Durante décadas, a FRELIMO viveu confortavelmente amparada pelos fundos directos ao Orçamento do Estado, milhões de dólares que vinham religiosamente de Lisboa, Bruxelas, Haia, Londres e Estocolmo. Esse apoio sustentava sectores como a saúde, educação, infraestrutura e ironicamente até a “boa governação”. Na verdade, esses fundos foram durante muito tempo a tábua de salvação de um Estado cuja máquina partidária confunde-se com o próprio aparelho estatal.
Mas em 2016, com o escândalo das dívidas ocultas, àquela traição doméstica com os doadores ingénuos ou cúmplices as torneiras foram fechadas. O financiamento ao orçamento foi interrompido. E a FRELIMO, em vez de fazer o exame de consciência e assumir os seus erros, virou-se contra os doadores e, por tabela, contra a sociedade civil que hoje é por eles apoiada.
O problema, para os camaradas, não é o dinheiro do Ocidente. É o destino desse dinheiro.
Enquanto os fundos enchiam as contas do Ministério das Finanças, de empresas estatais-fantasma e de consultoras de fachada ligadas aos filhos do poder, tudo estava bem. Chamavam-se “parceiros estratégicos”. Aplaudiam-se as reformas. Fazia-se pose para as câmaras com os embaixadores.
Mas agora que os mesmos parceiros optaram por apoiar ONGs nacionais, jornalistas independentes, activistas locais e plataformas cívicas, os novos “inimigos da pátria” , o dinheiro tornou-se “ingerência estrangeira”.
Antes era ajuda para o desenvolvimento, agora é manipulação neocolonial.
Essa hipocrisia tem nome! O que Guebuza e outros sectores dentro da FRELIMO não conseguem esconder é o desconforto com o fim de uma era em que o Estado-partido detinha o controlo absoluto dos recursos, da narrativa e da verdade. A sociedade civil organizada está a ocupar os espaços deixados por um Estado que desistiu de cumprir o seu papel fiscalizador e redistributivo.
O apoio externo às ONGs, longe de ser um problema, é uma correção necessária. Hoje, são essas organizações que denunciam raptos, violência policial, corrupção, desmandos administrativos, tráfico de influência e atentados aos direitos humanos. São elas que ajudam a manter acesa a chama da cidadania.
Claro que há ONGs oportunistas. Mas entre estas e um Estado capturado, cujo histórico recente é de roubo institucionalizado, a escolha não é difícil.
A crítica de Guebuza e vinda de alguém envolvido, directa ou indirectamente, nas decisões que levaram Moçambique à falência moral e financeira, essas palavras perdem qualquer autoridade. O que se vê, no fundo, é apenas o lamento de uma elite desconfortável com a descentralização do poder, inclusive o poder de influenciar consciências.
O Ocidente pode ter acordado tarde, mas ao menos aprendeu. Em vez de sustentar um aparelho partidário clientelista, decide agora empoderar cidadãos e coletivos independentes. E isso dói nos bolsos e nas vaidades de quem se habituou a ser o único interlocutor válido entre Moçambique e o mundo.
Se querem reconquistar a confiança dos parceiros e da sociedade moçambicana, que comecem por prestar contas, devolver o que roubaram e respeitar o pluralismo. Até lá, não se queixem do novo rumo do dinheiro. Porque o problema nunca foi o Ocidente — foi sempre quem controlava o cofre.
Hipocritamente falando, Mamparas of The Week
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