Foi com profunda dor e consternação que recebi a triste notícia do desaparecimento físico de Bernard Weimer, carinhosamente chamado de “Tio Pizza” pelos meus filhos. Sempre que vinha a Quelimane, Bernard fazia questão de levá-los para jantar, e o cardápio era sempre pizza — ele insistia que fossem eles a escolher o menu. Assim, o cognome nasceu naturalmente.
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Conheci Bernard Weimer nos primórdios dos anos 90, em plena era monopartidária. Bernard era o representante da Fundação Friedrich Ebert, uma das poucas instituições alemãs acreditadas em Moçambique naquela época. Quando terminou o seu mandato, escolheu Moçambique como pátria adotiva.
Anos depois, conheci Markus, filho de Bernard, em Londres, no Chatham House, e uma forte amizade nasceu entre nós.
Na época em que conheci Bernard, Moçambique estava em guerra civil e as negociações de paz em Roma estavam em curso. Com a aprovação da nova Constituição de 1990, que pôs fim ao monopartidarismo, o regime dava os primeiros passos rumo a um futuro democrático. Poucos em Moçambique sabiam o que era multipartidarismo, mas Bernard Weimer não só conhecia o conceito, como era um fervoroso defensor da democracia. A Fundação Friedrich Ebert, à qual estava ligado, pertencia ao Partido Social Democrata alemão, com raízes democráticas sólidas.
Para os jovens que não viveram o monopartidarismo, explico: num sistema monopartidário, apenas um partido é permitido, e qualquer tentativa de criar uma força política alternativa era considerada ilegal. Os ousados que tentavam eram presos e, em alguns casos, fuzilados.
Quem desejasse ocupar qualquer cargo político ou cívico tinha que ser membro do partido no poder. Mesmo os sindicatos, organizações de jovens e mulheres, e associações profissionais eram filiados ao partido. Por exemplo, os trabalhadores só tinham uma entidade representativa, a Organização dos Trabalhadores Moçambicanos (OTM). Os jornalistas tinham a Organização Nacional dos Jornalistas (ONJ), os professores a Organização Nacional dos Professores (ONP), os jovens a Organização da Juventude Moçambicana (OJM) e as mulheres a Organização das Mulheres Moçambicanas (OMM). Todas essas instituições eram controladas pela Frelimo.
Bernard Weimer, alemão por nascimento, mas moçambicano de coração, compreendia os desafios que o país enfrentava. Empenhou-se em preparar a sociedade moçambicana para o futuro, promovendo seminários sobre democracia, descentralização e separação de poderes, conceitos desconhecidos por muitos na época.
Esses seminários impulsionaram o surgimento de um grupo de moçambicanos que se dedicaram à criação de organizações da sociedade civil. Depois da primeira greve estudantil na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), muitos de nós percebemos que a OJM não nos representava. Criamos então as primeiras associações estudantis de Moçambique independente.
A primeira foi a Associação de Estudantes Universitários (AEU), que representava os estudantes da UEM, do Instituto Superior de Relações Internacionais (ISRI) e da Universidade Pedagógica (UP). Por divergências internas, fundamos a Associação de Estudantes de Relações Internacionais (AERIM), da qual fui o primeiro Secretário-Geral, e a Associação dos Estudantes do Instituto Superior Pedagógico.
Bernard desempenhou um papel crucial na fundação dessas associações, oferecendo formação, alugando salas e financiando materiais. Ele até disponibilizava sua própria máquina fotocopiadora para ajudar nas atividades.
O governo e as empresas estatais não financiavam essas novas entidades. Mesmo as embaixadas, temendo represálias, evitavam apoiar nossas atividades. Muitos estudantes vinham das províncias com poucos recursos e as associações que sobreviveram foram as que souberam inovar e adaptar-se.
A Fundação Friedrich Ebert, sob a liderança de Bernard Weimer, foi essencial nesse processo. Ele apoiou tanto as novas instituições da sociedade civil quanto os partidos políticos emergentes, oferecendo treinamento e financiamento para seminários. Vale destacar que o primeiro financiamento da AERIM veio dessa Fundação e foi destinado à realização de um seminário sobre descentralização em Xai-Xai, Gaza.
Weimer foi um incansável defensor da democracia e da descentralização em Moçambique. Lecionou e orientou teses e artigos em várias universidades. Muitos dos atuais professores, comentadores e pesquisadores em ciência política foram seus alunos.
Ex-ministros da Administração Estatal, como Mazula e Alfredo Gamito, o tiveram como assessor por muitos anos, ao lado de figuras como o Professor Gwambe, Giles Custac e Irae Baptista Lundim de Coloane. Juntos, formaram a vanguarda da institucionalização da descentralização em Moçambique.
Durante as recentes manifestações pós-eleitorais, trocamos diversas ideias sobre possíveis soluções. Bernard compartilhou um artigo sobre sua visão para resolver a tensão pós-eleitoral.
Na semana passada, trocamos nossa última mensagem. Ele me disse que estaria presente no aniversário da Cidade de Vilanculos, no dia 25 de fevereiro, e combinamos um jantar para pôr a conversa em dia. Estava animado por estar a trabalhar com o novo edil, a quem recomendara um “coaching”.
Perdemos um pilar do processo de democratização e descentralização em Moçambique, justo no momento em que mais precisávamos dele. Numa semana em que os partidos políticos discutem os Termos de Referência para a Reforma do Estado e das Leis Eleitorais, sua ausência será profundamente sentida.
A Vicky, o Lole e a Inês Ivone sentirão para sempre a falta do “Tio Pizza”. Como explicar-lhes que ele jamais estará connosco?
Descanse em paz, amigo, conselheiro, mentor, coach e professor. Professora Irae, receba nosso amigo e mostre-lhe a casa celestial.
Manuel de Araújo
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