Por: Márcio Morais / Especialista em Ambiente e Desenvolvimento
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A Inteligência Artificial (IA) consolidou-se como um dos principais motores da
transformação contemporânea. Da optimização de sistemas produtivos à previsão de
fenómenos climáticos, a sua capacidade de processamento redefine a forma como as
sociedades organizam o conhecimento e a tomada de decisão. No entanto, por detrás
desta narrativa de progresso, emerge uma dimensão ainda pouco discutida: o impacto
da IA sobre o ecossistema terrestre.
A percepção de que o digital é imaterial continua a prevalecer, mas revela-se ilusória. A
IA depende de uma infraestrutura física intensiva, composta por centros de dados,
redes de telecomunicações e cadeias produtivas que consomem energia, água e
recursos minerais. O funcionamento contínuo desses sistemas implica uma procura
crescente de eletricidade e uma pressão adicional sobre os ecossistemas.
Num contexto global, o crescimento da IA está a aumentar o consumo de energia, o
que levanta preocupações sobre a sua sustentabilidade. Em África, esta realidade
assume contornos particulares. O continente apresenta níveis relativamente baixos de
industrialização digital, o que se traduz numa contribuição direta mais reduzida para as
emissões tecnológicas. Ainda assim, é uma das regiões mais expostas aos efeitos das
mudanças climáticas.
Este é o paradoxo africano: participa menos na origem do problema, mas sofre
intensamente as suas consequências.
A IA surge, neste contexto, como uma tecnologia ambivalente. Pode apoiar a previsão
de eventos extremos, melhorar a produtividade agrícola e contribuir para a gestão
eficiente de recursos. Mas, ao mesmo tempo, a sua expansão global intensifica a
procura energética e reforça dinâmicas de consumo que pressionam o ambiente.
No contexto moçambicano, esta questão torna-se ainda mais sensível. Os académicos
moçambicanos Filipe Mucavele e Carlos Serra oferecem leituras complementares
sobre este desafio: Mucavele defende que o desenvolvimento deve estar ancorado na
sustentabilidade, enquanto Serra alerta para os efeitos não previstos do progresso
tecnológico, sublinhando a necessidade de uma abordagem crítica e responsável. A
expansão da Inteligência Artificial, nesse sentido, exige equilíbrio entre inovação e
responsabilidade ambiental. No caso da IA, essa tensão torna-se evidente entre o
potencial de solução e o impacto ambiental associado.
Moçambique insere-se diretamente nesta equação.
Com cerca de 20% da população com acesso à Internet, o país ainda enfrenta
limitações significativas de conectividade. A maioria dos utilizadores depende de redes
móveis, com desigualdades marcantes entre zonas urbanas e rurais. Ainda assim, essa
limitação digital não reduz a exposição aos efeitos das mudanças climáticas.
Ciclones, cheias e secas fazem parte de uma realidade recorrente, afetando
comunidades e sistemas produtivos. Este cruzamento entre baixa digitalização e alta
vulnerabilidade climática cria um cenário particularmente sensível.
A Inteligência Artificial pode ser uma ferramenta relevante para enfrentar estes
desafios, desde que orientada para aplicações concretas e úteis. O seu valor
dependerá menos da tecnologia em si e mais da forma como é integrada no contexto
local.
Existe, contudo, um elemento frequentemente ignorado: o padrão de utilização. Mesmo
em contextos de acesso limitado, o uso crescente de tecnologias tende a reproduzir
comportamentos globais. A utilização automática e pouco crítica da IA, especialmente
para tarefas simples, contribui para um aumento cumulativo da procura energética à
escala global.
O problema não está apenas na produção da tecnologia, mas no seu uso quotidiano, o
que exige uma mudança de abordagem. A adoção da Inteligência Artificial em África
não deve replicar modelos de consumo intensivo, mas priorizar aplicações com impacto
social e ambiental positivo. No fundo, a questão não é usar mais tecnologia, mas usá-la
melhor, com critério e responsabilidade.
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