Por: Luís de Figueiredo
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Na sua mais recente visita à província da Zambézia, o Presidente da República, Daniel Chapo, teceu declarações controversas ao afirmar que as manifestações violentas pós-eleitorais causaram mais estragos que a guerra dos dezasseis anos. Tal comparação, para além de despropositada, revela uma perigosa tentativa de reescrever a memória coletiva de um dos períodos mais trágicos da história moçambicana.
Comparar manifestações populares – por mais violentas que possam ter sido – com uma guerra civil que durou 16 anos, matou centenas de milhares de moçambicanos, forçou milhões ao deslocamento e deixou um país em escombros, é não só uma banalização do sofrimento vivido durante esse conflito, como uma instrumentalização política da dor nacional. É importante reconhecer que a violência, em qualquer forma, deve ser condenada. No entanto, colocá-la no mesmo patamar, ou até acima, de uma guerra devastadora é falacioso e irresponsável.
As declarações do Presidente ignoram a complexidade histórica e social da guerra civil moçambicana. A destruição não se mede apenas por edifícios demolidos ou vilas abandonadas. A guerra dos dezasseis anos dilacerou comunidades inteiras, dividiu o país e deixou feridas profundas ainda hoje visíveis na estrutura social e económica de Moçambique. Reduzir esse período a uma mera comparação de danos materiais é uma forma de minimizar seu impacto e reescrever a história à luz de interesses políticos imediatos.
Por outro lado, ao equiparar manifestações populares a uma guerra, o Chefe de Estado corre o risco de criminalizar a contestação democrática. As manifestações, mesmo quando degeneram em violência – algo que deve ser investigado e punido com base na lei – são, em essência, uma expressão política. Equipará-las a atos de guerra é colocar a cidadania ativa no campo do inimigo, é reforçar uma narrativa autoritária em que qualquer voz dissonante é vista como uma ameaça à ordem nacional.
Se a preocupação do Presidente é com a destruição das vilas na Zambézia, o caminho mais sensato seria o de buscar as causas profundas da instabilidade pós-eleitoral – como a falta de confiança nas instituições, denúncias de fraude, e o sentimento de exclusão política – ao invés de adotar discursos inflamados que demonizam o protesto. É preciso fazer justiça sem recorrer à hipérbole e ao revisionismo histórico.
Por fim, ao apelar à solidariedade da sociedade moçambicana com os afetados pelas manifestações, o Presidente assume um tom que seria mais convincente se não estivesse contaminado por uma retórica que confunde destruição com dissidência e guerra com protesto. A solidariedade nasce da empatia, não do medo.
É tempo de tratar os desafios pós-eleitorais com responsabilidade, diálogo e verdade histórica. Porque nenhuma manifestação, por mais caótica que seja, deve ser equiparada à tragédia de uma guerra civil. Fazer essa equivalência é um insulto à memória de quem viveu e morreu por um Moçambique em paz.
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