Por Zito do Rosário Ossumane
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Por muito tempo, a teoria da “vez do centro” em Moçambique foi vista como uma narrativa marginal, descartada pelos pesos pesados da nomenclatura frelimista e pelos seus braços académicos, moldados à propaganda. Conquanto, com Daniel Chapo a assumir o mais alto cargo da República, depois da hegemonia sulista de Samora Machel, Joaquim Chissano e Armando Guebuza, e da liderança nortista de Filipe Nyusi, o centro finalmente parece ter atingido o ponto da virada.
A ascensão de Daniel Chapo, coadjuvado por Chakil Aboobakar como Secretário-Geral da Frelimo, vem confirmar uma profecia que muitos consideravam remota. O que mudou? É evidente que o partido no poder sentiu as fissuras crescentes na sua base de apoio, especialmente nas províncias centrais, onde historicamente os machuabos, ndaus e cisenas sempre foram relegados nas cadeias de comando e decisão. Essas etnias, conhecidas pela sua forte identidade cultural e tradição de resistência, enfrentaram anos de marginalização, perpetuando a ideia de um centro politicamente subjugado.
A escolha de Chapo não é fruto do acaso, mas de uma estratégia para neutralizar o aumento da insatisfação popular e conter os ventos de contestação que sopravam com força da Zambézia, Sofala e de Manica. O papel de Filipe Paúde, apontado por muitos como o arquiteto silencioso dessa transição, traz uma nova camada à narrativa. Com um zambeziano (Chakil Aboobakar) a ocupar um lugar estratégico dentro da Frelimo, os sinais são claros: o centro já não pode ser ignorado.
O centro de Moçambique sempre recebeu menos investimentos e menor atenção em políticas públicas. Décadas de negligência consolidaram desigualdades estruturais e alimentaram o ciclo vicioso da pobreza e da falta de oportunidades. A insurgência silenciosa, baseada na frustração popular, não é novidade para os que acompanharam a história de resistência por cá, marcada por momentos de grande tensão com o governo central.
Mas a ascensão ao poder será suficiente para reverter esses problemas históricos? O desafio não será apenas simbólico. As promessas, tão repetidas nas épocas eleitorais, precisam finalmente ser acompanhadas por acções concretas. O desenvolvimento da infraestrutura, a aposta na educação, a criação de empregos e a descentralização efectiva são algumas das medidas que o centro tanto exige e espera.
Se a lógica da hegemonia regional seguir o seu curso, será a vez do centro mostrar a sua força. Os homens e mulheres dessa região, conhecidos pela astúcia política e capacidade estratégica, terão a missão de devolver o país aos trilhos depois de anos de gestão vacilante e de “atrapalhices” políticas.
A questão que paira no ar é se haverá uma ruptura com os velhos hábitos. Moçambique tem uma longa tradição de promessas não cumpridas e discursos vazios. Teremos coragem para fazer diferente? A história nos dará a resposta. Até lá, o centro ocupa o palco central. Resta saber se brilhará ou se apagará sob os mesmos vícios do passado.
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