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Um vasto repertório de protestos – A etnografia das manifestações pós-eleitorais, escrevem João Feijó e Rita Chiúre

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Um país sacudido por panelaços, bloqueios de estrada e palavras de ordem contra o poder. Das ruas da Beira aos bairros de Maputo, Moçambique viveu, entre Outubro de 2024 e Janeiro de 2025, uma das mais intensas convulsões populares desde o início da democracia multipartidária. O cenário que se desenhou nesses meses está minuciosamente retratado no estudo etnográfico de João Feijó e Rita Chiúre, publicado pelo Observatório do Meio Rural (OMR), no Destaque Rural nº 329, sob o título “Um Vasto Repertório de Protestos – A Etnografia das Manifestações Pós-Eleitorais” (OMR, 12 de Maio de 2025).

Das urnas para as ruas: a centelha da revolta

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As eleições gerais de Outubro de 2024 acenderam o rastilho de uma indignação que já vinha sendo alimentada por anos de pobreza, desigualdades e descrença nos mecanismos formais de participação cívica. A vitória do partido Frelimo e a proclamação de Daniel Chapo como Presidente da República foram contestadas por parte significativa da população, especialmente nas regiões onde a oposição tem maior influência.

“O país assistiu a um estado de psicose colectiva, geradora de excessos, com profundo impacto no tecido social”, escrevem os autores. Segundo Feijó e Chiúre, o movimento espontâneo, mas catalisado por directrizes digitais de Venâncio Mondlane, candidato da oposição, transformou bairros em palcos de protesto criativo e, por vezes, violento.

Marchas, panelaços e túmulos na estrada

A repressão policial contra manifestações inicialmente pacíficas levou os protestos a mudarem de forma e espaço. As ruas principais deram lugar a becos e bairros; as concentrações deram lugar à dispersão organizada. Bloqueios de estrada com pneus em chamas, panelaços em janelas de prédios e cartazes colados em viaturas — tudo servia como forma de expressão política.

“Durante este período, importantes corredores de circulação foram transformados em esplanadas, cozinhas, estendais para secar roupa, locais de corte e costura, dormitórios, ou espaços de lazer,” detalha o documento.

Arte, sátira e resistência digital

Com humor corrosivo e criatividade abundante, artistas plásticos, músicos e humoristas engrossaram o coro de protesto. Músicas como Xitsungu e Povo no Poder, de Stewart Sukuma e Kiba the Seven, abarrotaram pelas redes sociais e ruas. Desenhos do artista Fredy Uamusse tornaram-se virais. E nas plataformas digitais, as transmissões ao vivo de Venâncio Mondlane chegaram a bater recordes, com 167 mil visualizações simultâneas.

Da resistência ao confronto: vandalismo e morte

À medida que a tensão aumentava, também o grau de violência. O estudo revela que instalações da Frelimo foram queimadas em várias províncias, símbolos do Estado destruídos e estátuas de figuras históricas profanadas. “Só na cidade da Matola, a Frelimo declarou necessitar de 22 milhões de meticais para reabilitação de sedes destruídas”, apontam os autores.

A resposta das forças de segurança foi brutal. De acordo com dados da plataforma DECIDE citados no estudo, pelo menos 125 pessoas perderam a vida e até 22 agentes da polícia foram mortos em linchamentos. “O aumento de vítimas mortais por baleamento… aumentou a ira popular contra a polícia”, lê-se no relatório.

Ocupar para resistir: o retorno do povo ao território

Num fenómeno reminiscentes dos anos 70, terrenos e propriedades privadas, muitas delas ligadas a figuras do regime, foram invadidos. Quintas, lojas, escolas privadas e até residências de dirigentes foram ocupadas. Em Marracuene, um bairro informal foi batizado de “Venâncio Mondlane” em homenagem ao líder opositor. A ocupação da piscina da residência de Roque Silva, ex-secretário-geral da Frelimo, tornou-se um dos símbolos mais marcantes dessa fase de revolta.

Um país em catarse

A etnografia dos protestos, descrita por Feijó e Chiúre, revela muito mais do que desobediência civil: revela um povo que, diante do que vê como a erosão da justiça e da democracia, escolheu a rua como espaço legítimo de política.

“O protesto é a linguagem dos que não são ouvidos”, já dizia Martin Luther King Jr. Em Moçambique, a rua falou alto. Resta saber quem está a ouvir.

 

 


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