Por: Márcio Morais / Especialista em Ambiente e Desenvolvimento
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A África do Sul, frequentemente apresentada como um símbolo de reconciliação e
democracia no continente africano, enfrenta hoje uma contradição profunda: o
crescimento de sentimentos e práticas xenófobas dirigidas, sobretudo, contra outros
africanos. Moçambicanos, angolanos e, mais recentemente, nigerianos tornaram-se
alvos de hostilidade num país que, ironicamente, deve parte significativa da sua
libertação ao apoio solidário de nações vizinhas.
O fenómeno não é novo, mas a sua recorrência e intensidade levantam sérias
preocupações. Desde os ataques violentos de 2008, que resultaram em dezenas de
mortos, até episódios mais recentes de agressões, pilhagens e expulsões forçadas, a
xenofobia consolidou-se como uma ferida aberta na sociedade sul-africana. Trata-se de
um problema estrutural, alimentado por desigualdades profundas, desemprego elevado
e frustrações sociais acumuladas.
O argumento mais recorrente para justificar essa hostilidade é a competição por
empregos. No entanto, esta explicação revela-se limitada. Muitos estrangeiros não
apenas ocupam espaços negligenciados, como também dinamizam a economia local
através do comércio informal e de pequenos negócios. Paradoxalmente, é esse
crescimento económico e social que frequentemente desperta ressentimento. O
problema deixa de ser apenas a falta de oportunidades e passa a ser o sucesso do
“outro”.
Mais do que xenofobia, o que se observa é uma forma de “afrofobia” uma rejeição
dirigida contra cidadãos do próprio continente. Este fenómeno expõe uma crise de
identidade africana e um enfraquecimento dos valores de solidariedade que
historicamente sustentaram as lutas de libertação.
É neste contexto que as palavras de Nelson Mandela, ícone da luta contra o apartheid,
ganham particular relevância: “ninguém nasce a odiar outra pessoa pela cor da sua
pele, pela sua origem ou pela sua religião. As pessoas aprendem a odiar, e, se podem
aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.” A realidade sul-africana demonstra
que o ódio não surge espontaneamente; ele é construído, alimentado e, muitas vezes,
instrumentalizado. Por isso, também pode e deve ser desconstruído.
Do ponto de vista económico, os efeitos da xenofobia são igualmente preocupantes. A
destruição de pequenos negócios, a perda de postos de trabalho e a redução do
dinamismo económico mostram que a exclusão de estrangeiros não resolve o
desemprego pelo contrário, tende a agravá-lo. A instabilidade social afasta
investidores, fragiliza o ambiente de negócios e compromete relações comerciais com
outros países africanos. Em vez de proteger a economia, a xenofobia acaba por
enfraquecer os seus próprios alicerces.
Do ponto de vista dos direitos humanos, a situação é alarmante. A Constituição sul-
africana consagra princípios de igualdade, dignidade e não discriminação,
independentemente da nacionalidade. Contudo, na prática, muitos estrangeiros
continuam a ser vítimas de violência, exclusão social e limitações no acesso a serviços
básicos. Esta contradição entre o quadro legal e a realidade revela fragilidades
institucionais e falhas na aplicação da justiça.
Importa reconhecer que a xenofobia não nasce no vazio. Ela prospera onde existem
desigualdades profundas, desemprego elevado e discursos populistas que
transformam estrangeiros em bodes expiatórios. Em vez de enfrentar as causas
estruturais dos problemas, cria-se um inimigo externo conveniente.
A África que se pretende construir integrada, livre e solidária não pode coexistir com
práticas de exclusão entre os seus próprios povos. A xenofobia na África do Sul não é
apenas um problema nacional; é um sinal de alerta para todo o continente.
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