Sintonize a Rádio Chuabo – 103.0 FM

População consome água com fezes directamente das torneiras

Data:

Maputo vive, neste momento, um dos mais graves escândalos de saúde pública das últimas décadas. Milhares de moçambicanos estão a consumir, diariamente, água turva, fétida e imprópria para o consumo humano, tudo sob o olhar impassível das autoridades reguladoras e da empresa pública de abastecimento, Águas da Região Metropolitana de Maputo (AdRMM).

📢 Junte-se ao canal do Jornal Txopela no WhatsApp!

Receba notícias e alertas em primeira mão diretamente no seu telemóvel.

👉 Seguir Canal no WhatsApp

Bairros como Alto Maé, Munhuana, Bagamoyo, Malhangalene, Tchumene e muitos outros transformaram-se em laboratórios de doenças hídricas. Crianças com dores estomacais, vómitos e diarreias estão a ser levadas aos hospitais após ingerirem o líquido que deveria lhes garantir vida, mas que, neste caso, parece estar a oferecer a morte gota a gota, é uma conclusão do Observatório Cidadão para a Saúde (OCS),  organização nacional compost por profissionais de saúde, cientistas sociais e investigadores interessados em contribuir para o fortalecimento da participação do público no debate atinente ao sector de saúde.

O relatorio recentemente divulgado por esta organizacao refere que a população tem vindo a consumir água contaminada, abastecida através da rede pública e ou fornecedores privados no país. Maputo, Matola e Tete estão entre algumas regiões cujos moradores consomem água contaminada, segundo constatações do Observatório Cidadão para a Saúde (OCS). Análises laboratoriais diversas concluem que, em alguns casos, a água está contaminada por bactérias maléficas ou químicos prejudiciais à saúde humana.  A situação coloca a população a viver no risco iminente de contrair doenças de origem hídrica.

Governo lava as mãos com água suja

A violação do Decreto Ministerial n.º 180/2004, que regula a qualidade da água para consumo humano, tornou-se rotina. A AdRMM e a Autoridade Reguladora de Águas (AURA, IP) ignoram, sem pudor, as reclamações da população. Procuradas pelo Observatório Cidadão para a Saúde (OCS), ambas as instituições optaram pelo silêncio, um silêncio cúmplice e criminoso, que fala alto sobre o estado de abandono em que vive o povo.

Em Tete, os relatos são ainda mais assustadores, água contaminada com metais pesados como ferro e manganês, provenientes da exploração mineira, continua a ser distribuída como se fosse potável. A ausência de tratamento eficaz é a regra. A presença de coliformes fecais em furos e nascentes públicos foi confirmada pelos académicos. Mesmo assim, o líquido continua a jorrar livremente das torneiras — e dos túmulos.

Enquanto os relatórios oficiais celebram estatísticas, a realidade no terreno mata. Em 2024, Maputo registou mais de 10 mil casos de diarreia em apenas 18 semanas. Em 2023, foram 20 mil casos de cólera em todo o país. Crianças com menos de cinco anos continuam a ser as maiores vítimas, representando a esmagadora maioria das mais de 3 milhões de mortes anuais causadas por doenças relacionadas com água contaminada no mundo, segundo a OMS.

Apesar disso, a resposta institucional resume-se a notas técnicas, reformas administrativas e concessões a operadores privados que, na prática, operam sem fiscalização eficaz. A promessa de acesso universal à água potável até 2030, inscrita nos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), está a afundar no mesmo esgoto que contamina as condutas de abastecimento.

O país que quer crescer… com a barriga cheia de germes

Paulo Marcos Sebastião, engenheiro químico e doutor em Meio Ambiente, afirma: “O fornecimento de água imprópria compromete a saúde pública, afecta a produtividade nacional e perpetua o subdesenvolvimento.” E o mais grave: o problema é conhecido, diagnosticado, mapeado,  mas deliberadamente ignorado.

O Governo de Moçambique assina tratados internacionais de qualidade, como a norma ISO 24500, mas dentro de portas permite que operadores forneçam água com odor, cor estranha e bactérias fecais, em plena capital do país. O que não se vê nos gráficos do INE é que muitas famílias, mesmo tendo torneiras, são obrigadas a ferver água, comprar galões ou, pior ainda, resignar-se ao consumo de veneno líquido.

Com a proliferação de operadores licenciados pelo Estado, a gestão da água virou oportunidade de negócio, mas sem garantias de qualidade. O controlo laboratorial é esporádico e quase sempre feito por iniciativa dos próprios cidadãos. Foi o caso de uma estudante universitária que descobriu, por conta própria, que três das cinco amostras de água recolhidas em mercados populares da cidade de Maputo eram impróprias para o consumo humano.

A cada copo, uma roleta russa. A cada banho, um risco de infecção. A cada silêncio das autoridades, uma sentença assinada.

Autor

  • Jornal Txopela

    O Jornal Txopela é um dos principais órgãos de comunicação social independentes da província da Zambézia, em Moçambique. Fundado com o propósito de oferecer um jornalismo crítico e de investigação, o Txopela destaca-se pela sua abordagem incisiva na cobertura de temas políticos, sociais e económicos, dando voz às comunidades e promovendo o debate público.


Discover more from Jornal Txopela

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

📢 Anuncie no Jornal Txopela!

Chegue mais longe com a sua marca.
Temos espaços disponíveis para publicidade no nosso site.

Alcance milhares de leitores em Moçambique e no mundo.

Saiba mais e reserve já
Jornal Txopela
Jornal Txopelahttps://txopela.com
O Jornal Txopela é um dos principais órgãos de comunicação social independentes da província da Zambézia, em Moçambique. Fundado com o propósito de oferecer um jornalismo crítico e de investigação, o Txopela destaca-se pela sua abordagem incisiva na cobertura de temas políticos, sociais e económicos, dando voz às comunidades e promovendo o debate público.
0 0 votes
Article Rating
Subscribe
Notify of
guest

0 Comentários
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments

Partilhar publicação:

Subscrever

PUB

spot_imgspot_imgspot_imgspot_img

Últimas

Relacionados
Relacionados

EDUCAÇÃO NA ZAMBÉZIA: GOVERNO AINDA SEM PLANOS DE REABILITAR ESCOLA PRIMÁRIA AEROPORTO

Na Escola Primária Aeroporto, dezenas de alunos assistem às...

6.320 candidatos disputam 560 vagas para o curso de formação de professores na Zambézia

Na província da Zambézia, 6.320 candidatos concorrem a apenas...

Há Fraca Procura De Material Escolar Em Quelimane

Com o arranque do ano lectivo 2026 cada vez...

Funcionários do Instituto IPIMO em Quelimane Reivindicam 5 Meses de Salários Atrasados

Em Quelimane, oito funcionários do Instituto Politécnico Islâmico de...

Para obter conteúdo completo, assine os serviços entrando em contato com a área comercial do Jornal Txopela - [email protected]
Todos os conteúdos do Jornal Txopela são protegidos por direitos autorais sob a legislação moçambicana.

0
Would love your thoughts, please comment.x
Verified by MonsterInsights