está uma figura: Ossufo Momade, líder da RENAMO, a maior força da oposição desde o Acordo Geral de Paz de 1992. Se há um nome que ficará gravado nos anais da história como o grande facilitador da morte política da oposição multipartidária em Moçambique, é o dele.

Em ciência política, a liderança partidária eficiente baseia-se em três pilares: legitimidade, visão estratégica e capacidade mobilizadora. Ossufo Momade falhou em todos.

Primeiro, a legitimidade. A forma como ascendeu à liderança da RENAMO, logo após a morte de Afonso Dhlakama, foi marcada por uma série de manobras internas pouco transparentes, ausência de um congresso democrático. Isso gerou ao meu ver desconfiança, não só dentro do partido, mas também junto da base social da RENAMO, que via em Dhlakama uma figura de autoridade quase mística, agregadora e combativa.

Segundo, o carisma não se fabrica e Ossufo Momade nunca o teve. A sua presença pública é fria, sem magnetismo, nem força discursiva. Não inspira militância, nem respeito adversarial. Em política, especialmente em regimes com forte domínio hegemónico como o moçambicano, o líder da oposição precisa ser símbolo de resistência e esperança. Ossufo foi, no máximo, um gestor burocrático da desmobilização do seu partido.

Chegado a presidência da RENAMO, Momade optou por um discurso apaziguador, conciliatório e submisso. Conduziu o partido por um caminho de normalização forçada, como se fosse possível coexistir pacificamente com um regime que não abdica da manipulação eleitoral, do controlo dos media, do aparelho judicial e da intimidação policial.

Momade apostou numa estratégia de aproximação institucional à Frelimo, sem qualquer contrapartida visível para a RENAMO. Assinou o Acordo de Paz Definitiva em 2019, entregou as armas, aceitou desmobilizar guerrilheiros, mas nada exigiu de volta em termos de reformas estruturais nem na CNE, nem no STAE, nem no sistema de governação local. Resultado? A RENAMO ficou desarmada literal e politicamente.

No campo eleitoral, permitiu a participação em pleitos viciados sem qualquer preparação estratégica, sem uma máquina eleitoral robusta, e sem exigência prévia de condições mínimas de transparência. Entregou-se ao jogo fraudulento das urnas, onde a Frelimo já tem as cartas marcadas.

Um partido político é, sobretudo, uma máquina de organização popular. Comités, núcleos, juventudes, ligas femininas, secretariados provinciais, células nos bairros e nas zonas rurais. A RENAMO sob Momade colapsou estruturalmente. Não houve congressos regulares, não se renovaram quadros, não se consolidou a presença institucional nas zonas onde a RENAMO sempre teve capital político como Nampula, Zambézia, Sofala e Manica.

Muitos antigos combatentes e militantes históricos foram deixados ao abandono, sem reintegração social nem ocupação política. A juventude da RENAMO foi desmobilizada sem alternativa organizacional. Perdeu-se a massa crítica e o partido tornou-se uma casca institucional vazia, sem músculo social, nem intelectual.

Ossufo Momade não liderou. Administrou a decadência. Aceitou o papel de actor secundário num sistema construído para perpetuar o domínio da Frelimo. Em vez de erguer a bandeira da oposição, fez dela um trapo cinzento.

A política moçambicana precisa de figuras capazes de inspirar, articular, desafiar e mobilizar. Momade nunca foi isso. Foi o gestor do fim de um ciclo. Um coveiro sem luto. E como tal, o povo já o julgou nas urnas e na memória colectiva, será lembrado como aquele que, tendo herdado um instrumento de luta política legítima, preferiu dobrá-lo e enterrá-lo em silêncio.


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Zito do Rosário Ossumane
Zito do Rosário Ossumanehttps://txopela.com/
Zito do Rosário Ossumane é um jornalista investigativo, empreendedor da comunicação e activista político moçambicano. Fundador e diretor do Jornal Txopela, consolidou a sua trajetória na luta pela liberdade de imprensa, transparência e defesa dos direitos humanos em Moçambique. Actualmente Presidente o Misa na Zambezia

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