O Presidente da República, Daniel Chapo, defendeu esta segunda-feira, em Maputo, uma nova abordagem regional e ousada na gestão de recursos hídricos e zonas costeiras, num contexto em que os efeitos das alterações climáticas já se fazem sentir de forma brutal e persistente em Moçambique.
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Falando na abertura do 16.º Simpósio de Hidráulica e Recursos Hídricos (SILUSBA) e do 11.º Congresso de Planeamento e Gestão de Zonas Costeiras dos Países de Língua Portuguesa, o Chefe do Estado deixou um recado claro: o tempo das intenções passou, e a resposta à crise hídrica deve ser coordenada, inovadora e solidária, sob pena de os países em desenvolvimento, como Moçambique, pagarem com vidas e destruição a lentidão global.
“Os desafios das mudanças climáticas não conhecem fronteiras. E, por isso, também não podem ser enfrentados com egoísmos nacionais nem com soluções importadas que ignoram as realidades locais”, afirmou Chapo, num discurso que cruzou tecnocracia e política.
Moçambique partilha nove das quinze principais bacias hidrográficas da África Austral, um dado geográfico que, na leitura do Presidente, impõe obrigações e exige protagonismo regional. Ao mesmo tempo, reiterou o compromisso com os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, em particular o ODS 6 (água e saneamento), e destacou a nova Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025–2044 como guia para a transformação estrutural do país neste sector vital.
Tecnologia, prevenção e diplomacia hídrica
O Presidente sublinhou que o país passou, em menos de uma década, de um sistema de alerta meteorológico que oferecia apenas um dia de antecedência para seis dias — progresso que, segundo afirmou, já contribuiu para a redução significativa da perda de vidas humanas em eventos extremos como ciclones e inundações.
“Hoje emitimos alertas com seis dias de antecedência. Em 2016, tínhamos apenas um. Isso é resultado de investimento nacional em ciência e prevenção. Os efeitos já são visíveis e salvam vidas”, declarou Chapo, lembrando os avanços na implementação de sistemas de aviso prévio, infraestruturas de contenção e ordenamento territorial em zonas de risco.
Mas foi no plano da cooperação que o Presidente foi mais contundente: voltou a defender a intensificação da diplomacia hídrica com os países com os quais Moçambique partilha bacias, nomeadamente Zambeze, Limpopo, Rovuma e Incomáti, ao mesmo tempo que apelou a um maior engajamento da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) na adopção de estratégias conjuntas de mitigação climática.
“É preciso que os países com maiores níveis de emissões de carbono também se sentem à mesa connosco, ou não haverá justiça climática. As soluções têm de ser equilibradas e baseadas na solidariedade internacional.”
O SILUSBA regressa a Maputo doze anos depois da sua primeira edição em solo moçambicano, então marcada por cheias devastadoras na bacia do Limpopo. “Na altura, saímos daqui com ideias que nos ajudaram a repensar a gestão de cheias. E hoje, voltamos com maior maturidade institucional e científica para avançar ainda mais”, frisou o Presidente.
A edição actual decorre sob o lema “Gestão dos Recursos Hídricos e das Zonas Costeiras em Cenários de Adaptação Climática”, reunindo especialistas, académicos e decisores políticos de países lusófonos, com o objectivo de discutir políticas públicas, inovação tecnológica e financiamento climático.
O discurso de Chapo, ao mesmo tempo firme e tecnocrático, parece tentar reposicionar Moçambique como um país que não espera de braços cruzados pela ajuda externa, mas que exige lugar à mesa nas decisões globais sobre clima.
“Torna-se imperativo transformar os desafios em oportunidades e, dessa forma, contribuir para a independência económica dos nossos países”, rematou, num sinal de que, para além da água, também a autonomia política está em debate neste simpósio.
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