Por: Márcio Morais / Especialista em Ambiente e Desenvolvimento
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Moçambique volta a confrontar-se com um fenómeno que, embora recorrente, continua a
produzir consequências trágicas: a força destrutiva dos boatos. A narrativa de que um simples toque no ombro pode provocar o desaparecimento de órgãos genitais espalhou-se rapidamente nas regiões Centro e Norte do país, gerando pânico coletivo, agressões e mortes. Estima-se que pelo menos 11 pessoas tenham perdido a vida em consequência direta dessa crença, transformando suspeitas infundadas em sentenças fatais.
Do ponto de vista científico, não há qualquer evidência que sustente tais alegações.
Especialistas enquadram estes episódios no fenómeno conhecido como Koro, caracterizado
por ansiedade intensa e sensação de retração dos órgãos genitais, sem desaparecimento físico real. Ainda assim, a ausência de informação clara e acessível, aliada à rápida circulação de
rumores, tem sido suficiente para transformar perceções em “verdades” socialmente aceites.
Para compreender este cenário, importa recorrer ao pensamento de autores moçambicanos
que têm refletido sobre a construção social do conhecimento e das crenças. O filósofo Severino Ngoenha tem insistido na necessidade de uma consciência crítica como base para uma sociedade mais racional e responsável. Para ele, quando essa capacidade de questionar é fragilizada, abre-se espaço para a aceitação acrítica de narrativas que podem comprometer a vida coletiva. O contexto atual parece ilustrar precisamente essa fragilidade: a dificuldade de distinguir entre evidência e crença, entre facto e boato.
Por sua vez, o antropólogo Lourenço do Rosário sublinha que fenómenos sociais desta
natureza não podem ser analisados fora do seu contexto cultural. As crenças, ainda que não sustentadas cientificamente, têm raízes profundas nas formas como as comunidades
interpretam o mundo. No entanto, isso não significa que devam ser aceites sem
questionamento, sobretudo quando resultam em violência. Pelo contrário, exige-se um trabalho contínuo de mediação cultural, capaz de introduzir conhecimento científico sem desrespeitar os contextos locais.
O problema, portanto, não é apenas a existência do boato, mas o ambiente em que ele
prospera. A combinação entre défice de pensamento crítico, circulação descontrolada de
informação e medo coletivo cria as condições ideais para que uma narrativa falsa ganhe força e se transforme em ação. E quando essa ação assume a forma de violência, estamos perante uma falha grave do tecido social.
Há ainda uma dimensão ética incontornável: a empatia. Quando uma comunidade agride ou mata com base numa suspeita, revela-se uma ruptura profunda na capacidade de reconhecer o outro como ser humano. O medo passa a justificar tudo, inclusive a perda de vidas inocentes.
Desconstruir esta narrativa exige mais do que desmentidos pontuais. Requer investimento em educação que promova o pensamento crítico, comunicação clara e próxima das comunidades e o envolvimento ativo de lideranças locais. Exige, acima de tudo, a construção de uma cultura social onde questionar seja um valor e onde a vida humana seja inegociável.
Enquanto o medo continuar a substituir a razão, e o boato ocupar o lugar do conhecimento,
tragédias como estas continuarão a repetir-se. Combater boatos não é apenas corrigir
informações falsas é proteger vidas e fortalecer a base da convivência social.
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