Por: Manuela Gozanga*
Em Inglaterra é conhecido, também, como “The Cycling Mayor”. Com Manuel de Araújo, escritor, académico, presidente decano do município de
#Quelimane, professor e pedagogo brilhante, passámos um fim de tarde luminoso, em
#Évora, na Livraria Fonte de Letras. Pretexto: falar do seu livro de crónicas “explosivas” que começou por escrever na blogosfera, e editados pela editora gala-gala, ‘Pedalando Moçambique: Quo Vadis Democracia & Outras Reflexões’. É esse que tem estado, agora, a apresentar em vários pontos de Portugal, onde vem com frequência.
E a pessoa folheia o pequeno livro e mergulha num retrato de reflexão intensa sobre a governação, a democracia, a participação política, o desenvolvimento social e económico moçambicanos. E mais… Textos breves e cirúrgicos, de uma coragem a raiar o desassombro. É de cortar o fôlego. E porém, Manuel de Araujo tinha a carreira feita e gostava francamente de viver em Inglaterra para onde foi estudar e onde viveu dez anos. Além disso, diz-nos, habitou-se muito bem ao frio, gostava da “chuvinha chata” e até do “mau feitio dos ingleses” e sentia-se muito por bem lá, apesar da sua horrorosa gastronomia. Mas ia a Moçambique com frequência! Só que com bilhete de ida e volta porque, no Reino Unido o seu brilhante percurso académico (doutoramento em Desenvolvimento Inernacional pela East Anglia University, dois mestrados, etc etc) lhe auguravam uma vida de estudo e crescimento, para além de gratificantemente confortável.
Mas… não. E tudo o que ele sempre dissera “detestar” — envolvimento politico activo, por exemplo — se tornou o seu desígnio. Então voltou a Moçambique para ficar. E avançar para uma candidatura autárquica. As pessoas batiam-lhe à porta de madrugada. Chegaram a aparecer-lhe « às quatro da manhã ». E ele acabou por dizer « Aceito ». Mesmo sem dinheiro para as mordomias que tais percursos implicam. Lá, como em todo o lado.
Com uma muito pequena equipa, programaram objectivos. Mas o programa era demasiado dispendioso. E a factura mais elevada era a destinada a viaturas e a gasolina : “Não se faz nada”, explicou aos leitores e ouvintes deliciados ontem, em Évora, “sem carros a desfilarem”. Então decidiu: «corta-se esse item.» Os seus colaboradores contestaram : «sem carros, não há cortejo, sem cortejo não há campanha. Dssiste já.» Ele não desistiu. Mas ficou sem equipa.
De repente, percebeu que atrás de si vinham umas cinco bicicletas. Sorriu. E continuou. Depois umas 20. Trinta. Cem!! A certa altura, as arruadas deste candidato chegaram somar dezenas de milhares de ciclistas participantes e apoiantes cheios de um entusiasmo como ainda não se tinha visto. O povo, em peso, levando-o literalmente à gloriuosa vitória.
«O que mais o motivou?». Ele apontou para os livros que se alinnhavam nas prateleiras da livraria em Évora, e depois para o seu próprio livro, e disse :” Por ele, por eles. Quando estudava, tinha de andar 20 quilómetros para ler. Da minha casa à escola, são cinco. Ao almoço, sem dinheiro para cantinas, voltava a casa: mais cinco. Depois, regressava à escola: outros cinco. E ao fim das aulas, novamente para casa.”.
Desde então, o autarca e o político “mais culto de Moçambique”, já fez obra grande. Por exemplo, “acabar com a cólera” na Zambézia, graças a medidas de saneamento básico fundamentais. Mas falta tanto… e há tantos objectivos para cumprir! A literacia, por exemplo.
Contatou várias embaixadas pedindo apoios para construir bibliotecas em Quelimane. Não na cidade, mas nos povoados como aquele onde vivia, e onde as crianças e os jovens não têm acesso a livros nenhuns. Foram todos encantadores, e, encantadoramente disseram que boa ideia mas não podemos (os nossos países) apoiar tal iniciativa. Só o embaixador do Império do Sol Nascente lhe garantiu que o seu país ia colaborar nesse desígnio. E já são quatro, as bibliotecas que Manuel de Araújo conseguiu ver erguidas, de pedra e cal com apoio do Japão.
Faltam os livros. Mas ontem, no final deste encontro mágico, cada um de nós magicava a forma de fazer esse pequeno grande milagre acontecer. A dificuldade é o envio, os contentores, etc. Mas o escritor, o político o professora, o filho da sua Terra Moçambique atalhou esse problema com um sonoro: “Arranjem-me os livros que dos contentores e seu envio trato eu!»
As fotos que ilustram o evento, pequenino, discreto, e profundamente transformador foram retiradas da página do
José Sá, português-moçambicano presente no evento. Obrigada.
- Nota editorial:
O título deste artigo é da inteira responsabilidade da redação do jornal. A escolha editorial visa condensar o conteúdo principal do texto e torná-lo acessível ao público leitor, sem prejuízo do pensamento, estilo ou intenção original da autora. O conteúdo integral do artigo mantém-se fiel ao texto de Manuela Gozanga, cuja autoria é aqui reconhecida e respeitada.
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O texto foi redigido segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, em sua aplicação europeia (portuguesa).
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