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INVESTIGAÇÃO: Africa Great Wall Mining Company acusada de burla em Micaune

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Empresa chinesa combinou com O chefe do posto para reduzir indemnizações de 200 mil para 3 mil meticais. Populações revoltadas queimaram uma viatura e destruíram máquinas da mineradora.

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POR : Zito Ossumane (Jornalista investigativo, com especialização em Governação da Indústria Extractiva)

Uma empresa de capitais chineses que acumula um longo historial de conflitos com comunidades do litoral da Zambézia voltou a ser palco de acusações graves. Desta vez, no Posto Administrativo de Micaune, no extremo sul da província, a Africa Great Wall Mining Company é acusada de ter, em conluio com a autoridade local, rasgado um acordo de indemnização com os moradores, substituindo valores acordados entre 50 mil e 200 mil meticais por um montante que os próprios afectados classificaram de insulto: três mil meticais.

 

Os factos, confirmados por fontes locais ouvidas por este semanário, apontam para um padrão que se repete. A Africa Great Wall Mining Company, que detém licenças de exploração de areias pesadas em Chinde e Inhassunge — dois distritos onde já acumulou tensões e confrontos directos com as populações —, chegou a Micaune para desenvolver actividades extractivas que implicavam a ocupação e destruição de parcelas de terra anteriormente dedicadas à agricultura de subsistência.

Antes do início das operações, foi estabelecido um acordo entre a empresa e os moradores afectados. Segundo testemunhos recolhidos pela nossa redacção, os valores acordados a título de indemnização variavam entre 50 mil e 200 mil meticais, consoante a dimensão e produtividade das parcelas sacrificadas. Para famílias que dependem exclusivamente da terra para sobreviver, esses valores representavam, pelo menos, a possibilidade de uma transição com dignidade.

“Devolvemos o dinheiro. Três mil meticais não é indemnização — é uma afronta aos donos da terra.”

O que aconteceu a seguir é o que os moradores descrevem como uma traição cuidadosamente orquestrada. No momento do pagamento, e em alegado conluio com o Chefe do Posto Administrativo de Micaune, a empresa decidiu pagar apenas três mil meticais a cada família — menos de dois por cento do valor mínimo acordado. Uma decisão unilateral, sem qualquer processo de renegociação, sem a presença de representantes comunitários, e sem justificação apresentada.

A população não aceitou. O dinheiro foi devolvido na íntegra. “Três mil meticais não é indemnização — é uma afronta aos donos da terra”, disse uma das fontes ouvidas pelo nosso jornal, recusando-se a ser identificada por razões de segurança. A indignação acumulada rapidamente se transformou em acção colectiva.

 

CHAMAS NO POSTO

Viatura do chefe do Posto Administrativo de Micaune em chamas, incendiada por populares durante protestos relacionados com alegadas irregularidades no processo de indemnizações.
Viatura do chefe do Posto Administrativo de Micaune em chamas, incendiada por populares durante protestos relacionados com alegadas irregularidades no processo de indemnizações.

Os protestos que se seguiram foram documentados por imagens e vídeos enviados à nossa redacção por fontes locais. A manifestação, que reuniu moradores das zonas directamente afectadas pelas operações da mineradora, culminou com a queima da viatura do Chefe do Posto Administrativo — um sinal inequívoco da intensidade da revolta contra aquele que era percepcionado como cúmplice da empresa.

Os registos visuais confirmam igualmente a destruição de maquinaria operacional pertencente à Africa Great Wall Mining Company presente na área. O grau de dano ainda está por apurar, mas as imagens sugerem que os equipamentos afectados estavam em plena operação no momento dos incidentes.

 

O QUE DIZ A LEI MOÇAMBICANA

A Lei de Terras (Lei n.º 19/97) e respectivo regulamento estabelecem que qualquer actividade que implique a ocupação de áreas comunitárias exige prévia consulta comunitária e compensação justa aos afectados. O não cumprimento deste processo pode constituir fundamento de nulidade das licenças atribuídas e de responsabilidade civil das empresas envolvidas.

 

A legislação mineira moçambicana reforça igualmente a obrigação de negociação transparente com as comunidades locais antes do início de qualquer exploração.

 

UM HISTÓRICO DE CONFLITOS

O caso de Micaune não acontece no vácuo. A Africa Great Wall Mining Company acumula, há anos, um historial perturbador de relações com as comunidades dos distritos onde opera. Em Chinde e Inhassunge, distritos costeiros da Zambézia onde a empresa detém igualmente licenças de exploração de areias pesadas, registaram-se confrontos e queixas recorrentes relacionadas com o desrespeito pelos acordos comunitários, impactos ambientais não mitigados e ausência de benefícios locais tangíveis.

O padrão que emerge é consistente: uma empresa que chega com promessas, obtém o acesso à terra e aos recursos, e depois recua nos compromissos assumidos, confiando na assimetria de poder entre si e as populações rurais, e — como sugere o caso de Micaune — na conivência de agentes do Estado local.

A presença de empresas extractivas de capital estrangeiro no litoral da Zambézia tem sido objecto de crescente escrutínio por parte de organizações da sociedade civil. As areias pesadas — que incluem minerais como o ilmenite, o rutilo e o zircão, com elevado valor nos mercados internacionais — são exploradas em comunidades que raramente vêem os benefícios dessa riqueza chegar às suas mesas ou escolas.

 

A SOMBRA DO ESTADO

Viatura do chefe do Posto Administrativo de Micaune consumida pelas chamas, após ter sido incendiada por manifestantes, na sequência de protestos contra alegado incumprimento de acordos de indemnização por parte de uma empresa mineira.
Viatura do chefe do Posto Administrativo de Micaune consumida pelas chamas, após ter sido incendiada por manifestantes, na sequência de protestos contra alegado incumprimento de acordos de indemnização por parte de uma empresa mineira.

O alegado envolvimento do Chefe do Posto Administrativo na decisão de reduzir unilateralmente os valores de indemnização é, porventura, o aspecto mais grave desta história. Se os factos se confirmarem, estaremos perante um caso de captura de uma autoridade do Estado local por interesses empresariais privados — um fenómeno que corrói a confiança das populações nas instituições e que empurra as comunidades para a acção directa como único meio de defesa.

“Quando o Estado se torna parceiro silencioso da exploração em vez de árbitro da justiça, as chamas deixam de ser vandalismo — tornam-se sintoma de um sistema que falhou.”

A Direcção Provincial de Recursos Minerais e Energia da Zambézia, bem como a administração distrital, não responderam aos pedidos de comentário enviados por este jornal até ao fecho desta edição. A Africa Great Wall Mining Company também não prestou declarações.

O QUE VEM A SEGUIR

A situação em Micaune permanece tensa. Fontes locais indicam que os moradores estão determinados a não ceder enquanto não forem devidamente indemnizados nos termos do acordo original. A eventual intervenção das forças de segurança para conter os protestos — e proteger os interesses da empresa — poderá agravar ainda mais o clima de crispação.

Do ponto de vista legal, os afectados têm fundamento para recorrer aos mecanismos de resolução de conflitos previstos na legislação mineira e fundiária, bem como para apresentar queixa formal junto da Procuradoria da República. A questão é se encontrarão instituições dispostas a ouvi-los com isenção.

A Africa Great Wall Mining Company, por seu turno, enfrenta agora não apenas um problema operacional — as máquinas destruídas e a paralisia das actividades — mas um problema reputacional crescente que se estende muito além das fronteiras da Zambézia.

 

O Jornal Txopela continuará a acompanhar este caso nos próximos serviços noticiosos. Informações adicionais, testemunhos e documentação visual relacionados com este caso podem ser enviados para a nossa redacção através dos canais habituais. Os nomes das fontes ouvidas para a elaboração desta reportagem foram preservados por razões de segurança.


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Zito do Rosário Ossumane
Zito do Rosário Ossumanehttps://txopela.com/
Zito do Rosário Ossumane é um jornalista investigativo, empreendedor da comunicação e activista político moçambicano. Fundador e diretor do Jornal Txopela, consolidou a sua trajetória na luta pela liberdade de imprensa, transparência e defesa dos direitos humanos em Moçambique. Actualmente Presidente o Misa na Zambezia

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