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Entre o Nhambaro e as Iguarias de Quelimane

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Por: Márcio Morais / Especialista em Ambiente e Desenvolvimento

A Zambézia continua a afirmar-se como um dos maiores patrimónios culturais de Moçambique, onde as tradições permanecem vivas no quotidiano das comunidades, nos batuques, nos rituais, nos sabores e na memória coletiva do seu povo. Em Quelimane, cidade histórica banhada pelo rio dos Bons Sinais, a cultura resiste ao tempo através da dança, da música e da gastronomia, preservando manifestações que atravessam gerações e reforçam a identidade zambeziana.

Entre os símbolos culturais mais marcantes da província destaca-se o Nhambaro, dança tradicional profundamente ligada às raízes do povo Chuabo. Muito antes da chegada das influências modernas e dos ritmos estrangeiros, O som dos tambores já ecoava pelos terreiros, cerimónias tradicionais, casamentos e festas populares, reunindo comunidades inteiras em celebração.

O Nhambaro nessa altura não representava apenas entretenimento; era também expressão de convivência, identidade e transmissão de valores culturais entre gerações. Com o passar do tempo, aquele ritmo ancestral ganhou outra sonoridade com o surgimento da jovem banda Saldicos, que introduziu alguns temperos ao Nhambaro, fundindo o ritmo tradicional com elementos eletrónicos amplificados pelos emblemáticos aparelhos Grundig da época. A partir dessa inovação musical, o Nhambaro conquistou forte expressão entre a malta jovem, passando a dominar os bairros, as pistas de dança e os convívios culturais do Pequeno Brasil, tornando-se uma das maiores referências festivas e culturais da juventude quelimanense daquela época.

E quando se revisita a memória musical desta cidade, torna-se impossível não recordar o histórico grupo 1º de Maio, que durante décadas animou as noitadas de Quelimane. A canção “Verdes Campos” permanece até hoje como uma referência incontornável da nostalgia e do sentimento de pertença cultural de muitos zambezianos.
Na cultura zambeziana, a dança e a gastronomia caminham lado a lado. Depois dos
batuques e das grandes festas culturais, a mesa transforma-se num espaço de união,
reconciliação e partilha familiar.
As famosas patanicuas continuam presentes nas ruas e nos encontros familiares,
enquanto o bolinho de sura mantém-se como uma das maiores referências da
gastronomia popular local. A sanana, os micates, a mucapata, o frango à Zambeziana
e o tradicional Todwé continuam a honrar a riqueza culinária da província, preservando
receitas transmitidas de geração em geração. Os aromas do coco, da mandioca, do milho pilado e das especiarias tradicionais continuam a marcar presença nas cozinhas zambezianas, reforçando a ligação entre cultura, memória e gastronomia.

Falar das iguarias de Quelimane implica também reconhecer o papel das mulheres que, ao longo dos anos, preservaram a essência da culinária tradicional local. Neste contexto, merece destaque a saudosa Dona Ditosa, do Bairro Popular, figura respeitada pela dedicação e valorização da gastronomia típica zambeziana, deixando um legado que permanece vivo na memória cultural da cidade.

Como defendia o primeiro Presidente de Moçambique independente, Samora Machel, “a cultura é a arma de libertação do homem moçambicano”, frase que continua atual no debate sobre a preservação das tradições nacionais.

Não se pode terminar esta viagem de reflexão entre o Nhambaro e as iguarias de Quelimane sem prestar homenagem ao saudoso cantor Doutor Mussa Rodrigues, artista que, através das suas letras em língua local, valorizava e exaltava a cultura. Se dependesse dele, talvez todos nós seríamos cantores da província da Zambézia.


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O Jornal Txopela é um dos principais órgãos de comunicação social independentes da província da Zambézia, em Moçambique. Fundado com o propósito de oferecer um jornalismo crítico e de investigação, o Txopela destaca-se pela sua abordagem incisiva na cobertura de temas políticos, sociais e económicos, dando voz às comunidades e promovendo o debate público.

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